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Resumo
O objeto de enfoque é o romance Anacrusa de Ricardo Daunt (2004),
narrativa que instiga a leitura justamente por seu caráter inovador.
Dentre os aspectos salientados pela análise destacam-se a estrutura
dinâmica e múltipla do romance, a composição
em anacrusa, a qual coloca em jogo estratégias como repetições,
andamentos alternados, arranjos inusitados, contrapontos
Traindo a aparente afinidade com o propósito do romance existencialista
de cunho psicológico, a ficção do Autor exibe uma
resolução estética original que desmascara os limites
daquele gênero, propondo outra concepção estrutural.
É por conta dessa inovação que o jogo entre escrita
e leitura intensifica-se como desafio.
Não podemos passar pelos títulos das obras como se eles
fossem janelas totalmente transparentes a nos remeterem de imediato para
além. Ao contrário, não só a transparência
é enganosa como uma parada para perceber sua real textura é
necessária.
Assim, Anacrusa (2004), título do romance de Ricardo Daunt,
oferece-nos como signo que nos instiga a atenção pelos sentidos
sugeridos por essa forma de composição na qual se cruzam
diversas fontes. Procedimento musical mas também forma poética
e discursiva, na anacrusa despontam repetições, oscilação
entre andamentos, arranjos inusitados, espaços e imagens imprevisíveis,
contrapontos. E, sobretudo, uma modulação que se autocontempla
como fazer. É o que a narrativa apresentará em seu percurso.
Não por acaso, o processo da anacruse, que o texto coloca em prática,
era uma das técnicas do discurso socrático, dinâmica
em que uma palavra provoca outra palavra de modo a destacar, não
propriamente os sujeitos do discurso, mas a germinação de
fios tecidos pela linguagem.
O que confere dinamismo ao texto ficcional do Autor, dentre outros aspectos,
é a sua composição à maneira de uma montagem
de cenário, não somente pela alusão às peças
que o compõem, mas principalmente pelo processo escritural que
vai se realizando aos olhos do leitor. Estruturado em quatro momentos
— "Os nomes e os modos", "A levedura dos corpos",
"A pelotinha de Isabel", "O equinócio e a germinação
das plantas" — essa singular trajetória do romance enunciada
já pelos títulos permite situar a narrativa num espaço
marcado pelos corpos que encenam a construção de sua existência
no universo da escrita. Articulação que se explicita na
retomada de frases ou palavras finais de um capítulo no seguinte,
alternando-se a modulação fraco/forte e tornando-a plena
de conotações, assim ampliando o sentido original de musicalidade
da anacrusa. Personagens, vozes, tempos e espaços autoconstituem-se
como peças móveis, apenas aparentemente moduladas por um
narrador que ao mesmo tempo rege a composição e a deixa
se fazer por si mesma. Desse modo, se um fio existencialista poderia perpassar
a narrativa, ele acaba dissolvendo-se graças à maneira original
com que o existencialismo se estrutura, tratando-se, antes, como o próprio
Autor reconhece, de um neo-existencialismo, menos por sua temática
do que pela construção inovadora. Se o romance está
centrado em três personagens — Antônio, Vidal e Isabel — o
movimento que essa triangulação adquire acaba desfocando
as identidades para colocá-las num círculo de contínuas
correspondências e intersecções. E, se lembrarmos
que Anacrusa dá continuidade a outro romance de Daunt, Manuário
de Vidal (1981), então as correspondências e o jogo com
as identidades intensificam mais ainda os seus sentidos.
Entre Antônio e Vidal, desdobramentos de um mesmo (?) sujeito, arma-se
um jogo de cabra-cega, de mútuas provocações, quer
pela disputa por Isabel, quer pela busca de afirmação das
identidades ou consciências, as quais simultaneamente se complementam
e se recusam a ser a contraparte um do outro. É que Vidal, a componente
infantil ou imatura de Antônio, e este, já na fase adulta,
constituem instâncias de um psicologismo problemático, porém
corporificado na técnica discursiva auto-reflexiva por meio da
qual a ironia, com que tal desdobramento é focado, acaba desmitificando
a prática convencional do psicologismo da narrativa realista: "Digo-lhe
que Vidal está crescido, e que seus suspiros fundos não
me deixam dormir. Por fim suplico-lhe para deixar o adolescente em paz."
(p. 56). Essa oscilação engenhosa entre maturidade e imaturidade
se fortalece quando o que está em causa é o imaginário
masculino acerca da figura feminina, representada pela personagem Isabel.
O mito da mulher-peixe, complementado pela visão fantasiosa (e
fantástica) da sexualidade, não só traduzem a busca
de decifração do ser feminino como também desmascaram
o conflito interior (homem adulto x criança), ambos marcados pela
ambigüidade entre transparência e opacidade. Objeto que desliza
para o incapturável, a mulher atua como invasora do espaço
familiar e perturbadora da ordem, mas também instigadora de gestos
liberais. Despontam na narrativa curiosas situações metafóricas,
como a descoberta por Vidal de seu apetite sexual, levando-o a retirar
a tampa do aquário em que estava imersa a mulher para poder tocá-la,
procurando "emancipar Isabel de seu recanto". (Con)fundindo-se
o real e o fantástico, ingenuidade e malícia, revelação
e ocultamento, a ótica desestabilizadora do narrador põe
a nu o difícil exercício de autoconhecimento a que se entrega
o sujeito.
Uma das faces que a ficção de Daunt exibe é seu espírito
corrosivo na focagem de sistemas autoritários ou repressores, como
o guarda, personagem que percorre a narrativa em vários de seus
momentos (a policia?), sendo objeto de desmascaramento pelo narrador.
A sua transformação em espantalho, um fantoche a serviço
do poder, quer o da narrativa, quer o da instituição social,
não se dá apenas como fato da diegese, mas sobretudo como
construção hábil de uma linguagem que vai operando
essa metamorfose grotesca nas imagens que enumera, promovendo uma carnavalização
que põe em cena as várias faces ou losangos da figura arlequinal
a que a autoridade se reduz quando é deslegitimado o seu papel.
A quebra da Lei, pela instauração da rebeldia, patenteia-se
na ousadia com que o personagem-narrador relata ao guarda suas ações
ilegais, numa espécie de síntese da trama factual. E a recapitulação
diegética termina com a capitulação da figura autoritária,
desvestida literal e figuradamente de seu poder e sendo amarrada pelas
personagens.
Também a instituição religiosa recebe tratamento
caricato para atender ao propósito desmascarador que fisga as fraquezas
do comportamento eclesiástico: "O pároco, que por tanto
tempo cultivou o hábito de esgueirar-se pelas traseiras da igreja
em visitações clandestinas, perdera de vez toda a roupa
de clérigo, mais parecendo um cristo à cata de uma cruz
em que pudesse instalar sua figura." (p. 107). Eis uma caricatura
em que ecoa a consciência irônica de Eça de Queirós,
porém atualizada pelo pathos que marca o final da descrição.
Pode-se dizer que o poder revolucionário acionado pela ficção
de Daunt exercita-se duplamente, tanto como situação ficcionalizada,
quanto como concepção de uma escrita que desarma as convenções
de estruturas previsíveis. Uma das estratégias para criar
o desarme está na composição dos discursos diretos,
animados por uma espirituosidade que faz explodirem os limites do plausível
bem como a moldura que os amarra à tradição. Ressalte-se,
por exemplo, o diálogo entre Antônio e Vidal, na passagem
que singulariza a caça, na primeira parte do romance. Também
nesse primeiro momento, ao final do capítulo 4, as falas de Isabel,
subtraídas da página, vêm indicadas apenas por aspas
emoldurando o vazio textual, uma performatização que reproduz
a demora do relato minucioso de fatos por Antônio, não deixando
espaço para a interlocutora, que acaba explodindo de impaciência:
"Às favas, Antonio. Onde e quando o encontro com Vidal?"
(p. 49). Outro momento engenhoso de situação dialogada encontra-se
no final do capítulo 12 de "A pelotinha de Isabel", em
que é discutido, pelas três personagens do insólito
triângulo amoroso, Antônio, Isabel e Vidal, o destino da pelotinha.
O absurdo legitima-se pela espantosa coerência da argumentação
e se mescla à auto-referencialidade da enunciação:
"Na época em que eu comia vermes eu era grande, mas não
o bastante. Depois então fiquei pequena e agora me tornei grande
outra vez. Ou ninguém conhece a cronologia dos fatos aqui?"
(p. 99). Por sua vez, o final do capítulo 13 exemplifica o mutismo
que desabou sobre a terra em decorrência do refluxo, configurando-se
magistralmente em:
" maior de as", insinuou Vidal,
gesticulando.
"maior de ", assenti com a cabeça.
"maior de todo ", Isabel, chamando-nos
para o jantar.
"maior d", agradeceu o espantalho.
(p.113)
A componente lúdica revela-se na versatilidade que engendra os
trocadilhos:
"Mais do que nunca as conversas foram amenas
Anêmicas, Antonio" (p. 115)
É contra essa anemia ou acomodação diante do real
e de sua re-escrita pela narrativa que se insurge o narrador de Anacrusa.
Buscando ritmos diversos e estruturas inusitadas, o texto empreende uma
aventura rumo a uma nova concepção romanesca cujo propósito
é o de "capturar o espaço intermediário da fabricação
de uma narrativa", como o Autor descreve seu projeto estético.
Ou seja, não é o texto definitivo ou "arte final"
que interessa, mas um texto em que pulsam contradições,
incertezas, sentidos semeados e disseminados, enfim, uma composição
híbrida que dissolve a linearidade da prosa e dá corpo à
forma circular do poético. Nesse sentido, convém atentarmos,
por exemplo, ao final de "A levedura dos corpos", capítulo
7, o qual se configura como um longo e único texto, num encadeamento
de frases sem pontos finais e ritmadas, como se acionadas pelo segmento
inicial "Sob o ritmo do barco os cachos de ondas desmanchando a pintura
do rosto (
)" (p. 67). Assim como a levedura dos corpos, o texto
vai fermentando suas imagens, transformando-as num fluxo que faz escorrer
o espírito inquieto do eu-narrador para construir o caos primordial,
o fim e o começo de um mundo alimentado pelo son(h)o.
Sem dúvida, a imagem que melhor traduz, na narrativa, a sua composição
por montagem é o caleidoscópio. Embora implícito
ao longo do romance, indiciado na sua estrutura circular e em anacrusa,
como dissemos, é ao final, no "Capítulo Sem Número",
que o caleidoscópio desponta como signo a atuar como verdadeira
metáfora da narrativa. Esse brinquedo, recuperado da infância
de Isabel pelo personagem-narrador, serve-lhe de instrumento para tentar
enxergar "o nítido nulo" para onde teriam seguido Vidal
e o espantalho, personagens que o narrador desloca para fora de seu alcance
e com eles brinca, atitude metafórica do apagamento ou retirada
desses fantasmas de seu passado. Olhar pelo orifício do caleidoscópio
e movimentá-lo propicia o efeito duplo de manipular as peças
da matéria narrada para dar-lhes novas configurações
e iluminar o próprio processo da enunciação, marcado
pela heterogeneidade de suas imagens e estratégias de construção:
"A cada curto sobressalto os espelhos propunham novo esquema de cores
e ocupação do espaço absolutamente original."(p.
121).
Olho mágico que re-inventa o real fundindo-o ao fantástico,
desloca as identidades como se fossem vidrilhos combinatórios e
aciona o imaginário, o caleidoscópio é a própria
narrativa de Anacrusa. É por conta de seu manejo, por exemplo,
que a narrativa pode se abrir e se fechar com as mesmas imagens, porque
reviradas e rearranjadas em sua função: moscas e mariposa,
presentes no início e final, são peças que não
apenas compõem o cenário da escrita mas atuam com gestos
que denunciam o próprio desenvolvimento da trama montada. Imóveis
ou debatendo-se e roçando as asas, elas acompanham atentas os primeiros
e últimos acordes da narrativa de que também fazem parte.
É por meio ainda dessa manipulação lúdica
que o narrador faz as personagens desaparecerem e exercita o olhar para
si mesmo, então confundido com um palhacinho: "pelo orifício
do caleidoscópio do palhacinho pude ver um único vidrilho,
que podia ser o reflexo de uma agulha sob o sol, ou nada, coisa nenhuma."
(p. 126). Assim como as outras personagens e os espaços por onde
transitam, o personagem-narrador não é senão um fortuito
arranjo ou peça frágil prestes a se desmanchar, afinal identidades
imaginárias, forjadas nas figurações do texto montado.
Mas, mesmo instável e a existir como reflexo provisório,
há um único vidrilho que permanence, tal como o único
caco que brilha, "virado do exterior lustroso, entre os astros",
no poema "Apontamento", de Álvaro de Campos — a coisa
nenhuma, desmembrada e fraturada, tem o seu avesso, seja lustroso ou opaco
(não importa), que o poder do imaginário faz fulgurar nesse
instante intenso de captura pela leitura.
E, quando pensamos que a montagem estaria completa, vem outra sacudidela
do caleidoscópio pelo narrador, surpreendendo-nos com mais um artifício.
Já no final do romance, ao ser focalizada a casa que abriga o personagem-narrador
e Isabel, preparados para beber o absinto plantado no jardim, a cena se
transforma num tabuleiro móvel, onde se joga uma relação
ambígua, reversível, entre vidente e visível, interior
e exterior, continente e conteúdo. Mas o efeito de real (lembremo-nos
de Barthes) parece nos atingir, por força mesmo da intensidade
de sua espessura enquanto construção habilmente jogada por
seu autor. É por isso que, como uma experiência de leitura
provocada por essa instigante narrativa, fica-nos a tentação
para fruirmos o capítulo 17 como se nele estivessem as últimas
palavras de um cenário que não precisa ser fechado, nem
continuado. Fiquemos com o brinde inconcluso, por isso intenso, que aproxima
as personagens e a casa:
"(
) e um sol gelado e manso ao pé da fornalha, se aquecendo
timidamente, meu corpo tocado, rompida a membrana travo estigma, Isabel
e a casa, por ora a casa, escorrendo pelos dedos, o cálice."
(p. 135)
Maria Heloísa Martins Dias
ocupou a cadeira de Teoria Literária na Unesp (Universidade Estadual
Paulista) de São José Rio Preto, em seguida a de Literatura
Portuguesa. Atualmente leciona nessa instituição. Publicou
"A estética expressionista". Cotia, Íbis, 1999,
entre outros.
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