Fuso de prata
FUSO DE PRATA
Alcione Guimarães
120 p. - R$20,00
ISBN 85-86372-89-7 - Publicação de abril de 2006

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Alcione Guimarães


TERRENO ENEVOADO

Prosa da estreante Alcione Guimarães, autora de Fuso de prata, ainda carece de lapidação
Moacyr Godoy Moreira*

Um sonho dentro do sonho, indefinidamente. Fuso de prata, de Alcione Guimarães, volume de contos de estréia da autora na prosa, encerra-se com uma citação de Borges, algo que enfatiza essa jornada onírica, sem volta. Borges, por sua vez, parafraseia Edgard Allan Poe: "All that we see or seen, is just a dream within a dream."
Nos 11 contos que compõem o livro -- elegantemente tratado no projeto gráfico de capa e miolo, cuidado freqüente nos trabalhos da Nankin Editorial --, há algo desse terreno enevoado, de acontecimentos e paisagens que desembocam em outras de forma quase inexplicável. Porém, nem de longe há, nas tramas, complexidade que aproxime a autora de nomes como Borges, Bioy Casares, Ocampo ou Cortázar. Ou mesmo do mistério de Poe.
Os contos de Alcione Guimarães tangenciam a narrativa da crônica, mais que do conto, num panorama de relatos sem a construção sisuda e esférica dos personagens que caracterizam o romance ou mesmo o conto. São pinceladas. Benvinda, no conto homônimo, e Benta, em Para nunca mais voltar, são esboçadas de forma a fornecer ao leitor indícios de figuras de uma riqueza a ser explorada, de uma estrutura que, caso aprofundada, renderia histórias extraordinárias.
Outro aspecto que aparece nos textos é o abismo existente entre as almas, abismo que confunde sentimentos e inviabiza as relações. A autora cita Fernando Pessoa, como epígrafe: "Nós nunca nos realizamos. Somos dois abismos -- um poço fitando o céu". O poeta português, curiosamente, em seu livro de estréia, escrito em inglês, 35 sonnets, já explorava o tema: "The abyss from soul to soul cannot be bridged by ainy skill of thought or trick of seeming, unto our very selves we are abridged".
Os versos indicam a grandiosidade poética que seria confirmada ao longo da vida de Pessoa.
As pontes explodidas sobre abismos intransponíveis surgem em Amavios, que abre o livro, Ninguém soube e O Deus imaginado. Em alguns momentos há a singeleza das descrições: "Em época de seca, quando a estiagem era muito prolongada, mulheres e crianças costumavam jogar água aos pés de urna cruz de madeira que fora fincada em frente a uma igreja centenária. Superstição, herdada de antepassados, para o retorno das chuvas". Mas não se trata de um achado freqüente ao largo do volume.
A autora, também artista plástica, demonstra em muitos momentos do livro a intenção de trazer a experiência pictórica, a paleta de matizes dos quadros para o universo da palavra, sem muito sucesso. A impressão é que, como a complexidade na arquitetura do narrar fenece, deixando o texto desnudo, descoberto, pela pouca elaboração da adjetivação, a força das imagens se perde em meio a parcos recursos vernaculares. Falta instrumental: como pintar com apenas uma bisnaga de tinta?
De qualquer maneira, o texto monocromático, enriquecido com misturas mais engenhosas pode apresentar, em futuros trabalhos da autora, painéis mais complexos. Sente-se que o enredo dos textos, mais finamente tratados, trariam ao leitor, como em Os duendes, peças delicadas e preciosas. Questão de lapidação, paciência, insistência, afinco. Sonhos que mesmo dentro de sonhos, edifiquem caminhos a vencer desfiladeiros, a suprimir abismos.
*Rascunho n. 75, julho de 2006

Sobre a autora: Alcione Guimarães nasceu e vive em Goiânia (GO). E artista plástica. Em 2000, estreou na literatura com Zuarte, livro de poemas e pinturas. Recebeu menção especial no Prêmio de Poesia Centenário de Henriqueta Lisboa, pela Academia Mineira de Letras.

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