TERRENO ENEVOADO
Prosa da estreante Alcione Guimarães, autora de Fuso de prata,
ainda carece de lapidação
Moacyr Godoy Moreira*
Um sonho dentro do sonho, indefinidamente. Fuso de prata, de Alcione
Guimarães, volume de contos de estréia da autora na prosa,
encerra-se com uma citação de Borges, algo que enfatiza
essa jornada onírica, sem volta. Borges, por sua vez, parafraseia
Edgard Allan Poe: "All that we see or seen, is just a dream within
a dream."
Nos 11 contos que compõem o livro -- elegantemente tratado no projeto
gráfico de capa e miolo, cuidado freqüente nos trabalhos da
Nankin Editorial --, há algo desse terreno enevoado, de acontecimentos
e paisagens que desembocam em outras de forma quase inexplicável.
Porém, nem de longe há, nas tramas, complexidade que aproxime
a autora de nomes como Borges, Bioy Casares, Ocampo ou Cortázar.
Ou mesmo do mistério de Poe.
Os contos de Alcione Guimarães tangenciam a narrativa da crônica,
mais que do conto, num panorama de relatos sem a construção
sisuda e esférica dos personagens que caracterizam o romance ou
mesmo o conto. São pinceladas. Benvinda, no conto homônimo,
e Benta, em Para nunca mais voltar, são esboçadas de forma
a fornecer ao leitor indícios de figuras de uma riqueza a ser explorada,
de uma estrutura que, caso aprofundada, renderia histórias extraordinárias.
Outro aspecto que aparece nos textos é o abismo existente entre
as almas, abismo que confunde sentimentos e inviabiza as relações.
A autora cita Fernando Pessoa, como epígrafe: "Nós
nunca nos realizamos. Somos dois abismos -- um poço fitando o céu".
O poeta português, curiosamente, em seu livro de estréia,
escrito em inglês, 35 sonnets, já explorava o tema: "The
abyss from soul to soul cannot be bridged by ainy skill of thought or
trick of seeming, unto our very selves we are abridged".
Os versos indicam a grandiosidade poética que seria confirmada
ao longo da vida de Pessoa.
As pontes explodidas sobre abismos intransponíveis surgem em Amavios,
que abre o livro, Ninguém soube e O Deus imaginado. Em alguns momentos
há a singeleza das descrições: "Em época
de seca, quando a estiagem era muito prolongada, mulheres e crianças
costumavam jogar água aos pés de urna cruz de madeira que
fora fincada em frente a uma igreja centenária. Superstição,
herdada de antepassados, para o retorno das chuvas". Mas não
se trata de um achado freqüente ao largo do volume.
A autora, também artista plástica, demonstra em muitos momentos
do livro a intenção de trazer a experiência pictórica,
a paleta de matizes dos quadros para o universo da palavra, sem muito
sucesso. A impressão é que, como a complexidade na arquitetura
do narrar fenece, deixando o texto desnudo, descoberto, pela pouca elaboração
da adjetivação, a força das imagens se perde em meio
a parcos recursos vernaculares. Falta instrumental: como pintar com apenas
uma bisnaga de tinta?
De qualquer maneira, o texto monocromático, enriquecido com misturas
mais engenhosas pode apresentar, em futuros trabalhos da autora, painéis
mais complexos. Sente-se que o enredo dos textos, mais finamente tratados,
trariam ao leitor, como em Os duendes, peças delicadas e preciosas.
Questão de lapidação, paciência, insistência,
afinco. Sonhos que mesmo dentro de sonhos, edifiquem caminhos a vencer
desfiladeiros, a suprimir abismos.
*Rascunho n. 75, julho de 2006
Sobre a autora: Alcione Guimarães nasceu e vive em Goiânia
(GO). E artista plástica. Em 2000, estreou na literatura com Zuarte,
livro de poemas e pinturas. Recebeu menção especial no Prêmio
de Poesia Centenário de Henriqueta Lisboa, pela Academia Mineira
de Letras.
NANKIN EDITORIAL
Rua Tabatinguera, 140, 8. andar, cj. 803
Centro São Paulo
CEP 01020-000
Tel. (0**11) 3106-7567, 3105-0261
Fax (0**11) 3104-7033
www.nankin.com.br
vendas@nankin.com.br
|