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O MENOS VENDIDO E SUAS PARTITURAS
A poesia de Ricardo Silvestrin se inscreve sonoramente, como numa pauta
musical, e tem a duração do tempo do seu corpo
Por Ronaldo Augusto*
Na abertura de O menos vendido (Nankin Editorial, 2006), podemos
ler um poema pertencente à família daquelas peças
poéticas que discutem a tópica clássica segundo a
qual a arte é simbolizada como um monumento resistente à
inclemência do tempo e das intempéries. O poema, assim como
"uma música que não precisa mais que três minutos.
/ Um haicai, alguns segundos", é arte que perdura - e se dá
- no tempo.
Ricardo Silvestrin, como se lê num poema do seu livro Palavra mágica
(1994), mais do que moderno, está no nervo do seu tempo e desde
"a nave do novo" de sua viagem textual eterna, inscreve na caverna
o vir-a-ser da sua linguagem. E é por esta razão que Silvestrin,
mesmo sem dar as costas à dimensão espacial conquistada
para a poesia a partir de Un Coup de Dés, de Mallarmé
(1897), jamais se esquece de que a poesia ainda é uma arte temporal;
ritmo para uma partitura vocal, ou, outra vez, como a música, um
som e uma pausa; a sílaba tônica e a sílaba átona.
Este poema também representa a outra face da "moeda"
que se estampa na capa do livro. Com efeito - e não se deve desprezar,
mesmo, a sugestão de efígie: ao poeta o que é do
poeta -, o artigo o, ou o "zero" em cujo centro lemos o poema
que dá título ao livro, rodopia diante do leitor fazendo-o
pensar, talvez, o seguinte: se for verdadeiro que um poema de verdade,
poema bom, pode atravessar séculos e séculos sem perder
seu tônus de beleza, por outro lado, pode-se constatar que "às
vezes passa um século ou mais / e nenhum fica pronto", ou
nenhum se nos entesoura na memória. O preço pago, portanto,
à dureza sempiterna dos grandes poemas, são os longos trechos
de tempo em que temos de suportar uma grande massa de obras literárias
desprovidas do menor toque de classe. Mas, para a nossa alegria, de quando
em quando, exsurgem, do fundo insondável dos infernos da invenção,
obras como O menos vendido.
No poema seguinte de Manchas, primeira seção-livro do conjunto
de O menos vendido, temos a imagem do leitor como um executante da partitura-poema.
Fruindo a chance de ficar de boca fechada, o intérprete dessa "música
calada" não obedece a "Nenhuma outra lei / além
da leitura". A dança das palavras se desenvolve na cabeça
do leitor por meio de uma coreografia resumida de gestos, não-figurativa:
"Nada soa / além do silêncio". Mas o leitor-executante
não fica inteiramente alheio, pois na economia da leitura criativa,
exigida pela poesia de Ricardo Silvestrin, este silêncio com que
o leitor tem de se haver, mostra-se ativo, intratável. Portanto,
cabe aqui, lembrar e ler o contra-acento, a pausa, esse nada que soa,
como um "contratempo", isto é, podemos fazê-lo
participar das acepções de obstáculo, imprevisto,
etc., além de "forma rítmica em que o som é
articulado sobre um tempo fraco, átono". Ou seja, lendo às
cegas, fora do tempo ou no contrapé, abandonado apenas à
lei da leitura, lúcido salvo que fabuloso, o leitor colhe no ar
ou num "alugar" a chance de ficar calado enquanto percebe a
cada virar de página que "Vão-se os papéis,
/ ficam os textos."
Ficam. Mas, aonde? O poema está sempre num outro lugar: "ponte
pênsil do pensamento" ligando o desejo àquilo que não
se acha à mão. Assim como o poeta, também o leitor
de O menos vendido se rejubila de andar "fora do ponto". Nenhum
dos dois está pronto. Pois, como nos ensina Roman Jakobson, "a
ambigüidade se constitui em característica intrínseca,
inalienável" da poesia. Portanto, continua o lingüista,
não só o próprio poema, mas igualmente seu destinatário
e seu remetente se tornam ambíguos. Veja-se este excerto do poema
da página 35: "e diante de algo tão vago / passo a
me pintar / num desenho abstrato / aos poucos / dilui-se a figura / traços
que lembram / quem sou ou o que fui / agora uma mancha / branca sobre
o branco".
Enquanto isso, a dessarrumação e a desmesura do mundo servem
tão-só de tema ou de signo à fatura do poema: "Algumas
palavras / e tudo se transforma em leveza." (Desgramas", pág.
34). O mundo (do poeta) é apenas povoado de "famílias
de palavras" - em que pese, às vezes, ele se achar a muitas
palavras de distância. A instabilidade do tecido de fundo do real,
esse tablado móvel, não permite que o sentido caia duas
vezes no mesmo lugar. Em que bases, então, se dá a experiência
simbólica do homem sobre a superfície dissolvente do mundo?
Não se espere de Silvestrin uma resposta de enciclopedista a esta
questão tão remota quanto kitsch. Sem muitos circunlóquios
o poeta nos propõe isso: "a ação sobre o mundo
é o raio / o sentido, o trovão / que às vezes chega
anos depois" (pág. 53). Mas, se e quando o sentido chegar,
não nos encontrará, isto é, não seremos mais
os mesmos, mesmo. O poema como estrutura viva ou ultima verba, não
dura, em fim de contas, o tempo do monumental granito, nem do monólito;
dura o tempo do corpo e seus tendões; o intervalo de suas espiras
que constituem idéias.
Volto mais uma vez à metáfora do poema como partitura e
de cujo silêncio o leitor-executante obtém a sua irredutível
logopéia. Essa metáfora também é cara a Joan
Brossa. Para o poeta catalão os versos compõem "uma
partitura" e "não são mais / que um conjunto de
signos" para a decifração do leitor colaborador. Do
ponto de vista de Silvestrin, o silêncio que é sentido, vale
dizer, significado ou quase-signo, é o melhor amigo do homem. Ouçamo-lo:
"e o silêncio / é o companheiro / do homem / seu fiel
confidente / escuta suas dores / seus projetos / é para ele / que
o homem / fala / e fala / tudo o que sente / o silêncio cala / e
consente" (pág. 63). Na palavra imantada de pausa, silêncio,
onde podemos apreciar "os traços fonológicos da pessoa",
Ricardo Silvestrin destaca o humano das entranhas da humanimaldade. Falar
sem fabular é a coisa mais tediosa que pode acontecer ao homem,
este animal que produz e consome símbolos.
E é a partir desta perspectiva da celebração ou da
"cerebração" (Alexandre Brito dixit) do pensamento-arte,
"o que nasce da cabeça do homem", que Silvestrin plasma
o jornal íntimo de A poesia de cada dia, última parte de
O menos vendido. Talvez seja esse o momento mais "ex, Peri, mental"
do livro. Um poema para cada dia ganho/perdido. Cada poema a consagrar
o dia que se dissipa na corrente do presente irredimível. Silvestrin
usa a dosagem necessária de antipoesia.
Lancinantes anotações à margem do instante precário.
Um olhar de flâneur para as coisas belas e feras que se encontram
entre ele e o mundo: shows, livros, praia cheia de argentinos, filmes,
um lapso como desempregado, um programa de TV, etc. Uma cortina de fumaça
(ou de bambu?) diarístico-verbal oscila entre o poeta e o entorno
espetacularizado. Num andamento de prosa, Ricardo Silvestrin nos "passa
a sua conversa". Seus filosofemas capturados "na trilha trivial
do cotidiano", como refere Antonio Carlos Secchin no prólogo
de O menos vendido. Mas, aqui, em "A poesia de cada dia", não
se trata, a rigor, da fala do poeta ou de suas metáforas: "Que
poeta? É só um escritor", mas sim das notas do escritor,
ou, melhor, das cogitações de um ego scriptor, na tenção
quase obsedante de transformar a coisa em palavra, mas ao mesmo tempo
consciente de que o que ele representa e nomeia não se ajusta à
perfeição à bitola do representado e do nomeado.
Assim, nesse deambular pelas minudências de um epos do fútil
e do útil, onde "tudo é motivo de celebração",
a linguagem continua sendo a viagem. Recordação na tranqüilidade
daquilo que, por um momento, intranqüilizou Ricardo Silvestrin com
sua maravilha ou sua injúria.
* Poeta, músico, letrista e crítico de poesia. É
autor de, entre outros, Homem ao Rubro (1983), Vá de
Valha (1992) e Confissões Aplicadas (2004)
NANKIN EDITORIAL
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