Porto Seguro
PORTO SEGURO, outra história
HUGO ALMEIDA
Ilustrações de Milton Rodrigues Alves
ISBN 85-86372-88-9
Coleção Porto Seguro

104 p. - R$12,00
Publicado em O Norte, 10/8/2006

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Porto Seguro, outra história

Diante dos muitos textos cujos autores acreditam que rompem com a série literária, apraz-me a leitura de Porto Seguro, outra história (Nankim Editorial), de Hugo Almeida. E isso pelo simples fato de, em contando uma história com início, meio e fim, ele saber instaurar uma verdadeira ruptura, pelo menos com relação a grande maioria dos autores contemporâneos que desaprenderam a contar uma boa história. Desaprenderam? Não, não desaprende quem jamais aprendeu; quem insiste em considerar como expressão de vanguarda os velhos métodos, tiques ou cacoetes estilísticos desde há muito postos em disponibilidade pelos que não obedecem às imposições e modismos das palavras de ordem.
Porto Seguro, outra história, é um livro cuja simplicidade somente é obtida graças à competência artesanal; artesanato que não labuta em prol do estilo alambicado, modorrento, "Longe do estéril turbilhão da rua", tão ao gosto dos arautos de um certo neo-parnasianismo que grassa, principalmente, na lírica brasileira. E também na ficção.

O narrador de Porto seguro, outra história, escreve como quem retira uma espinha de peixe desde há muito tempo atravessada na garganta; sai do texto de alma lavada, vencendo o desafio, o repto que a si mesmo lançou: o de, sem abdicar dos ingredientes ficcionais, passar em revista a saga de uma família cuja história, a exemplo do poema de Carlos Drummond de Andrade, é muito mais bonita do que a de Robinson Crusoé. E isso tudo por ela pertencer -- como o rio da pequena aldeia do poeta dos heterônimos -- a menos gente, não obstante agora, publicada, tenha tudo para ganhar muitos leitores, partícipes, testemunhas....

É essa, enfim, uma outra história bem mais lírica e pungente do que à contada sobre Porto Seguro nos compêndios oficiais da historiografia brasileira. Outra história que, embora não pareça, se reveste de um profundo significado político, sobretudo porque, quem a escreveu, presta um tributo ao avô e também ao pai, e paga uma velha dívida a ambos através da palavra, moeda mais forte e mais sonante por que cunhada pelo bater do coração de um narrador que, embora emocionado, sabe "(...) domar a explosão/ com mão serena e contida".
Sérgio de Castro Pinto, O Norte, 10 de agosto de 2006

Hugo Almeida (1952), mineiro, é autor dos romances Mil corações solitários (Prêmio Nestlé-1988) e Minha estréia no crime (juvenil), e dos infantis Todo mundo é diferente, Mais rápido do que a luz e Pare, olhe, siga: boa viagem. Organizou o livro de ensaios Osman Lins: o sopro na argila (Nankin). É doutor em Letras pela Universidade de São Paulo (USP). Mora em São Paulo desde 1984.

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