Porto Seguro
Hugo Almeida, sinais dos tempos
Por W. J. Solha

PORTO SEGURO, outra história

HUGO ALMEIDA
Ilustrações de Milton Rodrigues Alves
ISBN 85--86372--88--9
Coleção Porto Seguro

104 p. -- R$12,00

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Fim de uma era

Isso tem data: 1988. Eu ganhava o Prêmio Instituto Nacional do Livro com A batalha de Oliveiros, Hugo Almeida recebia os prêmios Nacional de Literatura Cidade de Belo Horizonte e Bienal Nestlé de Literatura com Mil corações solitários (editora Scipione).
A que era me refiro? A que se iniciou nos anos 70, com romances brasileiros inovadores e de grande repercussão, como o Zero do Ignácio de Loyola Brandão (1975), A festa, do Ivan Ângelo (76), Avalovara, do Osman Lins (73), Lavoura arcaica, de Raduan Nassar (75), e tantos outros, e em que incluo meus romances -- que não tiveram o mesmo sucesso -- como Israel Rêmora (75), Prêmio Fernando Chinaglia de 74, e A verdadeira estória de Jesus (79).
Todas essas obras tinham em comum a quebra da estrutura narrativa brasileira tradicional. Em A batalha de Oliveiros, intercalo a história do personagem-título com as dos filmes que ele faz: um sobre a invasão holandesa, outro sobre a morte e a chegada de Lampião ao Inferno, neste último servindo-me de versos de cordel e de martelo agalopado. Em Mil corações solitários, Hugo Almeida intercala cartas (de sua personagem Níobe à mãe já falecida) com outros relatos, mais vários trechos da Corografia brasílica, do Padre Manuel Aires de Casal, em que se descreve Minas, ambiente do seu romance, funcionando nele como, em Os sertões de Euclides da Cunha, funcionam "A Terra" e "O Homem" antes da descrição d"A Luta".
Bem, diz a História da Arte da Salvat que a todo período "clássico" se segue outro, "barroco", que é sucedido por outro "clássico", e assim por diante, uma geração sempre rejeitando o que a anterior produziu, algo -- parece-me -- como um complexo de Édipo em massa fazendo das suas. Isso vale também para literatura. Eu e Hugo Almeida vivêramos o final de nosso período literário "barroco" e era hora de sairmos de cena. Não por acaso, Osman Lins morrera já em 78, Raduan Nassar abandonara a literatura em 84 (resolvendo, a partir de então, criar galinhas ) Ivan Ângelo foi trabalhar pra televisão. E nós?

Começo da era seguinte

Quanto a mim, me vi perdido. Passei quatro anos -- de 86 a 90 -- fazendo teatro. Depois fui pintar. A custo, em 97, já no espírito do pós--modernismo, lancei Shake-up. Mais outros sete anos e publiquei Trigal com corvos ( um poema longo) e, em 2005, História universal da angústia ( uma coletânea de contos, um roteiro para cinema e dois romances).
Hugo Almeida, no entanto, imediata e surpreendentemente, reorientou seu texto no instante mesmo em que Mil corações solitários era editado, radicalizando sua reviravolta... num livro infantil chamado Mais rápido do que a luz ( da FTD). Depois da bem--sucedida realização intelectual e artística do romance -- tão belo quanto complexo --, ele avisou logo: "Bom, a história é simples". E era. Tanto, que nem tem fadas, bruxas, super--vilões ou super-heróis. O autor, malandramente, deu outro aviso em seguida (incluindo o que está no parêntese): "Esta história aconteceu (aconteceu mesmo?) há muito tempo, quando havia poucas estradas asfaltadas." Resumo: o menino quer ir com o pai ao Rio das Contas, onde o engenheiro está construindo uma ponte, mas a viagem será longa. Não tem importância. O problema, porém, é que, poucos dias depois, a televisão iria mostrar, ao vivo, a imperdível descida do homem na Lua. Com esses poucos elementos, Hugo Almeida teceu sua estória ou história. Meu neto Israel, de 9 anos, foi meu boi-de-piranha: "Leia este livro e me diga o que achou". Para minha alegria, ele adorou. Pudera: como se não bastasse o texto hábil, as ilustrações de Walter Ono iam, inteligentemente, antecipando (como trailers) o que se ia ler, tipo a saída da Rural com pai e filho na manhâ seguinte, tipo chuva forte e engarrafamento que vinham pela frente, tipo viagem de canoa enquanto a Apolo-11 já se ia no espaço, etc, etc. Tudo muito Brasil, muito matuto, mineiro, verdadeiro. Em lugar da Corografia brasileira, Neil Armstrong cumprindo sua façanha lá em cima.
Mas o renovado prazer de escrever noutra linha não solapou a paixão de Hugo Almeida pela obra de Osman Lins, que dissera sobre seu primeiro livro -- Globo da morte -- de 1975: "Um dos poucos autores novos em cujo futuro se pode apostar". Sua tese de doutorado em literatura brasileira na USP foi sobre A rainha dos cárceres da Grécia, do escritor pernambucano, a respeito de quem H.A. é expert, tanto que organizou em 2004, para a Nankin Editorial, a coletânea Osman Lins, o sopro na argila, publicando, antes e depois disso, vários ensaios curtos e incisivos a respeito do criador do Avalovara, como o notável Drummond, Osman Lins e o elefante, poéticas em confronto, publicado pela Universidade de Brasília em revista de maio/junho 2001.
Dentro da nova linha de ficção, no entanto, ele publicou, em 1997, Minha estréia no crime, romance infanto-juvenil, pela Editora Lê. Trata-se de um romance policial sem pose de romance policial. tudo muito Brasil, novamente, como os thrillers de Rubens Fonseca, e também muito família brasileira, como aquelas coisas da Dona Benta no Sítio do picapau amarelo, e tudo também muito jovem ( nação de gente que Hugo Almeida curte muito, como professor), tudo muito... Art Crime, pois o caso abordado, com algumas mortes, envolve o roubo de um quadro. Há diálogos que lembram quadrinhos de Will Eissner:
-- Que dia?
-- Sexta.
-- Escuta.
-- Sim, Doutor.
-- Sem o quadro, nem um centavo. E grade de novo.
-- Positivo.
-- Antes de queimar, quero dar uma mijada nele.
-- Certo, Doutor.
O homem ia saindo.
-- Uma última coisa.
-- Pois não, Doutor.
-- Eu não sei de nada.
-- Nem eu.
-- Pode sair.
Voltou a bater o lápis na mesa.
Há, também, conversas assim:
Vocês conhecem a Irai, a irmã do Álvaro? Sei, uma que anda em cadeira de rodas? É. Sabe que ela é pintora? O quê? Pin-to-ra? Mas se ela nem mexe as mãos. Acho que nem os pés. Ela pinta com a boca. Mentira. Verdade.
Hugo Almeida é ágil. Sua história é a seguinte:.estudante de educação física se apaixona por tetraplégica que -- com pincel preso na boca -- pinta o quadro sobre o massacre de Carandiru que vai ser cartaz da Anistia Internacional e, por isso, é -- e não é -- roubado, supostamente pelo delegado D´Angelo, conhecido como Danger -- envolvido na morte dos 111 prisioneiros --, e seus asseclas Perigo e Periguinho (este com o mesmo defeito na fala do personagem Denisov, de Guerra e paz )
O final é uma enorme surpresa.
Em 2005 Hugo Almeida publica outra novela juvenil, Porto Seguro, outra história, que a Nankin Editorial, de São Paulo, ajudou a tornar notável pela beleza e simplicidade da concepção gráfica que lhe imprimiu. As ilustrações constam de fotos antigas -- pertencentes ao escritor -- belamente trabalhadas em bico-de-pena por Milton Rodrigues Alves, de modo que grandes áreas das páginas ocupadas com elas acabem sempre se tornando puro desenho, bem dentro do espírito do livro, que é o registro da luta do pai do autor, engenheiro (como o pai em Mais rápido que a luz), para abrir estrada na mata virgem e construir o problemático cais de Porto Seguro, na Bahia, nos anos 40, com um detalhe: o neto ouve o que pode do patriarca ( avô, e não pai, nessa história), até que o velho termina lhe dizendo : "o resto pode inventar à vontade". O resultado é algo como os chamados filmes híbridos -- documentário e ficção --, tipo Nanuk, o esquimó, de Bob Flaherty, e Romeiros da guia, de Vladimir de Carvalho sobre os inícios da modernização do Brasil ,envolvendo sempre, nisso, essa coisa bem gostosa e mineira, que é a família.

E o período "barroco"?

Não se pense que tal fase de Hugo Almeida permaneceu isolada no passado. Em 1985 e 1996 ele publicou uma mesma série de contos através de EMW Editores (com o nome de Em teu seio Liberdade) e da Editora Didática Paulista (denominando-o Cinqüenta metros para esquecer). Desses se destaca -- em meio a alguns trabalhos realmente herméticos ou excessivamente experimentais, típicos da época -- um que considero antológico, intitulado Antes do sol, antes da chuva na primeira edição, História em quadrinhos na segunda. Produzido em 76 e reciclado em 94, esta short story é de uma beleza "visual" digna das melhores graphic novels que tenho lido nestes últimos anos, merecedora de figurar em qualquer coletânea de melhores contos, do século XX ou não. Quem pretenda fazer um curta-metragem com imagens a Edward Hopper (como a da mulher vista apenas em parte, da janela do primeiro andar de um prédio, enquanto a cortina voa) aí tem material farto. Há outro conto notável, somente no último livro: "Maresia". Não pelo fato de ter dois pontos de vista simultâneos da ação narrada -- isso Rashomon, de Akutagawa / Kurosawa, e As I Lay Dying, de Faulkner, já haviam levado à exasperação -- mas pela densidade nervosa do entrecho, em cima de uma ação cotidiana.

Conclusão

Como dizia uma velha propaganda: "em tempo de crise... corte o esse ... e crie". Hugo Almeida já fala em novo romance a vir por aí. Tenho certeza de que ele já tem o mapa da mina e o caminho das pedras.
W.J.Solha, João Pessoa, Correio das Artes, 29 a 30/6/2006

Hugo Almeida (1952), mineiro, é autor dos romances Mil corações solitários (Prêmio Nestlé --1988) e Minha estréia no crime (juvenil), e dos infantis Todo mundo é diferente, Mais rápido do que a luz e Pare, olhe, siga: boa viagem. Organizou o livro de ensaios Osman Lins: o sopro na argila (Nankin). É doutor em Letras pela Universidade de São Paulo (USP). Mora em São Paulo desde 1984.