UM SÁBADO DE SÓLIDO SOL
por Martha Catalunha
Alguns professores são uma "menção honrosa"
em seu trabalho. Assim foi Ariosto Augusto de Oliveira, meu professor
de Técnicas de Redação por aqueles decorridos de
faculdade.
Foi mais tarde, contista e cronista no extinto Notícias Populares,
cuja coletânea resultou no livro Caradura.
Foi premiado em 2000 pela Academia Paulista de Letras por seu romance
Vila Nova de Málaga, considerado o melhor do ano.
Foi considerado pelo jornal O Estado de São Paulo - após
a publicação do romance O Vau da Vida - "um
grande escritor, um talento fora do comum, quase mergulhado no anonimato",
e, o citado romance, "é obra superior de quem amadureceu na
lida ficcional e sabe tecer uma história sem modelo conhecido".
Seu conto "Um Sábado de Sólido Sol" de seu livro
Seis Ficções à Deriva lançado em 2007,
foi, recentemente, submetido a um ensaio acadêmico escrito por mim,
sobre suas influências literárias do grande maestro de língua
espanhola Miguel de Cervantes, autor da novela Dom Quixote de La Mancha,
cujo êxito de vendas mundial só não supera a Bíblia
Sagrada.
Foi finalmente entrevistado para o VIVASP por esta colaboradora do site,
eu.
1. Como você recebeu meu trabalho de seu conto "Um Sábado
de Sólido Sol", o qual desenvolvi buscando suas Influências
cervantinas que identifiquei na primeira leitura que fiz do conto?
AAO - Com enorme espanto e, posteriormente, com agradabilíssima
surpresa, pois seu modo de ler meu texto corrobora a amplitude do espectro
literário, fixado de maneira ímpar por Fernando Pessoa,
quando escreveu:
Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio
Do que não está ao pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é.
Sentir? Sinta quem lê.
Ato e findo: eu escrevi o conto "Um Sábado de Sólido
Sol"; você o leu e, a seu modo, o sentiu.
2. Quais referências literárias você tem hoje
em sua literatura?
AAO - Não creio que possua - hoje - referências literárias.
Alguns autores agradam-me, outros desagradam-me; e os que me agradam agora,
às vezes, desagradavam-me. Entre agrados e desagrados, alinhavo
minha escritura, procurando pontas soltas dentro dos acontecimentos como
quem, sob um céu de espessas nuvens, cata fugazes brilhos de mortas
estrelas.
3. Fale sua opinião sobre os minicontos, chamados também
de contos mínimos, contos de bolso e contos de bolsa iniciados
pelo escritor guatemalteco Augusto Monterroso, tendo como maior expoente
no Brasil o escritor Marcelino Freire.
AAO - Para mim os minicontos são burlas. Há no Dom
Quixote uma personagem que se refere a pintores tão inventivos
que, ao pintarem um galo, apressavam-se a escrever ao pé do quadro:
isto é um galo. Também os minicontistas poderiam auxiliar
os leitores, fechando o texto com um solene alerta: Isto é um miniconto.
4. Como aconteceu sua mudança de gênero literário,
visto que, iniciou sua escrita com a literatura marginal, passou para
contos breves e atualmente possui um gênero "tradicional"?
AAO - Minha mudança de temas e formas literárias
foram lentas, porém definitivas. O jagunço Riobaldo
(Grande Sertões: Veredas, Guimarães Rosa) afirma
lá pelas tantas: Minha competência veio aos passos. Quanto
a mim, minha competência - se é que alguma me cabe - emparelha-se
com a do jagunço: Comprei-a aos passos.
5. Fale um pouco do "ser escritor" no, o Brasil.
AAO - Grosso modo, ser escritor hoje é procurar desbragadamente
aparecer na televisão, opinando sobre o reduzido índice
de natalidade dos pandas gigante; ser entrevistado pelos profissionais
do jornalismo literário para afirmar que o congraçamento
da camada de ozônio com os montículos de carbono expelidos
pelos veículos podem causar câncer de próstata nos
prosadores, já que estes passam muito tempo sentados diante dos
computadores; desfilar em carros alegóricos no carnaval e, em festivais
literários, ler para uma platéia de colegiais obtusos o
parágrafo inicial de um novo texto: A irrefragável flatulência
dos carecas em áreas públicas. E, se, ainda, houver o concurso
do destino auxiliando, sair com um cachezinho no bolso para as cervejas
das horas vivas e das horas mortas.
6. Como você vê a literatura atual?
AAO - Há uma afirmação de um crítico
- a qual não sei se irônica ou veraz - que, com a chegada
dos blogs, basta ter um computador para surgirem a cada dia novos Marcelos
Mirisolas e uma infinidade de Brunas Surfistinhas.
7. O que você aprecia ler hoje?
AAO - Como sempre, continuo leitor de muita prosa e pouquíssima
poesia. Às vezes, para desemperrar o veio lírico, dou-me
à leitura dos cancioneiros medievais galego-portugueses, dando
muita valia à fescenidade das cantigas de Mal-Dizer.
8. Dê sua opinião sobre a controversa proposta de
Mudança na Ortografia da Língua Portuguesa.
AAO - Os países de língua portuguesa têm grandes
diferenças culturais e sociais, e juntar todos num só balaio
para escreverem de forma única, parece-me que nos querem meter
num leito de Procusto (mitologia grega), cortando a cabeça e os
pés dos que extrapolam a medida das tábuas do leito e matando,
por espichamento, aqueles de medidas menores. Angola, Moçambique,
São Tomé, Príncipe, Cabo Verde, Brasil e Portugal
que escrevam de acordo com suas realidades e necessidades. O Latim aonde
foi pariu-se em novos latins de diversas maneiras de se escrever: o francês,
o espanhol, o português, o galego e o italiano.
9. Quem quiser ler seus livros, onde poderá encontrá-los?
AAO - Meus livros despertam reduzidíssimo - ou mesmo nenhum
- interesse nos leitores e, por essa razão, são escassas
as livrarias que os têm à venda. Talvez, o lugar mais indicado
para encontrá-los seja na Nanquin Editorial onde se acham soberbamente
encalhados.
10. O panorama catastrófico e acintoso da política
e cultura de nosso país permeia suas narrativas. Fale um pouco
sobre esse processo.
AAO - Este desgraçado país foi, ao longo de sua história,
um repositório dos interesses econômicos muito bem definidos
pelas camadas do poder. A título de exemplo exemplaríssimo
temos um grande cafeicultor paulista (hoje nome de rua e praça)
o qual apoiava a abolição da escravatura com apenas duas
ressalvas: a) o Imperador indenizaria os cafeicultores, pagando o preço
de mercado de preto a preto a ser libertado; b) o Imperador custearia
integralmente a introdução da mão-de-obra dos novos
colonos. Às camadas populares cabe chafurdarem no caldo de miserabilidade
que lhes coube, haja vista a grita das elites contra o Bolsa-Família
instituída pelo Presidente Lula. Recentemente, li, num grande jornal
de São Paulo, os comentários virulentos de uma assinante
revoltadíssima contra a cota racial para negros nas universidades.
Dizia a assinante, descendente de ilustres troncos paulistas, que melhor
seria para o país os negros, os pardos, os mulatos, os sararás
ingressarem em cursos profissionalizantes que os preparam para os ofícios
de copeiros, arrumadeiras, cozinheiras, passadeiras, jardineiros, motoristas,
babás - profissões tão úteis às famílias
de representação, hoje, necessitadíssimas dessa mão-de-obra,
assaz carente nos lares paulistanos. E, ainda, havia um adendo à
missiva: como essas profissões não são exercidas
no âmbito fabril ou comercial, torna-se um verdadeiro absurdo essas
relações serem regidas pelas Leis do Trabalho com as exorbitâncias
de registro em carteira, férias, 13º salário, horas-extras,
recolhimento do INSS e o depósito no maldito Fundo de Garantia.
Podemos observar pela entrevista que, o "professor-escritor"
Ariosto, leva com crítica cáustica e mordaz o timão
de sua literatura. E, dentro do seu universo de lucidez, mantém
viva a memória cultural paulista-brasileira de nossa época,
tão necessária quanto à própria existência
da arte.
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