| Cartografia
poética da cidade O carioca Sérgio Alcides soube captar nos instantâneos urbanos os seus contrapontos, fazendo uma releitura poética e reflexiva desse território de contrastes. RONALDO CAGIANO | |
| Em seu segundo livro, O Ar das Cidades, o poeta carioca Sérgio Alcides propõe um outro olhar sobre as cidades, naquilo que a atmosfera urbana tem de encantamento e precariedade. Uma nova sintaxe de uma realidade subjacente, que só os poetas conseguem extrair a partir de um referencial externo tantas vezes impermeável. No movimento denso das ruas, o poeta enxerga além do sentido óbvio que há nas coisas, nos objetos, na dinâmica social e nas re(l)ações individuais, impregnadas de um cosmopolitismo frio e racional. Temática às vezes batida por outros autores, ela encontra em sua poesia uma outra dimensão, em contraposição a tudo o que se diz sobre o viver na urbe, esse universo pessoal dissociado da polis, com suas vinculações políticas e suas formalidades, sem espaço para a subjetividade. Aqui, a transfiguração poética se manifesta no contato psicológico com a realidade, despojando-a de sua selvageria carbônica e das criaturas metropolitanas sem rosto e sem alma. Em singela introspecção e adotando uma leveza vocabular, numa simbiose entre o visual e o verbal, o poeta arregimenta naturalmente as palavras para falar em tom coloquial dessa cidade que vai sendo exorcizada entre um poema e outro. Delimita o território de suas percepções numa estrutura poética que chama atenção pela ausência de escoras, de agregações, de penduricalhos e adjetivações. Seu poema é curto e grosso, na linha de um pragmatismo estilístico muito particular. Numa época de tantas estréias literárias, muitas vanguardas e pouca excelência criativa, podemos situar a poesia de Sérgio Alcides como arte depurada, sem afetação ou bravata. O Ar das Cidades impõe-nos a necessária compreensão dessa estrutura tentacular, dominadora e melancólica chamada cidade, com seus ares afetados e seus fluxos de interesses divergentes, onde vida e morte se interpenetram sem concessões. Jornal da Tarde, Caderno de Sábado, 20/01/2000 NANKIN
EDITORIAL |