| A Carne
e o Tempo SAMUEL PENIDO | |
| Donizete Galvão é um poeta que chamou a atenção do leitor e da crítica, logo na estréia, em 1998, com Azul Navalha. Em menos de dez anos de carreira, chega ao quarto livro, este A Carne e o Tempo (Nankin Editorial, Sao Paulo, 1997), o que não é fato comum. Já pode ser arrolado, sem favor algum, entre nossos melhores poetas. Nem só a vida corpórea e a passagem dos anos preocupam o poeta, como faria supor o título do livro. Seu leque de preocupações é amplo. Há a minuciosa e comovente celebração da terra natal, Borda da Mata, cidade incrustada na velha Minas Gerais; celebração que nos traz à memória a saga poética de dois ilustres conterrâneos seus, o sempre festejado Drummond e o injustamente esquecido Dantas Mota. A semelhança desses dois mestres, Donizete Galvâo, proustianamente, vai em busca do tempo perdido, de suas raízes, do chão particular. Mas tal como Drummund, é também o poeta do tempo presente, da cidade grande, do cotidiano por vezes raso ou tremendamente áspero, tudo lhe despertando no entanto, insights de denso lirismo. A carne é triste, no verso célebre de Mallarmé. Aqui, porém, há como que uma variação da mesma idéia: a carne pode ser triste. Ou mais precisamente, o tempo pode torná-la triste. O poeta fala da carne que já não responde aos apelos de Eros; da sombra que a todos espreita, inexorável. Mas, em contrapartida, busca o socorro do deus Príapo; roga-lhe que "insufle o sangue em nossas veias" (...) "Agora que a juventude arisca se afasta ". O poeta tem viva percepção do cômico e patético humanos; incorpora-os ao poema não poucas vezes, e ao fazê-lo usa de grande sutileza crítica, selecionando como um ficcionista, tipos e situações: "Rufam todos os tambores, abrem-se as corflnas./ Nossa trupe mambembe exibe suas dores e sinas! A orquestra toca Bolero: o ritmo vai crescendo./ O fraque do maestro tem no braço um remendo./ Eis Crystal Kimberley, a rainha do strip-tease./ Saiu do sertão do Sergipe, de nome WandernIse" (...) "Parado no trânsito da Marginal,/ Vi você roendo as unhas com fúria. / Estava encostado no poste da esquina, / arqueados numa posição frouxa." O mundo da memória, com todo seu potencial mítico, é habilmente trabalha-do pelo poeta. Paralelamente à crônica da vida urbana, há as imagens recorrentes da vida passada no campo. Imagens que remontam à sua infância e que traduzem, sem dúvida, uma experiência marcante. E ele soube interiorizá-Ias e dar-lhes o devido tratamento poético: "Que pássaro secreto se oculta, / nos ninhos de suas árvores? / Que urdidura de cipós, ramas, / cascas, musgos e parasitas / vela suas intimidades / (...) 'Cavalos e mulas pastam, / o troteiro sonha / mascando galho de capim / no canto da boca." Já o poema Inventipalavração constitui peça curiosa em matéria de ludismo linguístico-poético aliado ao sense of humour, que é outra característica do poeta: "Que fetisdeza! / Que tristidade! / Que gordureza! / Que esbeltura! / O que diria / a mômica Alice! /diante dessa loucurice?". Para completar, A Carne e o Tempo, de Donizete Galvão, é livro que possibilita muitas abordagens, sobretudo por sua elasticidade temática e formal. A linguagem é fluente e cheia de inovações. E não se pode esquecer o belo diálogo que mantém com obras e personagens do universo da cultura e da arte. A propósito, o poema Quarteto em K merece ser transcrito: "Kandisky, Klee, Kleín, Kapoor: quarte-to com um quê de sagrado / nos seus reinos de cabala da cor. // Cor como a cor das asas do azulão, / cor sem corpo, cor maté-ria aérea, / cor de deuses em transfiguração. // Telas de cósmica e justa essência, / seres orgânicos, sêmen original, / totens nus de era pré-conceitual. // Aproxime-se delas como corpo / e o espírito despidos de estéticas: não são arte mental, são poéticas." Jornal O Escritor, 04/1999 |