O escritor
mineiro Iacyr Anderson Freitas é uma das mais expressivas vozes poéticas
brasileiras do final do século XX e do início do século XXI.
Já publicou dezessete livros de poesia, além de três de ensaio
literário e um de contos. Premiado no Brasil e no exterior, vem conquistando
o reconhecimento por criar uma obra poética de inquestionável qualidade.
Em 2009, Iacyr comemora o 27º aniversário de publicação
da sua obra de estréia, Verso e palavra, vinda a lume em 1982. Portanto,
são quase três décadas de intensa criação poética
e a reunião de sua poesia em três volumes é outro momento
de celebração literária. O autor lançou os dois volumes
que completam sua obra poética reunida e comemora a concretização
de um projeto tão sonhado. Intitulados Quaradouro (Nankin/Funalfa,
224 p.) e Primeiras Letras (Nankin/Funalfa, 216 p.), são frutos
de um longo trabalho de revisão. Editados com o apoio da Lei Municipal
Murilo Mendes de Incentivo à Cultura, esses dois volumes dão seqüência
ao premiado A soleira e o século, publicado em 2002 e considerado o primeiro
estágio do conjunto tripartite destinado a englobar toda a poesia do autor
do premiado livro de contos Trinca dos traídos.
Quaradouro
inclui, assim, em edição completamente revista, quatro títulos
editados na primeira metade dos anos 1990: Sísifo no espelho, Primeiro
livro de chuvas, Messe e Lázaro. Desses quatro títulos,
todos fundamentais à compreensão da trajetória lírica
do poeta, três receberam importantes premiações nacionais,
projetando definitivamente o nome de Iacyr Anderson Freitas no panorama poético
contemporâneo. O volume conta, ainda, com o prefácio de Affonso Romano
de Sant'Anna, que afirma: "Sendo genuinamente órfica, há na
poesia de Iacyr algo de hierático, de nobre. Não tem o prosaísmo
banal dos textos dionisíacos que despedaçam e fragmentam o cotidiano
numa desmesura anárquica e furiosa. Seu texto não compactua com
algo que anda sendo publicado por aí como se fosse prosa entrecortada,
sem qualquer noção de eficiência do verso como unidade rítmica-formal".
Já Primeiras Letras congrega os seis títulos iniciais
do poeta, do inaugural Verso e palavra até o impactante O aprendizado
da figura, todos publicados nos anos 1980. Livros de formação,
de aprendizado, mas que fizeram história na Juiz de Fora dos varais de
poesia, do folheto Abre Alas e da revista D'Lira. Primeiras letras inclui, por
exemplo, o livro que introduziu o selo das Edições D'Lira no mercado,
o epigramático Pedra-Minas, de 1984. Além dos três
títulos citados, integram o referido volume as obras Colagem de bordo
& outros poemas, Outurvo e Memorablia. O poeta mineiro Donizete
Galvão, radicado em São Paulo, assina o prefácio, destacando
que "Primeiras Letras (...) preserva o coloquialismo, a concisão,
o frescor dos instantâneos da vida quotidiana".
Tanto Quaradouro
quanto Primeiras Letras possuem capas realizadas a partir de fotografias
de Ozias Filho, brasileiro radicado em Portugal, tendo sido responsável
pela organização da antologia poética de Iacyr naquele país,
intitulada Terra além mar. Esta antologia arrebatou duas distinções
importantes: o Prêmio Internacional de Literatura Brasil - América
Hispânica, promovido pela AFEMIL, em 2007, e a menção honrosa
no Prêmio Nacional Cassiano Ricardo, promovido pela União Brasileira
de Escritores, em 2006. Seu livro de contos Trinca dos Traídos,
indicado para o vestibular da Escola de Direito da Fundação Getúlio
Vargas (SP) em 2006, obteve também a Menção Especial do Prêmio
Literário "Casa de las Américas", em 2005, em Cuba. E
Quaradouro ficou entre os 13 livros de poesia em língua portuguesa
mais bem votados na edição 2008 do Prêmio Portugal Telecom.
Sua obra já foi traduzida para diversas línguas, alcançando
notável divulgação em países como Colômbia,
Espanha, Malta, Argentina, Estados Unidos, França, Chile, Itália
e Portugal. Seus livros chegaram a ser destacados por críticos e escritores
da categoria de Carlos Nejar, Alexei Bueno, Fábio Lucas, Ruy Espinheira
Filho, Wilson Martins, Olga Savary, Ivo Barroso, Assis Brasil, André Seffrin,
Fernando Py, Miguel Sanches Neto e Fabrício Carpinejar, entre muitos outros.
Uma poética vigorosa
Todo poeta digno do nome é influenciado pelas suas leituras e pela forma
como as confronta com as suas vivências. As leituras dão um ângulo
de visão, dão uma lente com que observa o mundo. Iacyr Anderson
Freitas é um leitor comprometido com a literatura de qualidade e, como
leitor atento, conhece a fundo a literatura contemporânea e a clássica.
Como poeta maior, sabe transitar entre a lírica e a ruptura com desenvoltura
e aguçada sensibilidade.
O escritor português Ruy Ventura,
quando do lançamento de Terra Aém Mar, destacou como "uma
ocasião feliz a publicação em Portugal de uma das vozes mais
importantes da poesia brasileira que se tem escrito nos últimos anos, Iacyr
Anderson Freitas. Temos a felicidade de poder adquirir, em Portugal, a excelente
antologia dos seus poemas". Assim, Ruy Ventura manifestou sua adesão
plena à obra do poeta de Juiz de Fora ("vizinho" de Murilo Mendes
e de Fernando Fiorese) "esperando estimular um igual entusiasmo em quantos
me lêem". E finaliza: "Estamos na presença de uma poesia
profunda que escava o interior do ser humano, para nele encontrar os fundamentos
da memória, do exílio, do quotidiano, da erosão do mundo,
das emoções que nos transportam no universo".
O reconhecimento
da força da obra poética de Iacyr é compartilhado também
por inúmeros escritores, poetas e críticos literários. Grande
tradutor e ensaísta, Ivo Barroso, em artigo publicado no Jornal do Brasil,
afirmou que Iacyr é um dos melhores poetas do país e que sua antologia
Terra Além Mar - qualificada por ele como uma "bela edição
da Ardósia (de Lisboa)" - é o resultado do "trânsito
franco em Portugal (e adjacências)" do autor mineiro radicado em Juiz
de Fora. Ainda segundo Ivo Barroso, a poesia de Iacyr merece distinções
e ele domina (coisa rara entre os poetas jovens) a técnica do verso, métrica
e rima: "Iacyr faz poesia clara, direta, embora nada linear ou convencional.
Seu domínio da métrica e da rima revela um leitor consciente de
Bandeira".
O poeta e ensaísta Edimilson de Almeida Pereira,
companheiro de geração de Iacyr, revela que "a poética
iacyriana consiste em reconstruir - com pensamentos e afetos - os lugares onde
a hipótese de reconstrução se desvaneceu". Por sua vez,
o escritor Alexei Bueno aponta Iacyr como "um dos grandes representantes
da lírica brasileira" e Andityas Soares de Moura destaca que os poemas
de Iacyr "são como cantos rituais, onde a palavra existe em sua essencialidade;
a significação alcança o máximo de concreção
nos melhores momentos do poeta, onde as realidades pungentes do mundo se liquefazem".
Segundo o renomado crítico Fábio Lucas "descobre-se o poeta
em Iacyr Anderson Freitas pelo plano lingüístico com que se exprime.
A disposição das palavras, as intenções ontológicas
e a trama conteudística, em que ora se desvela, ora se esconde um largo
território da experiência, denunciam uma forte presença lírica".
Fabrício Carpinejar, outro expoente maior da poética contemporânea
brasileira, garante que "aproveitando a visibilidade dada a um Estado literalmente
poético, que desde os árcades ao profundo Guimarães Rosa
alcançou os cumes da originalidade, descobre-se um poeta contemporâneo,
Iacyr Anderson Freitas, que representa uma recente mina entre essas tantas de
inesgotável minério". Para Olga Savary "a sóbria
e ao mesmo tempo ardorosa poesia de Iacyr Anderson Freitas representa o que de
mais vigoroso é criado na poética mineira e brasileira". Na
mesma linha, Fernando Py afirma que "há muito, desde pelo menos seu
'Primeiro livro de chuvas', o poeta já se assenhorou de uma dicção
própria, caminhando agora para a maturidade da expressão. (...)
E o resultado é um avanço maior na qualidade e importância
dessa poesia, tão avessa às facilidades, tão obstinada na
pesquisa da linguagem poética, e, já agora, tão representativa
da geração de poetas que principiou a afirmar-se no final dos anos
1980".
Na opinião do escritor e crítico da Galícia,
Xosé Lois García, Iacyr é outro dos grandes poetas nascidos
nos anos 1960, de fecunda e fascinante criação: "Na poesia
deste já consagrado autor encontramos uma espiral em movimento perpétuo".
E o escritor mineiro Luiz Ruffato, outro companheiro de geração
e do grupo D'Lira, reconhece que "poderíamos terminar brandindo o
velho chavão: Iacyr é um poeta que veio para ficar, pena que não
circule nacionalmente, etc., etc., etc., etc.. Mas prefiro terminar afirmando
que Iacyr Anderson Freitas desponta como uma das vozes mais importantes da geração
dos 1980". Zonas de sombra e de luz
Na verdade, em poesia a situação é complexa porque nenhum
poeta quer dizer tudo. Há zonas de sombra e zonas de luz. Iacyr Anderson
Freitas tem afirmado convicto: "O que nós queremos é exatamente
explorar a possibilidade dessas duas regiões, as zonas de sombra e as zonas
de luz. E que as zonas de sombra sejam zonas de sombra. Que continuem a assombrar
o leitor sem esclarecer. Afinal, não declarar as coisas também é
uma forma de potencializar um determinado sentido, porque isso vai abrir aquilo
que é essencial em qualquer texto poético: a polissemia".
O poeta mineiro revela o grande embate do escritor: "Nós vivemos o
inexprimível nas palavras. Nós vivemos aquilo que não conseguimos
exprimir, mas temos que traduzir isso em palavras". E assegura: "Qualquer
escritor desconfia da linguagem, por achar que a linguagem é menor do que
a realidade ou até que a linguagem é uma forma de reduzir a realidade.
Essa relação é ambivalente, afinal, o escritor tem uma paixão
pela base acústica da linguagem e por certas articulações
de fala, mas conhece bem as limitações das articulações
e os seus limites".
Como bom poeta, Iacyr sabe muito bem que nenhuma
arte abandona a sua origem e a origem é algo de uma energia muito forte,
muito violenta. E afirma que "a origem da lírica é exatamente
a de um certo assombro pela existência. Uma origem que seja cantante, que
possa estar vinculada a uma linguagem diferenciada do comércio verbal quotidiano,
uma linguagem que possa transcender a nossa fala comum, mas que, por outro lado,
tenha horizontes inusitados. Você não pode oferecer o comum porque
o comum todos temos". Para concluir incisivo: "Nós temos que,
ao escrever, oferecer um certo modo de visão, que até pode ser partilhado
por todo mundo, mas que, na página, por aquelas palavras, seja único".
Jorge Sanglard
é jornalista, pesquisador e produtor cultural. Escreve em jornais de Portugal
e do Brasil.
Publicado em 28/10/2008 no site Cronópios
http://www.cronopios.com.br/site/critica.asp?id=3611 |