Dos livros à vida, a poesia

Ademir de Demarchi - editor da revista Babel

Fernando Fábio Fiorese Furtado


(...)
Sendo assim, os versos há pouco citados são de "torre", um poema que se ocupa da letra "t" de dicionário mínimo, de Fernando Fábio Fiorese Furtado, com o qual esse escritor experimenta a tentativa de uma renovação em sua poética, de já quase duas décadas. Reunida de forma avaliativa, que permite um balanço, em Corpo portátil (Escrituras, 2002), nela prevalecia de forma mais evidente e notável o tom memorialístico e muitas vezes irônico com que relatava sua vivência, por vezes trespassada em excesso por dicções devidas a Manoel de Barros ou a João Cabral, mas denotando a necessária vitalidade para superá-las, o que é já evidente no conjunto inicial que dá nome àquela reunião.
Caprichos bibliográficos, poema incluído em Corpo portátil, homenageia ensaio de Theodor Adorno e sugere que "Livro só existe no plural./ De modo que não há como abrir/ um único, sem com isso outro,/ e assim acionar a espiral/ que, par em par, outros abrirá", denotando ser um interessante leitmotiv a prenunciar este novo dicionário mínimo e explicando a reiterada circunvolução a que estamos submetidos neste texto. Esse dicionário é, assim, antes de tudo, uma blague, pois se segue uma ordem alfabética dando entradas para todo o alfabeto, o faz, porém, com apenas uma palavra para cada letra. O que se tem, portanto, é um dicionário arbitrário, uma fábula livresca que falsifica citações e nos dá definições antológicas como a do verbete "Itália", que informa, em italiano, como não poderia deixar de ser, entre outras boutades, que esse é um país que não existe, banhado por um mar feito de plástico e situado no continente Cinecittà...
Seguindo essa lógica — ou falta dela... — Fiorese vai do escatológico e bizarro como em "umbigo" (na nota ele informa que a definição veio das palavras de sua parteira, quando passou às suas mãos seu umbigo, guardado por ela na barra da saia cerca de 35 anos...); passa pelo tragicômico de "queda", em que define que "Foi uma esfoladura no joelho de Deus. Ainda quando decai, nos domina"; nos dá definição tocante como a de "flamboyant", que não é "Nem palavra nem árvore. Flamboyant é bote, boiando acima da tarde" e "cresce à margem do dicionário. Parce que il ne parle pas, il flambe"; define "velocípede" como um "fóssil da infância" ou nos diz: "Tenho dó do dáblio como de uma aranha de pernas para o ar". É muito bem-vindo, portanto, esse senso de humor, tendo em vista que a poesia tem se levado muito a sério neste país, precisando ser ventilada pela idéia de que a linguagem está aberta à invenção, qualquer que seja ela, assim como ao senso de humor.
(...)

Este texto faz parte de uma longa resenha publicado no site da Rascunho do dia 23/04/2004, com o título: A poesia em prosa de Contador Borges, Fernando Fábio Fiorese Furtado e Rosana Piccolo.