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Fernando Fábio Fiorese Furtado nos surpreende agradavelmente com
seu novíssimo DICIONÁRIO MÍNIMO: POEMAS EM PROSA
(Nankin/Funalfa, 2003), uma espécie de manual prático de
bolso para espantos e alumbramentos (assombros, como os chama
Iacyr Anderson Freitas, em seu prefácio, Minerações
do mínimo). Esse livro é dono de uma falsa despretensão:
primeiramente pelo seu título, depois pelo seu reduzido tamanho
do seu volume, por fim em função do seu projeto de grande
simplicidade.
Engana-se, no entanto, quem enxergar nele algo de inofensivo. Suas páginas
se sobrepõem como andares de um prédio que, paradoxalmente,
comporta uma atitude minimalista. Nessa atitude entrevejo uma ética
da escrita que se organiza à maneira espinosista, isto é,
uma ética demonstrada à maneira geométrica, de uma
geometria também minimalista. O exercício a que Fernando
Fiorese se submete não é absolutamente o do rigor cabralino,
frio e arquitetônico, ou o do mot juste fenomenológico
de Francis Ponge, mas o rigor reverso, um contra-rigor, ou um rigor, digamos,
contra-cabralino. Pois vejamos: um dicionário deve ser o mais justo
e exato na busca das diversas acepções de uma determinada
palavra. O projeto de Fernando Fiorese indica ser o de um anti-dicionário,
ou uma desdicionarização das palavras-verbetes escolhidas,
como em cadeira, explicada através de uma fonética,
uma morfologia, uma sintaxe e uma estilística. O autor parece repetir
com Gilles Deleuze que há apenas palavras inexatas para designar
alguma coisa exatamente. E com isso toca uma escrita que é
pura distância, um quase vazio que parece prefigurar uma espécie
de pós-niilismo, como no poema-verbete nada: Esta
palavra não assalta, espreita. Nenhum poema suporta ou resiste
sem sua matéria. Sendo assim, revejo o que escrevi atrás
e digo suas páginas tratarem-se, na verdade, de andares subterrâneos
de um prédio, andares que crescem para baixo, negativamente.
É precisamente nessa inexatidão que entendo uma ética
da escrita no livro de Fiorese. Uma ética que opta pelo mínimo,
pelo menor, pelo sutil, pelo suave e leve, em que a palavra não
atua como senha esotérica para grandes respostas, nem como chave
para decifrações finalistas do mundo como se pode
esperar de um dicionário tradicional, com seus verbetes totais.
Ao contrário, a ética da escrita que vislumbro nesse dicionário
mínimo se coloca nietzscheanamente como um empreendimento de saúde,
uma escrita da doença para sua catarse física pelo ato de
escrever, como no verbete hospital: Há modos
de estar doente de horizonte. Os mesmos de aprender a página pelas
margens, de operar o abismo como se fora ponte, de apurar o trapézio
para a primeira dor / (...); ou em janeiro: Janeiro
destelha tempo e lugar. Cumula de verbos mesmo um livro doente.
Essa ética da escrita tende, no seu limite, para uma poética
que vibra encapsulada em cada poema-verbete. Kitsch é
um dos maiores exemplos disso, primeiro pela nota de rodapé a ele
afixada, em que diz borgeanamente ter sido um texto datilografado
em fragmento de papel vergé (172x210mm), sem assinatura ou qualquer
outra identificação, encontrado entre as páginas
516 e 517 do exemplar de Le poème en prose: de Baudelaire jusquà
nos jours, de Suzanne Bernard, pertencente à biblioteca particular
do poeta Murilo Mendes (...), depois pelo exercício aliterativo
do próprio texto, definição e comentário crítico
ao verbete-título do poema, que ganha, assim, ares de metapoema:
O fascínio do fácil. O fascínio do falso. O
fascínio do fausto. / O fascínio do fóssil. O fascínio
do físsil. O fascínio do fute.
A escrita deste dicionário aponta para um espaço infinito,
que é seu próprio texto, o espaço textual que se
dobra e desdobra, em um ritmo cadenciado e movimentos que parecem traçar
linhas pelas páginas. Aliás, linha é
o nome de outro verbete: (...) / Lápis pássaro deslimita.
Será varal ou meridiano? Rubrica sobre a água ou giz na
calçada? / Linha é leque ou libelo? / (...)/ Em sendo uma
máquina simples, linha acomoda do horizonte a medida, da ponte
as aspas, da esquina o adeus, do caderno o entorno, do gesto a infância.
/ (...) / O que é a linha senão um capricho do tempo: bifurcações
sem sentido até que se realiza o arabesco. / (...). Como
nas belíssimas capa e contra-capa, com ilustrações
assinadas por Eliardo França, as palavras, como as linhas, as cores
e as formas geométricas, se constroem como caminhos sem começos
nem fins, fragmentos e lugares de passagem para os olhos e para a imaginação,
sobre um fundo negro.
A beleza desse seu Dicionário Mínimo: poemas em prosa
está justamente em ser um livro de abertura e de livre experimentação
com as palavras. Experimentação que não abdica da
comunicabilidade, só que o que se comunica é principalmente
o incomunicável, aquilo que geralmente se perde nos circuitos cotidianos
da palavra escrita e falada, o mínimo denominador incomum do verbo,
sua poesia no sentido mais corriqueiro da palavra, aquilo que enleva,
faz pensar e provoca estranhamento. Aliás, o que caracteriza um
poeta para mim é precisamente o que Fiorese já provou ter
de sobra: habilidade técnica com as palavras e um olhar de estranhamento
sobre o mundo, plasmados para a confecção fabril e febril
do poema.
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