Dona da palavra
Com poucos leitores e muitos admiradores, Hilda Hilst lança sua 38ª obra.
GERALDO MAYRINK

Há mais de trinta anos Hilda Hilst vive enclausurada no que chama de torre de capim. Uma casa-fazenda numa área de 40.000 metros quadrados, perto de Campinas, a 110 quilómetros de São Paulo. Ali, entre plantas e a companhia de sessenta cachorros vira-latas acolhidos ao longo dos anos, nasceram poemas, peças de teatro e textos de identificação nebulosa que provocaram frêmitos em muito pouca gente. O mais novo deles, Estar Sendo. Ter Sido. (Nankin Editorial: 128 páginas) soma-se a uma obra que já tem dezenove volumes de poesia, oito de peças de teatro e dez dos tais escritos de difícil identificaçao. Abre-se com uma bela epígrafe:

Canção de cativos, nunca,
Rouca e afogada em absinto;
antes de atingir a boca
morta na noite do instinto.


escrita por Apolonio de Almeida Prado Hilst, o pai da autora, misto de administrador de fazendas e poeta que morreu num hospício quase sem conhecer a filha. E fecha-se com outros versos, de acachapante desesperança, dela mesma:

Palha
Trapos
Uma só vez o musgo das fontes
O indizível casqueando o nada
Essa sou eu
Poeta e mula.


No meio vêm as lembranças de um certo Vittorio, poeta de 65 anos, cheio de máscaras, bebedor impiedoso e às vezes hilariante no julgamento de sua vida. Embora com passagens picantes. em nada se compara a O Caderno Rosa de Lory Lambi ou A Obscena Senhora D, pomografia assumida que deu alguma notoriedade à autora e o desgosto de brigas com alguns admiradores desapontados. Escrito durante três anos, numa velha máquina Lettera 22, Estar Sendo não teve noite de autógrafo e nenhuma resenha crítica na imprensa um mês depois de lançado. Tem sido assim desde 1950, quando Hilda estreou com o livro de poemas Presságio e sofria como única mulher numa turma de quarenta homens na Faculdade de Direito de São Paulo. Era um lugar onde se sentia naturalmente tão pouco à vontade que o severo professor Cesarino Júnior nem precisava encará-la ao ordenar no começo das aulas: "Poetas, para fora!"

Palmas para ela -- O diploma hoje nem é um retrato na parede, mas os livros foram saindo, sempre em edições peque-nas. "Ela dizia coisas estranhas e ousadas mesmo para os dias de hoje. Seu principal traço é a coragem", diz uma velha amiga, a escritora Lygia Fagundes Telles, que liga toda semana para Campinas não só para conversas fiado: "Quando fico deprimida, é Hilda quem me anima". Não adiantou nada que um crítico de imenso prestígio, Anatol Rosenfeld, dissesse que "as peças de Hilda Hilst acrescentam uma nova dimensão ao teatro brasileiro". Elas continuam sem ver a luz dos palcos. comenta Hilda. Um que escreveu muito sobre aquela que considera "a mais perfeita escritora brasileira viva", o crítico Leo Gilson Ribeiro aponta: "Poucas pessoas compreenderam que Hilda, depois de Guimarães Rosa, estava trazendo a mais profunda revolução à literatura contemporânea brasileira. Inventava palavras, usava termos arcaicos de autores clássicos portugueses, encaixava expressões populares para descrever situações limites do ser humano".
David William Foster, professor de literatura latino-americana na Universidade do Arizona. escreveu sobre o livro Rútilo Nada (1993): "Nenhum outro escritor latino-americano, nem mesmo Manuel Puig, que foi um mestre na representação das perversões, escreveu uma tal terrificante história de vingança sexual em que a transgressão. nos termos do amor gay, choca-se tão extraordinariamente com a necessidade histórica latino-americana". Enfim, quando saiu na França a tradução de Contos d'Escárnio, em 1994. pela editora Gallimard. a crítica foi elogiosíssima. "Escrever pornografia aos 60 anos não é fácil, a gente já esqueceu quase tudo", observa Hilda, com bom humor. Mas os crticos franceses disseram que ela "elevou a pornografia à condição de arte"e a autora ficou brava. "Aí é que ninguém mesmo vai comprar livro meu", reclama.

Muitos amores -- É um problema sério para ela que vive de uma atividade subsidiada pela Universidade de Campinas, o Programa do Artista Residente. "Jamais ganhei alguma coisa com o produto da minha literatura", diz a descendente de quatrocentões paulistas e imigrantes alsacianos nascida em Jaú, a 300 quilômetros de São Paulo, há 67 anos. Ela herdou da mãe o terreno onde construiu o casarão cor-de-rosa, um lugar austero, às vezes lembrando um claustro, quando desistiu de São Paulo para se dedicar a escrever. "Hilda se isolou lá. mas no fundo gostaria de ser uma popstar cheia de platéia, e merece, porque escreve bem demais". diz
Um velho amigo, Millôr Femandes, que ilustrou Lory Lambi. Ela teve muitos amores, incluindo uma abordagem infrutífera a Marlon Brando em Paris, e a memória de MilIôr registra uma cena dela, "mulher lindissima", chorando no seu ombro. dentro de um carro, por culpa de uma desilusão com Vinicius de Moraes. Na lembrança de Hilda, a cena é outra, menos romântica e muito mais pândega. O poeta vivia lhe pedindo que disse "eu te amo", e ela nada. Um dia, ela foi ao hotel onde Vinícius estava hospedado com MiIIôr e ouviu deste que o poeta havia voltado repentinamente para o Rio de Janeiro. Começou a xingá-lo em voz alta e então Vinícius saiu de um armário, de pijama, triunfante: "Te peguei! Está me amando!".
Conheceu seu ex-marido, o escultor Dante Casarim. numa loja de São Paulo, abordou-o, sairam para jantar e ela perguntou se ele iria morar com ela numa fazenda. Ele aceitou, casaram, descasaram quase trinta anos depois e são amigos até hoie. Não tiveram filhos, e a companhia de Hilda, além de dois empregados, sâo as leituras de livros de física e metafísica e biografias como as do filósofo Ludwig Wittgenstein e da escritora Marguerite Yourcenar. Escreve prosa de manhã, entre um cigano e outro, e poesia na hora que acontece. De noite bebe. "É minha hora sagrada, o meu ritual. Fico vendo novela e me divirto à beça", diz. Vai dormir seis doses de uísque depois, nem uma a mais. "Tenho minhas medidas", brinca.

O além e o aqui -- A Casa do Sol, como se chama o refúgio de Hilda, abriga algumas lendas mesmo sendo palco de cenas de atroz realismo. Comenta-se que o casarão recebe mensagens através de vozes e gemidos vindos do além. Hilda confirma que isso aconteceu há mais de vinte anos, quando captou a voz de sua mãe acoplando um rádio a um gravador. É fascinada pelo livro Transcomunicação Instrumental, de Sonia Rinaldi, sobre comunicação depois da morte. Ela acredita na ressurreição da carne, na vida eterna e, com uma ponta de razão, não se vê, nem em sonhos, com um fardão da imortalidade acadêmica. Uma de suas crenças representa na verdade um fardo desumano: "Acho que Deus está irremediavelmente sozinho. Deus está na escuridão, o próprio Deus luta. Procura, quer alguém que Lhe estenda a mão. O ajude".
Hilda Hilst foi honrada com o título de cidadã campineira, no mesmo instante em que seu imposto territorial rural passou a ser considerado urbano. Com isso, está devendo 100.000 reais à prefeitura. A ganhadora de todos os prêmios literários importantes no Brasil está agora procurando comprador para um pedaço de suas terras.

Veja, 21/05/1999