Donizete Galvão concilia tradição e modernidade
Em Ruminações, poeta mineiro residente em São Paulo traduz em versos a dimensão universal das experiências elementares.
REGIS GONÇALVES

Situado em um ponto indiferenciado da constelação literária, equidistante de tradição e vanguarda, o poeta Donizete Galvão vem construindo nessa última década uma das obras mais significativas da poesia brasileira comtemporânea. Muitos não concordarão com o atributo da contemporaneidade para o verso de Galvão já que o poeta embora beneficiário da herança (já clássica) do modernismo não se deixou se-duzir pelo exacerbado vanguardismo da pós-modernidade em sua práxis poética.
Essa opção por uma poesia mais preocupada em traduzir a essencialidade do mundo e da existência do que:com o experírnentalisrno da linguagem está reafírmada em seu último livro Ruminações, quinto título de uma bibliografia inaugurada e 1988, com Azul Navalha e a que se seguiram As Faces do Rio (1991), Do Silêncio da Pedra (1996) e A Carne e o Tempo (1998), além de participação em inúmeras antologias nacionais e no exterior.
A obrigatoríedade de ser "vanguarda" -- que tem esterilizado boa partedá.produção poética atual, empenhada na interminável releitura e reescritura de si mesma, ou seja, na contemplação do próprio, umbigo, passa ao largo das preocupações desse poeta de farto imagínário. "Detesto palavras ocas diz ele cujo veio de inspiração se radica essencialmente na oralidade arcaica de um universo primordial por meio da qual funda uma mitologia própria relativa à sua origem a um só tempo circunstancial e universal: a Minas Gerais atávica.
"Minha nutrição como poeta vem do glossário familiar, dos dicionários, dos livros de história e geografia sobre árvores, plantas, pássaros e pedras. E também da música, que me acompanha de forma obsessiva (Vila Lobos, Górecki e Arvo Pärt)" escreve o poeta, nascido em Borda da Mata e residente em São Paulo, que se confessa cada vez mais fascinado pela língua portuguesa". E emenda: "Não pela correção gramatical desses professores que escrevem no jornal, mas pelos arcaísmos que encontro na minha região, Sul de Minas, ou pelas palavras que ouvi na infância".
Longe do poeta, no entanto, render-se à facilidade de uma expressão de corte regionallsta e, portanto, limitador. Seu vínculo com as raízes traduz antes um compromisso cósmIco, ontológico. O verso de feitura requintada, produto tanto do domínio de uma técnica apurada quanto da convivência com a fonte erudita, não contamina a poesia de Donízete Galvão de qualquer laivo de hermetismo. Ao contrário, o poeta é símultaneamente simples e sofisticado e surpreendentemente legível, para gratidão do leitor que espera a revelação poética sob o lixo da banalidade.
Ruminações, pela sugestão de uma poesia autocentrada, talvez não seja título indicador daquilo que o leitor vai encontrar nos 39 poemas desse livrinho precioso, dividido em duas partes -- Cartografia Mínima e Reses e Restolhos -- em que o poeta refaz a trajetória de uma consciência que se abre para o mundo, modulando-a através de uma sensibilidade entre áspera e musical. Poesia maior que vive a tensão entre o eterno e o efêmero.

O Tempo, Suplemento Magazine, Belo Horizonte, 13/11/1999