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Epitáfio
é um livro de
contos de um mineiro que se tornou goiano, publicado pela Nankin Editorial.
Eu o li no banheiro. Cada sentada, um conto e, às vezes, pelo entusiasmo,
dois. Classifico contos e crônicas como gêneros da modernidade,
porque podem ser lidos em retalhos de tempo, no ônibus, no metrô,
na sala de espera do médico. Enfim, em situações
impensáveis.
As histórias contadas por Paranhos não passam pelo crivo
da subjetividade do autor. Se quiser, o leitor que tire suas conclusões.
As lições de vida e mensagens ficam bem subjacentes. Essencialmente
figurativos. Bem diferente em Machado de Assis, que o narrador interfere,
dá palpites ao leitor, passa a ele o que o narrador deseja, até
despreza-o.
O narrador nos contos de Paranhos consegue ser menos intervencionista
que nos contos de Luiz Vilela. O livro de Flávio Paranhos mostra
um flash de nosso cotidiano em cada conto, como a chamar atenção
de nossa sensibilidade cascuda, insensível, que não quer
interpretar e nem interligar numa rede as pequenas coisas da vida. E o
leitor sente que já viveu situações semelhantes,
mas nem lhes deu importância. Ou, se é mais reflexivo, começa
a pensar em sua própria vida. Afinal, literatura também
serve para isso.
No conto Microondas, a angústia da vida sem sentido do personagem
masculino, sem nome (o casal é tratado por ele, ela), se revela
na presença de uma lixeira na cozinha. E ela estava lá há
três anos, nunca implicara com a presença anti-higiênica.
Na verdade, é o relacionamento do casal que não está
bem.
Aquela vida sem sentido do casal, de comer alimentos requentados em microondas,
resultou numa implicância, mas o narrador verbaliza isso em nenhum
momento. Como afirma o professor Valentim Facioli na orelha do livro:
"Quase sempre o estranho se revela como dimensão viva do cotidiano,
a mais viva, que revela as múltiplas faces da desumanização
do homem moderno".
O conto que dá titulo ao livro revela a relação de
torturado e torturadores, a interatividade entre eles, chegando ao ponto
de o torturado e o Chefe, juntos, gargalharem do Capitão, que era
um outro torturador. Com isso, a sessão foi encerrada, pois "não
havia mais clima para tortura".
O conto mostra assim que as relações humanas não
são estanques, elas mudam a cada momento, formando novos grupos.
E por fim há certa ternura até nos algozes. Além
de mostrar a ignorância dos torturadores, que confundiram epígrafe
com epitáfio. Para quem já viveu tal situação,
como este resenhista, é uma catarse.
Em "Cananga", o texto é dramático, escrito de
acordo com as convenções teatrais. As duas personagens,
Um e Outro, participam de uma luta de boxe em forma de diálogo.
As situações se revezam em cada momento Um se torna ofensivo
e Outro defensivo. O diálogo é tão estéril
ou fático que discutem o sentido de uma palavra que nenhum dos
dois conhece. E terminam assim, desconhecendo o sentido da palavra cananga.
Flávio Paranhos é médico em Goiânia, oftalmologista,
com doutorado. Atualmente, está cursando mestrado em Filosofia
na Universidade Federal de Goiás.
Ler Paranhos é reforçar a consciência de que a boa
literatura não está apenas no eixo Rio-São Paulo,
ela é praticada cada vez mais por jovens em todos o Brasil.
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