Epitáfio
Pensar e sangrar

Filosofia e violência se misturam no primeiro livro de contos do
médico Flávio Paranhos

ROGÉRIO BORGES


Do que o ser humano é capaz diante de situações em que acaba assumindo, proposital ou inesperadamente, o papel de vítima, de algoz, de assassino, de suicida? Os 28 contos do livro Epitáfio, que Flávio Paranhos lança hoje, às 19h30, na Fundação Jaime Câmara, desvendam, com humor, crueza e sensibilidade, os comportamentos pouco usuais adotados por pessoas que se deparam com episódios inesperados. "A linha temática da obra é a dificuldade de comunicação que pode ser percebida em nossa sociedade", explica Flávio, que está estreando no gênero. Este é seu segundo livro. O primeiro, uma peça teatral chamada O Candelabro Judeu, foi publicado pela Editora Escrituras, de São Paulo, após ser premiado no concurso Cassiano Ricardo.
Epitáfio é uma junção entre duas coletâneas de contos de Flávio que permaneciam inéditas. "Fizemos uma seleção e escolhemos os melhores para esse livro", conta ele. Essa tarefa foi realizada em conjunto com a Nankim Editorial, editora paulista que publica o volume. O autor diz que a mescla foi importante para dar um certo equilíbrio à obra. "A coletânea Epitáfio era mais densa e a outra, chamada Pensando Bem, tinha um cunho filosófico", observa. A filosofia é uma das fontes de inspiração do autor, que está fazendo mestrado na matéria na Universidade Federal de Goiás, com uma dissertação sobre ética em Heidegger. "A literatura e a filosofia estão entrelaçadas. Acho que a filosofia está ligada a todos os tipos de manifestação artística", opina.


Variedade

O primeiro conto do livro, intitulado "Situação", é uma boa amostra desse lado filosófico da obra. O texto narra um embate entre dois homens, que aparentemente não se conhecem, sobre uma situação. Qual situação? Nem mesmo os personagens chegam a um acordo a respeito disso. No conjunto do volume, de uma maneira ou de outra, o encontro entre seres humanos quase nunca é tranqüilo. Quando os interlocutores não começam a trocar provocações verbais, eles partem para a agressão física. "Muitos dos contos são tarantinescos", reconhece Flávio, referindo-se à violência gratuita que pode ser vista nos filmes de Quentin Tarantino.
Muito sangue escorre pelas páginas de contos como Estrogonofe, em que um simples jantar entre um casal se transforma em um circo de horrores. Outras vezes, é o sadismo que entra em cena, como no relato de tortura que está na narrativa que dá nome ao livro, Epitáfio. Por toda a obra há brincadeiras com o significado das palavras que, não raro, têm muitos sentidos. "Acho interessante fazer esse tipo de jogo", justifica Flávio. Ele optou por elaborar contos bem curtos, rápidos e densos, que permitem ao leitor percorrê-los de um só fôlego. Nas narrativas, o autor imprime ao enredo um grau de tensão e imprevisibilidade suficiente para prender seu público ao texto do início ao fim.


Diálogos

A linguagem fílmica pode ser percebida na profusão de diálogos que o escritor impõe às suas pequenas histórias. Em alguns dos contos, há um fracionamento acelerado das falas, com perguntas e respostas telegrafadas. Flávio alega que esse estilo vem de seu gosto pelo teatro. "Eu realmente aprecio essa estrutura", admite. "Em certos trabalhos, eu tento me controlar e não escrever diálogos. Mas, quando vejo, já estou novamente redigindo essas conversas." Para ele, isso é natural, já que seus autores prediletos agem como fantasmas invisíveis em torno do escritor, projetando suas influências de maneira velada. "É algo um pouco inconsciente", define. Flávio cita o russo Tchekov e o tcheco Franz Kafka como seus escritores preferidos.
O fato de Flávio Paranhos ser médico e de seu primeiro livro de contos versar, em grande parte, sobre fatos relacionados à morte poderia gerar a impressão de que ele busca em sua profissão a matéria-prima para alguns dos textos que escreve. O autor assegura que quem estabelece esse tipo de relação está equivocado. "Faço questão de separar muito bem a literatura da medicina", avisa. Ele revela que seu amor pelas letras vem desde a infância e que a vocação pela medicina surgiu por influência do pai. Epitáfio será lançado em São Paulo no início do ano que vem. Flávio já prepara outro livro, em que vai analisar alguns filmes do cineasta americano Woody Allen. O escritor também pretende reunir em um volume os artigos e resenhas que ele publicou nos últimos anos no POPULAR.

O Popular, Goiânia, 05/12/2003