Os labirintos de palavras de Victor Leonardi
Vocábulos atuantes como personagens causam assombro.
MARCELO ROLLEMBERG

As palavras têm uma força que transcende sua própria expressividade, ganham corpo, forma e vida independentes, criando mundos além de seus significados estritos. Qualquer pessoa que lide com elas sabe disso. Os cabalísticos e místicos sempre souberam do poder que as palavras possuem e do cuidado que devemos ter ao pronunciá-las ou escrevê-las. É isso que as torna tão tentadoras, tão sérias -- e tão perigosas. Em Quando o escriba do castelo era eu, recentemente publicado pela Nankin Editorial, o paulista Victor Leonardi trata exatamente desse misto de tentação e assombro que as palavras são capazes de inspirar, criando cinco narrativas nas quais os personagens principais, de fato, não são de carne e osso, nas quais e sim vocábulos.
Explica-se: nas histórias de se livro -- que ele justamente chama de "narrativas", e não de contos como se poderia esperar, já dando a pista de que o que vai se ler está além da pura ficção -- Leonardi cria situações nas quais seus personagens humanos vivem enredados por uma trama muito maior do que eles. A trama das palavras.
Seja na história que abre o volume, "Adannari", ou no seguinte "Cartas de Naemah", ou mesmo no que empresta seu título à coletânea, as situações podem ser diferentes, ora tangenciando um thriller policial, ora esbarrando na narrativa epistolar, mas sempre há uma constante, uma linha que une todas as narrativas: o poder modificador e trangressor das palavras. São elas, na verdade, que criam todo o clima das cinco histórias narradas por Leonardi. Afinal, são elas, impressas num livro de biologia, as responsáveis diretas ou indiretas por uma série de mortes acontecidas em um mesmo dia do distante ano de 1909. E são essas mesmas palavras ou a curiosidade instigam, que, por exemplo, criam a atração epistolar entre o narrador e a pesquisadora Naemah Carvalhaes Yazid. Mais do que isso: são o único ponto a unir os dois missivistas, que não se conhecem, nunca se viram e nunca se verão.

Verdade e mentira se misturam nas narrativas
As digressões que Victor Leonardi faz em seu "Quando o escriba do castelo era eu" podem, por vezes, tornar a leitura por demais elíptica, criando algumas armadilhas para o leitor. É fato ou ficção? Terá acontecido mesmo ou não? Mas isso, antes de ser um obstáculo, é mais um ingrediente sedutor na escrita de Leonardi, uma sedução quase borgiana, na qual realidade e mentira se misturam e se confundem, provando mais uma vez que os labirintos pelos quais as palavras podem nos levar são inúmeros e sempre inéditos.
É o próprio autor quem dá uma pista do que pretende, ao apontar em uma de suas narrativas: "Desde o princípio comuniquei minha posição sobre a questão da verdade e da mentira: não se trata de valorizar uma em detrimento da outra, como fazia o califa das 'Mil e uma Noites', mas sim de apagar as fronteiras entre ambas. O que cria uma mentira maior que todas, posto que parecida com a verdade!" É essse jogo de palavras que torna o livro de Leonardi interessante e diferente, obrigando por vezes a uma reflexão para a qual não estávamos necessariamente preparados.

O Globo, Prosa e Verso, 02/03/2002