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Título instigante, capa bonita, um gênero meio indefinido e um autor de
nome curioso que lembra algum clássico espanhol, francês ou italiano do
século 18 ou 19. Quem pegar numa livraria um exemplar de Quando o Escriba
do Castelo era Eu (Nankin Editorial, 112 págs., R$ 15,00), de Victor
Leonardi, ficará intrigado com o castelo medieval num tom cinza-fosco
ao fundo e um escriba de barro em alto-relevo, em cores, no centro da
capa, sentado no chão. Mas que livro é esse? Ensaios, memórias, romance
histórico, contos?
Ao abrir o volume, o leitor vai encontrar uma resposta inesperada: "narrativas".
O que é narrativa? Simples: um texto que narra, um gênero entre a crônica,
o conto, o romance, a biografia, mas sempre algo ficcional. O título,
a bela embalagem, o gênero, tudo isso ainda é muito pouco diante do que
há no livro, cinco textos inquietantes e ao mesmo serenos, que vão surpreender
e encantar o leitor mais exigente. Victor Leonardi é um escritor que sabe
cativar com sua prosa fluente, bela, repleta de referências históricas,
científicas, literárias - reais ou inventadas.
Em tempo: Victor Leonardi (1942) é brasileiro, nasceu em Araras (SP),
morou na Bahia, formou-se em Direito em São José dos Campos, viajou pela
América Latina e pelos Estados Unidos, viveu seis anos na Europa, fez
pós-graduação na Universidade de Paris, foi professor na Universidade
de Brasília (UnB), na Unicamp etc., é consultor do Museu Amazônico, de
Manaus, roteirista de vídeo e cinema e tem uns dez livros publicados de
ensaios, poesia e ficção. Um escritor versátil e viajado, o que Quando
o Escriba do Castelo era Eu reflete bem.
Como os bons livros de contos, nenhuma das cinco narrativas tem o título
do volume. Se alguém imaginar que o escriba está a serviço do rei, vai
descobrir seu engano antes mesmo de chegar à última narrativa do volume,
"Biblioteca da utopia", espécie de ensaio e novela de quase 40 páginas,
talvez o melhor texto do livro. Vivendo num castelo francês de mais de
mil anos com imigrantes portugueses e argelinos, o narrador faz um trabalho
igual ao da personagem de Fernanda Montenegro no filme Central do Brasil,
escreve cartas ditadas por iletrados. Também imagina livros nunca escritos
("Um livro que não foi escrito existe?"), sonha com uma biblioteca para
eles e mais tarde descobre que a utopia ainda é possível, pelo menos na
ficção.
Outros textos ficam próximos de "Biblioteca da Utopia", como "Pintura
do Invisível", um belo conto-ensaio com um quê de Julio Cortázar. Envolvente
também é "Cartas de Naemah", sobre a correspondência entre um escritor
e uma enigmática leitora. O leitor poderá se assustar com "Addanai", uma
história de arrepiar, sobre a descoberta do inacreditável poder de um
livro raríssimo, mas logo perceberá que o trabalho de Victor Leonardi,
ao contrário do que uma leitura superficial possa fazer entender, é uma
literatura da solidariedade, da busca da fraternidade, ainda que para
isso ele denuncie a dor e a barbárie da trajetória humana. Há que se destacar
o diálogo íntimo das epígrafes com as narrativas. Talvez por sua formação
científica e atividades diversificadas, sua índole nômade, como de seus
personagens-narradores, que às vezes parecem se confundir com o autor,
Victor Leonardi ainda não pôde se concentrar na literatura para firmar
seu nome entre os grandes prosadores brasileiros contemporâneos. Mas falta
muito pouco.
Hugo
Almeida, doutorando em Literatura Brasileira na USP, é autor dos romances
Mil Corações Solitários (Prêmio Nestlé-1988) e Minha Estréia
no Crime (Ed. Lê).
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