![]() | A festa
e a tragédia na poesia dos anos 60 Antologia reúne autores como De Franceschi, Torres Filho e Orides Fontella IVAN MARQUES - Especial para o Estado |
Num século de vanguardas estridentes, é curioso que tenha existido uma geração literária pautada pela tolerante (e silenciosa) diversidade de estilos. Mas parece não haver definição melhor para os jovens poetas reunidos em São Paulo a partir de 1960, quando foi publicada pelo editor Massao Ohno a Coleção dos Novíssimos. A eles é dedicada a Antologia Poética da Geração 60, que cobre quatro décadas de produção coletiva, com textos de 30 poetas recolhidos por Álvaro Alves de Faria e Carlos Felipe Moisés. O grupo, que já tinha sido homenageado com a reedição de Paranóia, de Roberto Piva, também está presente no documentário Uma Outra Cidade: Poesia e Vida em São Paulo nos Anos 60, do cineasta Ugo Giorgetti. Sobre a Paulicéia, há pródigas recordações. Nos tempos de Prestes Maia, da Maria Antônia e do João Sebastião Bar, os poetas faziam em bando leituras de Lorca, Pessoa, Jorge de Lima e outros "videntes". Eram apocalípticos, mas também melancólicos. Entre prédios e tédios, praticavam sua cota de existencialismo. "Época ingenuamente sartriana", na expressão de Rubens Rodrigues Torres Filho, que os amantes da bossa e da fossa, da política e da metafísica (marxistas neo-românticos, como define Cláudio Willer), transformaram em reino arlequinal da diversidade. Na história literária, apesar da efervescência geral, os anos 60 costumam ser vistos como uma fase de recesso e paralisia. No quadro da hegemonia cultural da esquerda --primeiro didática, depois agressiva, como escreveu Roberto Schwarz --, a arte convertida em instrumento dificilmente seria liderada pela poesia. O teatro, o cinema e a música popular se revelaram mais aptos para veicular o protesto e a resistência. Nas outras artes é que se cumpriu também o "ciclo das vanguardas", iniciado em 1956 com o Concretismo e esvaziado doze anos depois com a Tropicália. De qualquer ângulo, as letras pareciam estar fora da cena. A "poesia de palanque", segundo os organizadores da antologia, foi a mais praticada no período. Vagando em labirintos, sem paideuma nem disciplina, os "novíssimos" de São Paulo se mantiveram longe do "gabinete" formalista. A página em branco (que para muitos havia causado o desprestígio da palavra) foi preenchida com incontidos desabafos. A poesia brasileira não precisou esperar a dicção marginal da década de 70 para ressuscitar o verso -- quase sempre verboso, exacerbado, de acordo com a grandiloqüência da época. O desejo de associar poesia e vida, que vinha dos surrealistas e dos beatniks, encontrou eco na militância. Em 1964, Lindolf Bell organizou uma "catequese poética" de repercussão nacional. Neide Archanjo, Eduardo Alves da Costa (autor do famoso No caminho, com Maiakóvski), Carlos Soulié do Amaral e outros membros do grupo realizaram comícios e "varais de poesia". Engajamento que persistirá até a década seguinte, mesmo sob a marcha dos "cavalos" (metáfora recorrente na segunda parte da antologia) que "mastigam os últimos sonhos / e nós nos desesperamos" (Álvaro Alves de Faria). Na "periferia rebelde" da geração, os poetas Sérgio Lima, Cláudio Willer e Roberto Piva fundaram em 1963 um grupo surrealista reconhecido fora do Brasil. Paranóia é uma amostra vicejante e torrencial daquele "êxtase divino do livre canto", que parece feito não para ser lido, mas para embalar ritos alucinatórios. Outro sacerdote era Jorge Mautner, com sua doutrina do Kaos e a atuação libertária e multidisciplinar, em consonância com o espírito da década. Os "deuses da chuva" de São Paulo abriram caminho para a contracultura, que estenderia até os anos 70 a febre e o impasse de suas regressões românticas. Na contramão do verso caudaloso, também havia entre os "novíssimos" a "poesia de salão" -- o lirismo confessional cultivado em reuniões amenas como as do casal Dora e Vicente Ferreira da Silva, com fartas leituras metafísicas e decadentistas. O poema que abre a antologia -- Fixação do Pôr-do-Sol --, de Clovis Beznos resume a atmosfera dominante numa infinidade de elegias, que lembram o gosto refinado e crepuscular da geração de 45. O tom contido da reflexão pode ser visto em Antônio Fernando De Franceschi, que só publicará o seu primeiro livro, Tarde Revelada, em 1985. A impregnação filosófica também ocorre em Rubens Rodrigues Torres Filho, associada ao comentário lúdico (irônico) da realidade vivida e observada. No caso de Orides Fontela, que é um dos nomes mais respeitados do grupo, as abstrações atingem grau máximo. Já em seu livro de estréia, Transposição (1969), a autora surpreende com uma poesia concisa, descarnada, sem odes de palanque nem malabares de gabinete. Orides não surgiu entre os amigos de Massao Ohno, e jamais superou a condição de outsider, mas sua obra está de acordo com a inclinação para a vertigem, a fuga e a melancolia, que no silêncio da repressão e a contrapelo da política tornou etéreos -- pássaros -- os poetas de 60. "A generosidade era o cimento do grupo", segundo De Franceschi. A partilha foi grande, e a amizade selou a perplexidade. "Doloridos e solidários" (Lindolf Bell), sem saber para onde caminhar, os "novíssimos" tiveram quem sabe o papel de inaugurar a nossa diversidade pós-utópica, ainda que não tenham garantido seu lugar na história. O importante, porém, não é fazer "inventários culturais". Poemas reunidos também valem como "crônicas do microcosmo' (Cláudio Willer). São revelações de um percurso e de uma época, saudades colhidas numa antologia -- tempos mortos, agora relembrados. O Estado de São Paulo - Caderno 2, 10/2000 |
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