| Futuro
vazio Hilda Hilst compõe uma paisagem árida da velhice. MARIA GONZALES |
| O estilo da prosa da escritora paulista Hilda Hilst, 67 anos, não é para qualquer um. A leitura de Hilda Hilst requer dedicação para que se possa usufruir ao máximo da fantástica qualidade de sua narrativa, que chega agora ao público na sua mais recente versão, Estar sendo. Ter sido (Nankin Editorial, 128 p.). A história básica do livro, no qual a autora mescla à prosa bruta as delicadezas contraditórias de sua virulenta veia poética, mostra um relacionamento familiar. Vittorio é um velho que recorda em detalhes amargos os casos tidos e imaginados ao longo da sua juventude. Um de seus filhos. Júnior, se aborrece com as indecências do pai por nelas ver refletido seu próprio futuro vazio de jovem aprendiz do sexo. E o irmão Matias, personagem ambíguo, alimenta e satisfaz a imaginação de Vittorio. Do melancólico pai, para quem a solidão tem cor -- "roxo escuro e negro" --, talvez se possa dizer melhor citando uma de suas mais desoladas constatações: "Perdi o caminho de dentro de mim mesmo." À espera da morte temida, ele se deixa apaziguar por uma extravagante miscelânea de receitas de drinques e imaginárias tentativas de suicídio, que intercala com cruéis e ridículas situações às quais insiste em se submeter. Os demais personagens, suspensos no espaço que sobra, parecem ter a única função de ajudar a compor a paisagem árida do final de uma vida. Eles mal têm substância, personalidade ou lembranças -- e as poucas que invocam servem meramente como lastro para os tropeços da memória do próprio Vittorio, que nelas se reflete e procura se reafirmar. São elas, as memórias vagas, seu último elo com a realidade entediante da qual procura escapar com seus sonhos de desejo e morte. Situações que, nas tintas sempre fortes da autora, adquirem as cores de um entardecer hiper-realista num deserto ardente. IstoÉ, 14/05/1997 |