Revelando a geração encoberta
Antologia encontra o sentido coletivo possível na solidão dos poetas da década de 60.

JOSÉ CASTELLO

Entre o surgimento da poesia concreta, em 1956, e o despontar da chamada Geração 70, a que se costuma chamar também de "Marginal", toda uma linhagem de poetas, de excelentes poetas, permaneceu quase esquecida. eles formam uma geração, é bem verdade, desprovida daqueles atributos que costumam caracterizar as gerações, isto é, sem dogmas, apegada ao ecletismo e ao pluralismo, fragmentada mesmo, características que, por certo, contribuíram para seu desvanecimento. Quarenta anos depois, um livro vem, enfim, oferecer os instrumentos para delinear seu perfil. É a chamada Geração 60, mas talvez devesse ser chamada, sim, "Geração Encoberta", já que, mesmo sem parar de escrever, sua imagem foi, antes de tudo, recalcada, recolhida numa espécie de limbo poético -- apesar de tantos livros e tantos poemas.
A primeira marca dessa geração parece ser a eqüidistância: do formalismo, que os concretistas transformaram num cárcere; da fé ingênua nos conteúdos, pregada pelos poetas engajados; do descompromisso, almejado pelos poetas marginais. Como os concretistas, os poetas dessa Geração 60 souberam perceber os limites, o desgaste, a impotência em que o século lançou a linguagem; diferentemente daqueles, que preferiram transformar a poesia num jogo, ainda assim não abdicaram da luta profunda com as palavras. Como os poetas engajados, eles se interessaram, desde o início, pela realidade, em particular pela São Paulo que despontava, então, como uma grande metrópole; numa decisão dissonante, porém, não precisaram se apoiar em dogmas, aceitando, ao contrário, a fragilidade e a insuficiência do real. Como os poetas marginais, também eles se interessaram pelas coisas pequenas guardadas nas margens da vida; mas, em vez de nivelar a linguagem com o chão, trataram de fazer da língua um instrumento mais sofisticado , apesar de sempre aquém daquilo que a poesia lhe pede.
Nem sequer se viram como um bando de visionários, como os concretistas, ou como um partido, como os poetas engajados, ou como um grupo de amigos, como os marginais. Cada um deles que se sustentasse sozinho, daí as vozes discrepantes que associaram, sem dissolver, timbres tão distintos como os de Orides Fontela, Carlos Felipe Moisés, Bruno Tolentino, Roberto Piva, Eunice Arruda, Carlos Vogt, Lindolf Bell. Poetas que, agora podemos ver melhor, produziram provavelmente o que de mais espesso a poesia brasileira foi capaz de gerar desde a geração de 45.
Os temas dessa Geração 60 são o vazio ("caminho pela neve / e o mundo principia nesse branco", escreve Carlos Felipe Moisés), a solidão ("precedemos a solidão", diz Lindolf Bell), as sobras ("ir sendo aquilo que resta, diz Carlos Vogt), a fragmentação ("serraram meu coração e puseram um / pedaço menor no bolso muito escuro", escreve Álvaro Alves de Faria), o temor da superfície ("Tudo o mais nele é paisagem", escreve Carlos Soulié do Amaral), o desconhecido ("Toda presença é treva, diz Bruno Tolentino), o nada ("arca na sala vazia / voltada para o mar / guardando / nada", escreve Rodrigo de Haro).
Poetas andarilhos, que preferiram o Mário introvertido ao Oswald de verve feroz, espalharam-se pelas ruas de São Paulo, aceitando topar com os dejetos, as miudezas e as margens da cidade. Talvez por essa soma de atitudes tenham, enfim, composto uma geração encoberta, até porque o século pediu, ao contrário, nitidez, velocidade, decisão, e não esse apego extremo ao fugaz. Lidos em separado, pareciam poetas perdidos. Perdidos continuam, em seu apego à diferença e à liberdade íntima, só que agora há um sentido nessa solidão.

Bravo, n. 39, dez/2000