Luiz Prado/AE
Roberto Piva: personalíssima textura poética.

Uma antologia recomendável até pelos enganos

A Antologia Poética da Geração 60, organizada por Álvaro Alves de Faria e Carlos Felipe Moisés, tem o condão de mostrar que havia vida inteligente e, sobretudo, boa poesia nos subterrâneos das vanguardas.
JOSÉ NÊUMANNE

Dos anos 50 aos 70 foram exercidos dois monopólios tanto na criação quanto na crítica da poesia produzida no Brasil: de um lado, o rigor formal da palavra pela palavra, em que foi transformada (e distorcida) a herança do maior poeta brasileiro (um dos maiores do mundo) de então, João Cabral de Melo Neto; do outro, o experimentalismo das diversas formas de vanguarda, todas querendo se ver livres das cargas semânticas da palavra. A impressão que se tem é que tudo quanto foi produzido à revelia desses movimentos era clandestino, quando não de baixa qualidade. Até que a geração do mimeógrafo tomou fôlego e repôs as coisas em seu devido lugar.
A Antologia Poética da Geração 60, organizada por Álvaro Alves de Faria e Carlos Felipe Moisés, tem o condão de mostrar que havia vida inteligente e, sobretudo, boa poesia nos subterrâneos das vanguardas. O título é enganador, pois na verdade a geração 60 abordada é apenas a dos poetas que nasceram, viviam e produziam em São Paulo naqueles anos em que os Beatles revolucionaram a música e os costumes e os universitários rebeldes armaram barricadas nas ruas de Paris. É bem verdade que alguns expoentes dessa geração não são paulistas de nascimento, caso do catarinense Lindolf Bell, já falecido e ainda um símbolo da turma toda. Outros mudaram-se para o Rio, caso de Neide Archanjo e Bruno Tolentino. Mas mais verdadeiro ainda é o fato de que todos continuam sendo em essência um fenômeno paulistano, que como tal deve ser entendido e proclamado.
O leitor atento deve deixar de lado o equívoco dos organizadores que, na apresentação, dividem a poesia brasileira entre o palanque, o salão e o gabinete. Esse capricho deve ser relevado até porque eles mesmos se encarregam de provar, com um trabalho paciente, criativo e competente, que, de fato há dois tipos de poesia: a ruim, que é majoritária, mas perecível, e a boa, que é pouca, mas resiste ao tempo. Para tanto, desenvolveram um método interessantíssimo de seleção dos poemas a partir das datas da publicação dos poemas escolhidos. Cada parte corresponde a um decênio e graças a esse sistema o leitor interessado terá um bom jeito de acompanhar a evolução cronológica do poeta, o que não ocorre nas antologias comuns, que simplesmente escolhem a esmo algum momento específico e o apresentam como se ele representasse todas as fases da obra em questão.
O método usado pelos organizadores expõe a perseverança da militância e premia o trabalho persistente, deixando ao largo os que se deixaram levar apenas por um impulso romântico qualquer. Ou seja, só sobrevivem a ele os poetas de verdade, aqueles que se apresentam com o dom inato e o burilam ao longo do tempo, fazendo da poesia não entretenimento mas ofício: "esse ofício do verso", como reza o excelente título recente do poeta Jorge Luís Borges.
"Recosto a cabeça na /tarde que /cai", escreveu Eunice Arruda, em "Sugestão" (1960). "Construo um/ pedaço de/ mim/ em cada poema", em "As coisas efêmeras" (1964). "Se corro corro/ o risco de/ chegar // ao mesmo lugar", em "A terra é redonda" (1986). Eunice, que comandou em São Paulo, encontros de poetas com críticos no Centro Cultural São Paulo e na Biblioteca Mário de Andrade, é um bom exemplo dessa incansável militância.
O trabalho de Álvaro Alves de Faria e Carlos Felipe Moisés, também poetas de valor inquestionável, é válido, por recuperar obras que reluziram à época e hoje não parecem tão brilhantes, sendo o caso mais notório o de Lindolf Bell, que era uma espécie de Yevtuchenko paulistano e que definiu bem o espírito da geração nos primeiros versos de um poema de 1962: "Que tribo errante somos dentro da noite/ no colher do limo das franjas da rua". Décio Bar, figura mitológica, a ponto de ter virado referência num romance à clef, chegou a ser profético num verso de um poema ("Súplica") selecionado na Antologia dos Novíssimos, em 1961, e agora nesta: "Sei que não posso ficar". De fato, não ficou. Como ele, muitos não ficaram.
Outros, que marcaram à época, conseguiram firmar nome ao longo dos últimos 40 anos. Caso de Bruno Tolentino e Neide Archanjo. Nos anos 60, Bruno escreveu: "Guardemos juntos/ os acertos - breves /e os enganos - fundos" ("Flautim", 1963). E Neide: "Hoje há um vento posto lá fora que não é o nosso" ("Hoje há um vento", 1964). Nos 90, Bruno foi cáustico: "Recebe como feto que se enterra/ em nosso peito cada vez mais oco" ("Declaração de voto", 1995). E Neide, onírica: "As asas/ mantidas fechadas/ tocavam o chão/ longas emplumadas/ o corpo inatingível" ("Era quimera", 1997).
Entre esses poetas, ao longo dos 40 anos, uma voz se destaca por sua personalíssima textura poética, a de Roberto Piva, cujo poema "Visão de São Paulo à noite" (do mitológico Paranóia, de 1963, oportunamente recém-editado) merece figurar em qualquer antologia da poesia brasileira contemporânea: "Na esquina da rua São Luís uma procissão de mil pessoas acende velas no meu crânio/ há místicos falando bobagens ao coração das viúvas/ e um silêncio de estrela partindo em vagão de luxo". Nada a dever aos melhores momentos da geração beat americana, não é mesmo?
Outro texto mítico da geração de 60 é o poema "No caminho, com Maiakóvski", do livro O Tocador de Atabaque, de Eduardo Alves da Costa. Tão mítico é que tem sido atribuído seja ao poeta russo citado no título, seja a Bertold Brecht, por ter sido citado num estandarte que continha versos do alemão. Não há, contudo, razão para a decisão aparentemente lógica dos organizadores de selecionarem apenas a estrofe mais famosa de um poema longo e ótimo.
Também é difícil encontrar justificativa para as presenças de Jorge Mautner e Orides Fontella como membros da geração de Cláudio Willer, Rodrigo de Haro, Alberto Beuttenmüller, Rubens Jardim, Carlos Soulié do Amaral, Carlos Vogt, e Rubens Rodrigues Torres Filho, entre outros, com a qual só têm em comum a faixa etária.
A absurda inserção de Jorge Mautner parece um contraponto à oportunista adesão de seus amigos tropicalistas baianos à poesia concreta. Tanto isso é verdade que os dois poemas de Mautner selecionados para a antologia, "Perfuro o vento da escuridão" e "A tua ausência", são de um livro, Poesias de Amor e de Morte, publicado em 1981 e certamente foi selecionado pela grife do autor, nunca pelas escassas qualidades literárias de versos como os seguintes: "Toca teu samba, toca/ e tortura meu ser com prazer de ser".
Essas nunca faltaram a Orides Fontela, mas nem por isso sua presença pode ser justificada. Ao contrário, a encorpada voz poética da seca, econômica e cortante poetisa era tão solitária e tão singular no panorama poético brasileiro e paulistano que chega a ser uma heresia incluí-la em qualquer grupo ou mesmo em qualquer geração. O primeiro poema dela no livro ("Arabesco") veio a lume no último ano dos 60. Ele, como os 13 restantes de sua lavra, merece figurar em qualquer antologia que se faça, menos na de uma geração, ao qual ela nunca foi ligada.
É claro que a poesia de Orides Fontela permanece de excelente qualidade mesmo quando deslocada, como denotam os últimos versos de "Balada" (de Teia, 1996): "podemos morrer/ inocentemente // - e os anjos são/ livres/ até da inocência". Isso mostra que até mesmo os enganos cometidos pelos organizadores da Antologia Poética da Geração 60 recomendam sua leitura.

Jornal da Tarde, Caderno de Sábado, 20/01/2000