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Hilst, 69, pára de escrever: 'Está tudo lá' "São tantos livros, fiz tudo o que pude fazer", diz escritora, cuja adaptação do romance 'O Caderno Rosa de Lori Lamby', dirigida por Bete Coelho, está em cartaz em SP. MARILENE FELINTO |
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| Hilda Hilst não escreve mais. A personalidade mais dionisíaca da literatura brasileira dá por encerrada sua missão na Terra, planeta em que não sabe por que nasceu."São tantos livros, 40 livros, eu fiz tudo o que pude fazer", ela disse à Folha em Campinas (SP), no sítio onde vive e também onde falou sobre a adaptação para o palco de seu romance O Caderno Rosa de Lori Lamby, atualmente em cartaz em São Paulo. Obcecada pela lembrança do pai -- o poeta e fazendeiro paulista Apolonio de Almeida Prado Hilst, que enlouqueceu aos 38 anos, quando Hilda era menina --, pelo sexo, pela beleza e loucura, ela escreveu uma espécie de "Kama Sutra" existencial ao longo de meio século de literatura. Estreou em 1950, com o volume de poemas Presságio. De lá para cá, sua obra alternou momentos bons e regulares, transitando pelos três gêneros literários. Seus melhores textos como prosadora estão nas narrativas cujo tema são o sexo, o corpo, o gozo. É o que se verifica desde A Obscena Senhora D (82) ou Matamoros (86) à trilogia de fundo erótico que popularizou o nome da escritora: Contos D'Escárnio -- Textos Grotescos, Cartas de Um Sedutor e O Caderno Rosa de Lori Lamby (90-91).Parte da prosa de Hilst se perde, no entanto, em herméticos exercícios de experimentalismo. É o caso das novelas Qadós, Fluxofloema ou Axelrod. A escritora atribui o hermetismo ao ponto e vírgula. "A nossa língua tem isso de latim e grego, não é?", comenta. "Se a gente muda uma vírgula, já fica tudo atrapalhado, a pessoa já não entende. Parece que tem a ver com a minha pontuação. Como eu nunca uso ponto e vírgula, não faço aquelas coisas formais, as pessoas têm dificuldade de ler." As freqüentes montagens teatrais de sua prosa não confirmam, porém, a dificuldade. É o caso de Cartas de Um Sedutor (montada em 95 por Marcus Vinícius de Arruda Camargo) e A Obscena Senhora D (94, montagem de Vera Fajardo). Fisicamente abatida, Hilda Hilst ainda fuma e bebe "vinho do Porto, todo dia". Teve vida intensa na sua juventude de moça rica e avançada para os padrões da época e de sua classe social." Dizem que a minha literatura é muito obscena. Aí eu já falo para a pessoa: 'Obscenos são teus amigos' e tal, e começo a ser bem desagradável, porque eu posso ser muito desagradável", informa. Monólogo tem Iara Jamra A peça O Caderno Rosa de Lori Lamby, adaptada por Reinaldo Moraes de um romance de Hilda Hilst, permanece em cartaz em São Paulo até o dia 1º de agosto (de 1999). Neste monólogo, dirigido por Bete Coelho, a atriz Iara Jamra interpreta uma menina de 8 anos que escreve em um caderninho rosa suas fantasias sexuais. 'Quando alguém me entende, fico besta' Leia, a seguir, a entrevista dada à Folha por Hilda Hilst. (MF) Folha - Você não vai sentir falta de escrever? Hilda Hilst - Não, agora eu só quero ler os autores de que eu gosto. E eu acho importante que me leiam. Me conhecer é besteira. Não precisa, não é? Está tudo lá, já escrito. Até o dono da editora Gallimard diz que não entende como é que compram tanto o Paulo Coelho e não me compram. Folha - Mesmo com Lori Lamby no palco, você acha que sua literatura não faz sucesso? Hilst - Eu fico besta. Ninguém me lê, nesses quase 50 anos foi assim, e me descobriram só agora, que estou quase morrendo. Eu ouço dizer muito que as pessoas não me entendem, e quando alguém me entende eu fico besta, porque não sei como é que é escrever compreensivelmente. Acho que você também não sabe, não é? Porque você também tem uma prosa muito bonita. Folha - Obrigada. Mas você já viu outros textos seus no palco? Hilst - (Pede que lhe acendam o cigarro, porque a mão treme.) Eu vi há muitos anos O Verdugo. A montagem foi em 73, e gostei muito. Depois teve também As Aves da Noite, a que eu também assisti e foi montada pela Rosa Maria Murtinho. Mas nunca deu certo o meu teatro. Folha - Você começou na poesia. Por que a mudança para o teatro? Hilst - Meu interesse pelo teatro começou na época da ditadura. Alguém inventou que eu era uma comunista roxa. A polícia foi na casa da minha mãe e queimou todos os meus livros. Era uma coisa muito premente que eu estava sentindo e queria me comunicar mesmo com as pessoas. Folha - A poesia não dava conta? Hilst - Não dava. Porque não era uma poesia panfletária. Eu queria muito ser encenada, para mandar o meu recado. Folha - Qual a diferença entre ser encenada nos anos 70 e hoje? Hilst - Agora eu acho engraçado. Naquela época era muito importante para todos nós, eu tinha muita necessidade. Agora, não sei bem, parece que eles têm muito interesse assim pela brincadeira, não é? Apesar de que as minhas peças nunca tiveram uma coisa muito engraçada, para você rir demais. A Lori Lamby se comporta como uma mulher que compreende a sexualidade infantil. Então, o que ela fala é importante.Folha - Por que escrever nos três gêneros? Hilst - Quando acabou a ditadura e quando percebi que o meu teatro demorava muito para acontecer e vi que não tinha conseguido atingir o que eu queria com o teatro, fui tentar a prosa.Mas o sentimento em relação aos gêneros é diferente. A poesia é um dom divino, uma febre física. É uma espécie de êxtase que vem de repente e acaba também de repente. A prosa não, eu tenho de trabalhar mais, é difícil. Eu queria era ter escrito um romance assim certinho, com história e tudo. Folha - Por que a predileção pelo tema do sexo? Hilst - Olha, já me perguntaram por que eu tinha sempre homens ou muito bonitos ou ricos. Folha - Os personagens? Hilst - Não, os homens da minha vida. (Mostra fotos do pai e dos homens com quem se relacionou.) Eram lindos. Porque era verdade mesmo. São os atributos da divindade. Mas eu tinha uma atração pela loucura também, eu achava deslumbrante ser louco, porque se o meu pai era louco... Esse que eu admirava tanto, era lindo e louco. A vida toda me repetiam que meu pai era brilhante. Ainda hoje as pessoas que lêem o Apolonio acham ele deslumbrante. Desde pequena eu sabia que ele era ele. Cresci com essa imagem. Então, o único homem mesmo que eu amei na minha vida foi meu pai. Fiquei procurando sem parar um homem parecido com ele. Folha - Você se casou? Hilst - Uma vez só. Com Dante Casarini, mas esse homem me conheceu muito jovem. Não era um casamento assim fechado. Eu transava com quem eu queria e ele também. Meus relacionamentos acabavam logo. Eu achava gostoso fazer amor com o cara, lindo. O negócio da beleza era fundamental, como o Vinicius falava. Mas depois acabava. Eu sentia um tédio mortal e terminava tudo depois de um ano, dois. Folha - Não se sentia triste ou só? Hilst - Não. Eu nunca levei sexo muito a sério assim. Eu achava um divertimento. Queria que fosse uma coisa alegre, surpreendente. Agora mesmo eu estou há vinte anos sem sexo e acho bom, porque esqueci de vez. Mas outro dia tinha um amigo meu tomando banho aqui em casa. Eu entrei no banheiro inopinadamente e vi o pau dele. Fiquei olhando e disse: "Mas tudo por causa disso!", e comecei a rir. Ri tanto que tive de ser hospitalizada (gargalha). Folha - Você tem filhos? Hilst - Eu não quis ter filhos porque tive medo dessa segunda geração. Conversei com o médico do meu pai e ele disse que se eu tivesse um filho, podia nascer esquizofrênico. Ia nascer um coco. Folha - Numa entrevista em 1949, você disse que o homem tem de ser psicologicamente mais forte do que a mulher e que a emancipação feminina é uma balela. Hilst - Não só psicologicamente. Eu também gostava do macho mesmo, daqueles do tipo Ceasa, sabe? Eu tive um homem, o João Ricardo, que já era lindo, deslumbrante e ainda fazia boxe, eu achava o máximo. Não dá para ser submissa diante de uma besta quadrada. Eu nunca tive interesse por nenhum homem molengão. Tinha de ter as duas coisas juntas, ser ao mesmo tempo brilhante e também um macho visível. E eu nunca consegui ter uma relação com uma mulher. Fui muito cantada por mulheres também. Mas eu vejo uma vagina, tenho horror, medo da gruta escura lá dentro. Folha - Você queria ter nascido em outra época? Hilst - Não sei. Acho que nasci no país errado. Ou no planeta errado. Mas eu tive uma vida muito feliz nesse sentido de independência. Sempre tive dinheiro. A minha mãe tinha uma vida excelente. E eu nunca me reprimi. Agora, eu fui chamada de puta muitas vezes pelas meninas grã-finas. Eu podia ser conceituada como grã-fina também, pela minha classe social, mas minhas amigas me perguntavam: por que você faz sempre a prostituta? Uma vez um homem me deu de presente um Mercedes-Benz, e elas: "Para que aceitar um carro de um homem? Por que você não pode ter um homem normal?" Eu não entendia o que elas queriam dizer com aquilo de eu devolver o carro. Como é que eu ia devolver o Mercedes, se o cara mandou de graça para mim? Folha de São Paulo, Ilustrada, 12/07/1999 |