Vida, morte, loucura. Deus, sexo, envelhecimento. Com os temas e a força
de sempre, a escritora Hilda Hilst está de volta. Estar Sendo.
Ter Sido, seu 30º livro em 47 anos de carreira, está chegando
às livrarias e marca a estréia de uma nova editora, a Nankin.
Aos 65 anos, Vittorio, o personagem principal do livro, faz um balanço
de sua vida e se diverte imaginando loucas receitas de drinques e de maneiras
de se suicidar.
Como a escritora, que na próxima segunda-feira completa 67 anos,
Vittorio vê a vida preferencialmente pela ótica do escárnio
e do humor negro, alternando momentos de profunda amargura com instantes
de graça e felicidade.
''As coisas são sempre as mesmas. Se ainda tivesse um cadáver
por aqui, talvez o dia de hoje sorrise se achássemos um cadáver
por aqui'', observa Vittorio, na página de abertura da narrativa.
Tábua etrusca
Vivendo desde a década de 50 isolada na Casa do Sol, uma chácara
a 11 km de Campinas, Hilda Hilst enfrenta há anos o drama da falta
de reconhecimento.
''Fiquei marcada como uma escritora difícil, medonha de difícil.
Imagine que uma crítica, que não entendia nada do que eu escrevia,
chegou a dizer que eu era uma tábua etrusca'', conta, rindo.
Como se julga incompreendida pela crítica e não é lida
pelo grande público, a escritora perdeu totalmente o pudor de julgar,
ela mesma, a sua própria obra.
''Eu fiz um excelente trabalho, de primeira qualidade. Sou meio megalômana,
mesmo. Não entendo nada de teoria literária, mas sinto que
o que escrevo é bom. Desde o início, eu sentia que ia ser
um grande poeta'', diz.
A irritação com a falta de sucesso levou Hilda Hilst a um
gesto radical. Em 1990, ela publicou O Caderno Rosa de Lori Lambi,
um livro abertamente pornográfico. No embalo, em 91, lançou
outros dois eróticos, Contos d'Escárnio e Cartas
de um Sedutor.
A trilogia fez barulho. Os amigos chegaram a ficar preocupados, os críticos
torceram o nariz, mas o fato é que os repórteres finalmente
fizeram fila à porta de sua casa.
Para felicidade de Hilda Hilst, a repercussão da trilogia erótica
alcançou a França. Em 94, uma tradução de Contos
d'Escárnio (Contes Sarcastiques) foi publicada com o selo
da L'Arpenteur, uma divisão da mítica Gallimard.
Como uma coisa puxa a outra, um repórter do jornal francês
''Libération'' foi entrevistá-la em sua casa. ''Fiquei besta
quando o Mathieu Lindon, do 'Libération', veio aqui. Perguntei: 'O
sr. veio aqui só para me ver?' E ele: 'Parfaitement, madame'. Fiquei
besta. Porque ninguém me lê mesmo''.
'Não entendo nada
de teoria, mas sinto que o que eu escrevo é bom, de primeira'
No ano passado, Hilda Hilst
voltou a sorrir. Saiu na França uma tradução de A
Obscena Senhora D, feita por Maryvonne Lapouge, a mesma que verteu
''Grande Sertão: Veredas'', de Guimarães Rosa.
Mas a felicidade da escritora é volátil. Ela teme, no futuro,
ser reconhecida apenas como uma pornógrafa -- ''como Bocage, que
foi deslumbrante e só lembram do Bocage sacana''.
Depois da trilogia erótica, Hilda Hilst publicou a narrativa ''Rútilo
Nada'' (prêmio Jabuti, em 93) e os poemas ''Cantares do Sem Nome
e de Partidas'' (95).
Agora, Estar Sendo. Ter Sido, no qual o personagem Vittorio revela
que jamais poderia se matar com um tiro na têmpora. Porque treme.
''Os que têm Parkinson evitem essa solução'', ele
diz.
Suicídio, Modo de Usar
''Estudei muito esse livro, Suicídio, Modo de Usar. Sou
tão goiaba para essas coisas. Acho que não é mesmo
para me matar. Tenho medo do tiro e daria muito trabalho tomar 30 comprimidos'',
conta Hilda, com naturalidade.
''Este novo livro ('Estar Sendo. Ter Sido') tem a ver com a luta contra
tudo, a loucura, o medo da loucura... Quando você fica realmente
louca, você se afasta totalmente da criatividade. Nunca me passou
pela cabeça que estou louca'', diz a escritora.
A loucura é um tema com o qual ela convive desde a infância.
Seu pai, o poeta Apolônio de Almeida Prado Hilst, ''começou
a fazer coisas esquisitas aos 36 anos'' e foi internado num sanatório,
onde morreu, aos 69 anos.
''Meu pai era um homem lindo, e vi esse homem lindo completamente louco''.
Hilda Hilst adora falar do pai. ''Dizem que tenho esse nome, Hilda, por
causa de uma mulher que se apaixonou perdidamente por ele e se matou''.
Também conta que o pai, irritado ao saber da gravidez da mulher,
Bedecilda, se isolou numa fazenda da família, no interior de São
Paulo. Ao ser informado de que a criança que nascera era uma menina
(Hilda), disse: ''Que azar''.
''Ele era ótimo, muito irônico. Claro que é um azar
ter uma filha. Ele era tão divertido, cheio de humor'', diz Hilda.
"Quero ir para Marduk, onde moram Einstein e Julio Verne. Há fotos
vindas de lá"
Depois de quase três anos trabalhando no texto de ''Estar Sendo.
Ter Sido'', Hilda agora quer se dedicar a leituras e a um velho projeto,
a transformação da casa onde vive numa fundação
para estudos de fenômenos psíquicos.
A escritora se diz convencida de que ''a imortalidade foi descoberta''.
Empolga-se quando fala do assunto: ''Nunca acreditei que fosse só
isso: nascimento, vida, morte e apodrecimento''.
Hilda conta que vem se informando sobre o tema por meio de leituras heterodoxas,
sobre espiritismo e coisas do gênero. Aparentando muita segurança,
discursa sobre Marduk, um suposto planeta, ''fora do espaço e do
tempo'', onde se pratica a imortalidade.
''Julio Verne mora em Marduk. Einstein também. Quero demais ir
para lá. Eles estão mandando fotografias de Marduk, das
casas ondem moram. Julio Verne manda as fotos pelo fax, desligado'', diz.
''Não tenho medo de falar essas coisas. Já me chamaram de
tantas coisas, que sou louca varrida... Não me importo se agora
me chamarem de louca, de prostituta, do que quiserem''.
Poemas de partida
Outro assunto que Hilda Hilst adora é poesia. Ela ganhou recentemente
o título de cidadã campineira e decidiu que, na festa de
entrega da homenagem, lerá um poema, que começa assim: ''Como
se te perdesse, assim te quero''.
"Sempre que você está indo embora, não falo necessariamente
de morrer, você pode ficar no coração do outro. Quando
você usufrui do outro completamente, e o outro de você, a
coisa acaba sendo esquecida. É melhor ficar o desejo, sempre'',
filosofa.
Hilda Hilst conversou muito sobre poesia com Carlos Drummond de Andrade
(1902-1987). Em 1952, Drummond dedicou a Hilda um poema insinuante, no
qual diz: ''Esclareçamos o assunto:/ Nada de beijo postal./ No
Distrito Federal,/ o beijo é na boca -- e junto.''
Hilda assegura que esse beijo jamais foi dado. ''Drummond tinha uma doçura
muito especial e uma timidez que constrangia o outro. Ele só falava
por metáforas. Nunca namoramos. Ele passeava comigo na calçada
de Copacabana''.
'Sempre que você está indo embora, você pode ficar
no coração do outro'
Numa das últimas vezes que se encontraram, em meados dos anos 70,
Hilda havia acabado de publicar os poemas de Júbilo, Memória,
Noviciado da Paixão, e Drummmond disse: ''Você não
dormiu com esse cara. Os poemas estão tão bons que eu sei
que você não dormiu com ele''. ''É verdade'', respondeu
Hilda.
Folha
de São Paulo, Ilustrada, 16/05/1997
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