Hilda percorre o caminho da imortalidade
A escritora, que não pára de pensar nos porquês da vida e da morte, acaba de publicar Estar Sendo. Ter Sido, que ela considera o seu texto mais difícil, e outras duas novelas na França.

LUÍZA MENDES FURIA

O livro termina assim: "A buça negra vem vindo. Punhal. Velhice. Adaga. Ela se esgarça lassa. Morte. Amada." A exemplo de seu personagem Vittorio, Hilda Hilst não pára de pensar ( e escrever) sobre "isso de vida e morte, esses porquês". "Pensar é uma coisa jubilosa para mim", revela. Por trás desse pensar, desses porquês, o que há, mais do que paixão, é o amor por todos os seres vivos, animais ou vegetais. Na medida em que a = prefixo de negação e mors = morte, o amor é a negação da morte.
A preocupação com o sentido da existência de todos os seres vivos, o desejo de permanecer, a imortalidade, aliás, percorre toda a vida e obra dessa escritora, que acaba de publicar Estar Sendo. Ter Sido no Brasil pela Nankin e L’Obscéne Madame D. suivi de Le Chien (A Obscena Sra. D. seguido por com os meus Olhos de Cão), pela Gallimard, na França. E já estava presente em seu segundo livro, Balada de Alzira (1951), que ela abre com os versos "Somos iguais à morte/ Ignorados e puros." O que levou a já então consagrada poetisa Cecília Meireles a enviar-lhe uma carta, escrita em fino papel azul, em que diz: "Quem disse isso não precisa dizer mais."
Estar Sendo. Ter Sido, obra que inaugura a Nankin Editorial, traz as amargas reflexões de um homem "de mil máscaras", cínico, deboxado, por vezes delicado e lírico, que quer estar só para encontrar-se antes de morrer, com o deus que habita dentro de si. Um escritor de 65 anos, um perguntador como Qadós e Hillé, a Sra. D., outros personagens amados da autora, de 67 anos, quase 50 dedicados à literatura.
Sua obra, aliás, pode ser vista como um único livro, "umasómúltiplamatéria" no dizer da escritora. Tanto que, meste Estar Sendo. Ter Sido, personagens de outros livros são evocados como figuras vivas, permanentes.
A própria obra evoca a permanência, ao representar a morte como o desenho de um octaedro dentro de um círculo, já que o círculo é, entre outras coisas, signo da unidade de princípio, da totalidade, da eternidade, e o octaedro, nada menos que a ressurreição, a vida eterna que se atinge. "Hás de viver um tempo, morte minha/ Como se fosse o tempo de viver./ E caratonhas, fogos-fátuos, foices / Hão de reverdecer em azul e ocre/ E banhado de luz volto a nascer", diz Vittorio, num poema. Para concluir: "E mais o sangue em nossos corpos/ Só luz, entropia, e o riso deslavado/ De não ser".
Há alguns anos Hilda provocou enorme alvoroço com a publicação de uma trilogia erótica --O Caderno Rosa de Lori Lamby, Contos Grotescos / Textos d’Escárnio e Cartas de um Sedutor. Teve a belíssima novela Rútilo Nada e o volume de poemas Cantares do Sem Nome e de Partidas praticamente ignoradas pela crítica. Volta agora com um densíssimo e, como sempre, altamente simbólico, que ela considera "o mais difícil" de sua obra, para mais uma vez encantar os leitores com sua prosa acima de tudo poética e, apesar de essencialmente filosófica, não destituída de um humor inconfundível.

O Estado de São Paulo, Caderno 2, 31/05/1997