Hilda Hilst passa ao largo das indicações que a apontam, com
frequência cada vez maior, como referência importante na literatura
brasileira. Hilda está absorvida, neste momento, em ajustar uma peça
importante de seu quebra-cabeça pessoal.
Dois livros seus -- uma edição bilíngue de poemas escritos
em 1980 (Da Morte. Odes Mínimas) e outra de crônicas
publicadas em jornal (Cascos e Carícias) -- estão sendo
lançados este mês, em São Paulo.
Mas sua literatura, que a monopolizou "por 30 anos consecutivos e outros
tantos", está cada vez mais distante de seu horizonte -- "Leio muito,
mas desisti de escrever, já foi demais" --, e são as circunstâncias
de sua vida que a fazem entrever os contornos de um quadro cujo tema não
domina totalmente, mas que a assusta.
"É tudo um mistério: eu fui linda, rica, tive uma vida deslumbrante,
namoros, viagens..., mas agora parece que cagou tudo", diz ela, às
voltas com um processo da prefeitura de Campinas, por falta de pagamento
do IPTU de sua propriedade, a 11 km da cidade.
"Em pouco tempo a dívida passou de R$ 68 mil para R$ 140 mil ou mais,
e dizem que em junho vai tudo a leilão, coisas vendidas por uma bagatela.
Eu não tenho medo de morrer na miséria, acho que não
é o meu carma; mas os bichos me preocupam", diz, referindo-se a seus
70 cães.
"A situação com a prefeitura não permite que eu tenha
a escritura definitiva das terras, e ao mesmo tempo elas não são
aceitas em pagamento da dívida. Não parece coisa de Kafka?",
indaga Hilda, que anda hipersensibilizada pela "doença" (hipertensão,
problemas respiratórios e hepáticos).
Ela se interrompe com frequência para tossir, e seu peito "ronca"
audivelmente, às vezes por minutos. Mas continua consumindo diariamente
mais de dois maços de cigarros e se automedica, ingerindo dezenas
de cálices de vinho do Porto, a partir das 11h.
"E à noite bebo só 'uns três' uísques. Marguerite
Duras bebia muito mais; eu sou comportadíssima perto dela", acredita.
Aos 68 anos, embora queixando-se de certa paralisia facial, sequela de uma
isquemia recente, a beleza de seu rosto é indelével.
A queixa maior, recorrente em sua fala, é outra, a mesma de muitos
anos: ninguém a lê, e os livros nunca deram dinheiro -- o último,
Estar Sendo. Ter Sido (ed. Nankin, maio de 97) vendeu apenas 1.600
exemplares até hoje.
No entanto, o interesse por sua literatura no exterior não pára
de crescer, principalmente a partir dos títulos associados à
pornografia, estratégia de conquista de público inaugurada
em 1990 -- na verdade, o registro é o mesmo de toda sua prosa anterior.
No Brasil, não deu muito certo. Na Europa, depois de duas traduções
para o francês, pela editora Gallimard, e uma para o italiano (O
Caderno Rosa de Lori Lamby, editora Sonzogno), seu A Obscena Senhora
D está sendo vertido para o alemão. E Rútilo
Nada ganhou versão em inglês, nos EUA. Mas as vendas não
decolaram, e ela recebeu até hoje somente US$ 800, dos franceses.
Há alguns meses, Hilda chegou a oferecer à Cia. das Letras,
por R$ 70 mil, os direitos de toda a sua obra --17 volumes de poesia, 11
de prosa e oito peças de teatro inéditas em livro. Não
houve interesse.
Mas foi o interesse do leitor de língua francesa por Hilda (na Europa
e Canadá), que motivou a pequena editora Nankin a publicar agora
Da Morte. Odes Mínimas (1980) em edição bilíngue,
além de uma seleção de crônicas escritas entre
92 e 95 para o jornal "Correio Popular", de Campinas (apenas em português).
Também no teatro, a prosa da escritora é freqüentemente
adaptada: "Volúpia", da encenadora Ana Kfouri, é exemplo recente.
A autora não mostra entusiasmo por nada disso. Prazer mesmo ela deixa
patente ao ouvir a pornografia culta de seus poemas de Bufólicas
(1992, ed. Massao Ohno) recitada pelo repórter, a seu pedido.
ENTREVISTA
Megalomania -- "Ninguém me
leu, mas eu fui até o fim, fiz o trabalho. A gente tem de acreditar
em si mesma. Eu sei que sou o maior poeta do país, não tem
importância me chamarem de megalômana. Escrevi de um jeito
que ninguém escreveu. Foi a única coisa que eu soube fazer
na vida."
Honrarias -- "Me convidaram, mas eu
não fui à Feira do Livro de Paris, eu não aguento.
A gente envelhece e as coisas ficam desimportantes. Honrarias... tudo
uma besteira. Eu já fui a Paris. Foi há cem anos: eu era
jovem e namorava loucamente. Agora, velhinha, fazer o quê em Paris?"
Ânus intelectual -- "'Quelle
époque, mon Dieu', me disse o cara da Gallimard, 'Quase ninguém
compra a Hilda Hilst, e todo mundo compra o Paulo Coelho.' Pois é,
ninguém lê mais, nem os franceses. Disseram que 'A Senhora
D' ficaria difícil demais em francês. Eu respondi que em
copta também ficaria, em sânscrito... Eu mesma, quando escrevo
'cu', ninguém entende o meu 'cu'. O Anatol (Rosenfeld) me disse
uma vez que o meu 'cu' era muito intelectual. E a Gallimard escreveu que
eu transformava pornografia em arte. Aí ninguém leu mesmo."
Teatro -- "Todo o meu teatro é
uma coisa que ninguém entendeu. O D'Aversa (Alberto, teatrólogo)
fez uma leitura de 'Aves da Noite'. Passou uma mulher e disse: 'É
poético demais'. Eu respondi como o Novalis: 'Quanto mais poético,
mais verdadeiro'. Escrevi sobre nazismo, associando-o a ditadura. Era
um estado de emergência. Eu tinha pressa de dar o meu recado, de
pôr no palco."
Livro grosso -- "Precisa ter humor
para escrever. Eu escrevi demais na minha vida, tentei tudo para ser lida.
Diziam que Ficções era grosso demais e Com Meus
Olhos de Cão também. Parece que americano é que
gosta de livro grosso, porque não cai da estante."
Animais -- "Tenho uma identificação
muito grande com os animais, até me acho uma cachorra abandonada,
meio sobre a leprosa. Não tenho nada a ver com a Terra. Eu sinto
que não nasci, foi alguma coisa que aconteceu me condenando a ficar
aqui. Normalmente, não tenho quase nada para falar com as pessoas.
Os empregados não me entendem, é como se eu fosse um animal.
No Tibete tem uma deusa porca: parece que eles compreendem esse outro
lado."
Bordel geriátrico -- "Eu falei
várias vezes para a Lygia (Fagundes Telles) que eu queria fazer
um bordel geriátrico aqui, chamando também a Nélida
Piñon. É uma coisa bem inventiva, porque tem tara para tudo.
Eu ficaria no caixa, com as luvas longas, e a Lygia trabalharia. Mas ela
ficou zangada comigo. O Caio (Fernando Abreu), que morou aqui, criou um
slogan: 'Venham conhecer Hilda, a fera de Buchenwald; tragam sus hijos
a la sexualidad y amor de Nélida Piñon'."
Poesia
tem coerência sem igual
Hilda Hilst não sairá de Campinas para o lançamento,
em São Paulo, em meados deste mês, de seus novos livros.
Ou "quase novos", já que os textos não são rigorosamente
inéditos, e ela afirma não estar escrevendo há mais
de um ano.
Os volumes, editados pela Nankin Editorial, são Da Morte. Odes
Mínimas (1980), poemas quase sem circulação anterior
e reeditados agora de forma bilíngue (português e francês),
com distribuição já acertada na França e Canadá;
e Cascos e Carícias, seleção de crônicas
publicadas no jornal "Correio Popular", de Campinas, entre 92 e 95.
As obras da poeta e ficcionista já foram trabalhadas por 17 editores
até hoje, com predominância do "free-lancer" Massao Ohno.
De 1950 a 1992, a poesia de Hilda desenha um arco de coerência e
inspiração sem igual em qualquer outro autor vivo no Brasil.
Ela tem, sim, o direito de ser "megalomaníaca" ao classificar sua
própria obra, como prova qualquer estrofe colhida ao acaso em Da
Morte: "Porque conheço dos humanos/ Cara, Crueza/ Te batizo
Ventura/ Rosto de Ninguém/ Morte-Ventura/ Quando é que vem?".
A tradução de Álvaro Faleiros para o francês
é absolutamente literal, e ao menos correta.
Quanto às crônicas de Cascos e Carícias, que
provocaram bastante escândalo junto a seus primeiros leitores, é
no mínimo um desperdício que ela tenha parado de produzir
esse gênero, pois o conjunto resultou superior a seu último
livro de ficção, Estar Sendo. Ter Sido (1997), obra
sem limpidez, coalhada de autocitações, à maneira
de um "Requiem".
Exercitando mais do que nunca sua veia de provocadora profissional --
um José Simão que frequentou a Sorbonne --, nas crônicas
Hilda é capaz de fazer a delícia do leitor esclarecido,
sabedor de que blasfêmia pode ser técnica para se acercar
de que um palavrão articulado numa construção elaborada
não tem substitutivo.
As crônicas são impagáveis, e Hilda deveria ser regiamente
paga para continuar a fazê-las, mesmo quando suas opiniões
políticas se circunscrevem ao óbvio, ou quando suas provocações
existenciais beiram o insuportável.
Folha
de São Paulo, Ilustrada, 03/06/1998
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