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Hilda e seus personagens
não param de pensar LUÍZA MENDES FURIA | |
| A paixão, que permeia todos os escritos de Hilda Hilst, e sua linguagem rica, telúrica, visceral, inovadora, não são apenas um privilégio dos brasileiros. Além do recente L'Obscene Madame D, a Gallimard já publicou Contos Grotescos/Textos d'Escárnio, sob o título Contes Sarcastiques (Fragments Érotiques), ambos traduzidos por Maryvonne Lapouge-Petorelli. E o grupo editorial Fabri, Sonzogno, Bompiani editou na Itália, em 1992, Il Quaderno Rosa di Lori Lamby. Além disso, no Dia da Mulher, ela teve poemas lidos no Canadá, num recital chamado Le Féminin du Feu, no teatro La Petite Licorne, em Quebec, ao lado de escritoras como Safo, Juana Ines de la Cruz, Gabriela Mistral, Marguerite Yourcenar e Joyce Mansour. Ao som de violão e violoncelo, o espetáculo foi apresentado por três mulheres integrantes do Le Sombre Interprete, grupo de poesia cênica, e um índio guatemalteco radicado há oito anos no Canadá, Iqi Balan, que foi quem leu os poemas de Hilda. A escritora, que se retirou da movimentadíssima vida social que levava em São Paulo, na década de 60, para a Casa do Sol, que mandou construir na fazenda de sua mãe, em Campinas, dedica seu tempo, atualmente, a leituras, especialmente sobre física, empenhada em compreender cada vez mais a natureza do universo e em sua incansável busca de pistas de uma possível imortalidade do ser humano. Tanto que se prepara para tentar estabelecer comunicação, por meio do telefone, com pessoas que já morreram e se diz que habitam agora um planeta chamado Marduk, de onde vêm fazendo contatos com pessoas de vários países. Esses contatos são descritos (e documentados com telefotos) no livro Transcomunicação Instrumental, de Sonia Rinaldi, que Hilda recomenda aos leitores, "principalmente os da terceira idade". Sem medo de ser mais uma vez tachada de "louca", ela retoma as polêmicas experiências que desenvolveu na década de 70, quando, com base nos experimentos do músico suíço Friedrich Jurgensson, dedicou vários anos a gravar vozes do além por meio das ondas do rádio. Cercada de muitas árvores, pássaros, cachorros (cerca de 60), livros, em sua Casa do Sol, Hilda recebeu o Estado, num dia muito ensolarado, para esta entrevista. Estado - Quem é Vittorio? Hilda - É um ser que se pensa desesperadamente. No fundo, tudo o que ele quer é ficar sozinho para encontrar-se com o deus que mora dentro dele. Mas só quando terminei é que eu vi que o Vittorio é cínico, mente demais para poder ficar sozinho. Para ficar assim só, ele pede a Alessandro, e o paga, para ficar com sua mulher, Hermínia. Mas eu fiquei boba quando descobri, quando me veio, depois de reler pela segunda vez o livro, que o Alessandro, na verdade, é um filho bastardo dele. Ele protege o Alessandro o tempo todo, tanto que deu a Hermínia para ele, o ensinou a ler Petrarca, deu o dinheiro todo para ele... Estado - E o que ele pretendia com isso? Hilda - Vittorio fez isso porque queria se pensar. Em muitos autores, Heiddeger, Hegel e outros, há essa indagação sobre se o pensar não é agir. Na verdade, quem pensa está fazendo o mais importante, uma ação tripla de tudo. É mais difícil do que agir, talvez. É um esforço muito grande. Ele conversa com ele mesmo, com todos e ao mesmo tempo usa mil máscaras. Tem uma coisa da ação muito contundente, do pensar. Por isso é que eu exultei quando encontrei a frase "Denken ist schwer" ("Pensar é difícil"), do James Ward, para terminar o livro. Pensei: "Que bom! Mas quem é este James Ward?" Eu não sabia quem era... Estado - E quem é? Hilda - Também não sei (risos), mas eu li isso em algum lugar e anotei. E depois pensei em pôr a frase no fim, porque esse homem (o Vittorio) não pára de pensar. Estado - Pensar é difícil? Hilda - Nesses textos que a gente lê, sempre associam "denken" (pensar) com "danken" (agradecer). O pensar é uma coisa jubilosa, para mim, e pode ser terrível também, mas resulta em júbilo. Veja que em alemão as palavras são parecidas. E em inglês também. Estado - Como seus outros textos, Estar Sendo/Ter Sido é altamente simbólico. Até as cores significam algo. Nas primeiras páginas, por exemplo, predominam o amarelo e seus derivados. Há ouro e ovo. O amarelo é a cor da pele da Terra, a das pessoas mortas... Hilda - O meu amarelo é o laranja, eu gosto muito. Mas para mim, ao contrário, ele é um sinônimo de vida. Os girassóis, o sol. Tenho amor pelo amarelo, pelo laranja e até pelo vermelho às vezes. Estado - O amarelo é também a cor da máscara que os atores do teatro de Pequim usam para representar o cinismo, a dissimulação... Hilda - Olha, que incrível! Porque o Vittorio é muito dissimulado... Estado - Como é que surgiu a idéia do livro? Algo a levou a esse personagem? Hilda - Não me lembro dos começos. Comecei, de repente, a escrever. Por exemplo, na poesia há sempre aquela dificuldade de você saber como é que acontece, mas na prosa é mais uma disciplina. Um dia eu fiz a primeira página do Vittorio. Achei-a interessante e perguntei: "Meu Deus, quem será esse cara, falando umas coisas desagradáveis logo de cara?" E aí me interessei por ele. E reparei que todos os meus personagens, os últimos, o Stamatius, o Crasso, são todos grandes fornicadores, e o Vittorio também. Ele agora está velho, então está mais abalado... Mas não é só sobre o estar velho. Há momentos muito engraçados. Estado - Por que você ambienta a história no litoral? Hilda - Tem tudo a ver com uma casa que eu tive na praia, em Massaguaçu. Pensei muito naquela casa e naquele lugar. Havia um bar perto, aonde eu ia sempre comprar as coisas e daí também me veio a idéia de pôr como personagens o dono de um armazém e a filha dele, a Rosinha. Mas, no dia em que li tudo, fiquei meio abalada. Estado - Com o Vittorio? Hilda - É. Não que eu tenha ficado chocada com ele, gosto muito dele, gostaria até de ser amiga dele, como eu gosto do Stamatius. Mas o Stamatius, por exemplo, só se diz na última página. Lá você sente que ele amou mesmo e ele não fala nada desse amor, do rapaz que se matou, do qual ele diz que foi um anjo cujas asas ele quis cortar. Quanto ao Vittorio, eu não posso dizer que ele tenha uma última página tão honesta como o Stamatius. Ele não se contradiz, mas parece que em nenhum momento fala realmente do que ele é. Estado - O que há em comum entre esses seus personagens? Hilda - Não são personagens que se declaram totalmente: eles dizem mais nos grandes silêncios. De repente pode haver algum trecho que não seja muito nítido, talvez eles se digam mais em duas ou três palavras. Estado - Vittorio reflete sobre a morte, a velhice. Nesse livro, essa reflexão, que permeia toda a sua obra, se aprofunda, não é? Hilda - Acho que esse livro é mais difícil, porque de repente ele sai de todo o esquema. Por exemplo, não sei se todo mundo percebe que ele é um suicida em potencial logo de cara. Ele vive pensando em se matar. É o que ele tem vontade de fazer várias vezes. Então ele dá receitas de suicídio para as pessoas, no que existe uma certa crueldade para com o outro. Acho que seja talvez mais complicado para o leitor comum porque é um misto do pensar e da necessidade de agir o tempo todo. Estado - Tive a impressão de que, depois da trilogia erótica, você incorporou um outro tipo de linguagem, que se casou com a linguagem que você tinha anteriormente... Hilda - É, casou. Mas é sempre o mesmo personagem, se você repara bem. Tem aquela coisa de Deus lutando com Deus, blasfemando, mas quando é ele mesmo, quando é ela mesma, a Hillé, no caso de A Obscena Sra. D., por exemplo, aí o personagem reverencia o deus do coração dele. Vittorio considera-se uma mula de Deus. E tudo aquilo de procurar o "cara mínima" lá (no ânus) é o que é visto por fora desse deus que ele batalha e se esconde tanto dele que ele não pode nunca compreender, talvez nunca compreenda mesmo, não é? Estado - É curiosa a entrada de personagens de outros livros como personagens também dessa narrativa... Hilda - Para mim, ele são incrivelmente vivos. A Hillé, para mim, é muito viva o tempo todo. E tem o meu pai, uma pessoa completamente sedutora. Estado - Os poemas que estão nesse livro como dos personagens nasceram enquanto você o escrevia ou já existiam? Hilda - De alguns eu não me lembrava que existiam e quando os achei vi que davam muito certo, porque têm toda uma preocupação que tem tudo a ver com o Vittorio. Os outros vieram junto, de repente. Eram do Vittorio mesmo, querendo ser poeta naquele momento. Estado - Quem é o poeta Pedro Cyr, que você cita? Hilda - Pois é, apareceu. Eu não conheço o Pedro Cyr. Parece que é um poeta meio safado, que fala coisas engraçadas... Estado - Trata-se, então, de um personagem? Porque parece uma pessoa real... Hilda - Pedro Cyr apareceu, mas não sei quem é (risos). Ele tem um poema esquisito, uma coisa diferente... Veio de repente esse cara. Estado - Por que o personagem é um homem e não, como em A Obscena Sra. D., uma mulher? Hilda - Sabe, uma mulher pensando-se nunca é muito levada a sério. Por mais que você seja brilhante, uma filósofa. Por isso, é difícil você encontrar uma grande pensadora. A não ser algumas poucas, definitivas. Mas gozam um pouco delas. Nunca ninguém fala muito a sério. Falam das físicas, da madame Curie, por exemplo. Mas, quando entra no negócio do pensar, todo mundo põe um pé para trás. Então eu sempre senti que, digamos, a intensidade desse meu pensar era demasiado para o outro se posta numa mulher. Eu sentia, como ainda sinto, essa dificuldade de ser mulher. Como quando eu era jovem e diziam que eu era bonita demais para escrever o que escrevia e aí fiz tudo para enfeiar mesmo. Mas só agora estão realmente pensando no meu trabalho. Apesar destes 47 anos escrevendo sem parar. Estado - Você acha, então, que ainda existe o preconceito com a mulher escritora? Hilda - Ah, sim. Lembro-me de que a escritora Heloneida Studart uma vez disse: "Se a Hilda fosse um homem, a sua literatura seria conhecida no País inteiro." Não sinto que isso mudou. Você vê como a mulher ainda é retratada na mídia. Aquela história da dança da garrafa, essas coisas. Eu fico besta com o fato de ainda tratarem assim a mulher. Perguntaram para o País inteiro quem é que queriam como clone e citaram a moça da dança da garrafa, a Carla Perez. Nos Estados Unidos, pediram para fazer o clone da Teresa de Calcutá. E no Brasil... Estado - Como é a recepção de Hilda Hilst no exterior? Hilda - Fiquei contente de ser traduzida, embora só agora, com quase 70 anos. E também com o que ocorreu no Canadá. Em Quebec, leram minha poesia num teatro, La Licorne, junto com a Sor Juana Ines de la Cruz, a Sylvia Plath, não é incrível? Estado - Como a Nankin se interessou pelo Estar Sendo? Hilda - Ninguém me procura, mas no caso desse livro veio o amigo de um outro amigo meu e falou: "Hilda, eu queria tanto editá-lo, mas a minha editora ainda vai acontecer." Respondi: "Pode levar." Estado - E aquele projeto da edição da sua Obra Completa? Hilda - Não há um editor que me telefone interessado nela. Agora um amigo meu vai falar com um editor que conhece, mas é uma coisa sempre meio remota para mim. Estado - Além desse, você tem outros projetos? Hilda - Queria transformar esta casa numa fundação de estudos psíquicos de imortalidade, aonde viessem conferencistas, todos que se interessassem pelos estudos psíquicos e já estão estudando a imortalidade. Vou ver como isso será possível. Vou falar com um amigo meu, grande advogado, o Ives Gandra, que a Lygia Fagundes Telles me apresentou por telefone faz anos. Não nos conhecemos pessoalmente, mas sempre nos falamos por telefone. Quero falar sobre isso. Porque estão ocorrendo coisas notáveis nessa área. Li um livro deslumbrante, o Transcomunicação Instrumental, em que a autora, Sonia Rinaldi, mostra as mensagens que tanto ela quanto várias pessoas recebem pelo fax de pessoas de outro planeta, o que começou a ocorrer com um casal que mora em Luxemburgo e agora está acontecendo também no Brasil. Esses seres moram num lugar chamado Marduk, que quer dizer sol. Seria um planeta fora do nosso espaço-tempo. A Sonia fez esse livro e há outros escritores, físicos e matemáticos, na Europa, falando sobre isso também. Estado - Como você teve acesso a esse livro? Hilda - A autora soube que eu fui uma espécie de pioneira nesse tipo de pesquisa, quando fiz aquela experiência de tentar gravar as vozes do além, há cerca de 30 anos, e o enviou para mim. Mas qualquer um pode encomendá-lo por meio da Folha Espírita Editora. Agora compreendo a mensagem que recebi naquela época e dizia: "Vamos estabelecer no mundo rede telefonia. Hei de vos avisar. Vamos lá!" Então, agora estão se comunicando via telefone (antes era pelas ondas do rádio). O Konstantin Raudive, que já morreu, falou com a Sonia por telefone. Ela me mandou a fita com a gravação, em inglês, com a data atual e tudo, e é impressionante. Estado - Você vai retomar esse tipo de experiência? Hilda - Vou tentar. Ainda não comecei a fazer. É preciso acoplar o gravador ao telefone. Gostaria de poder um dia ter toda a aparelhagem pronta para isso, com vídeo e tal, como ela explica no livro. Porque há até fotos dessas pessoas e desse lugar, Marduk. O Júlio Verne está lá. O Einstein, o Paracelso. Ninguém está acreditando, mas está acontecendo. Estado - É diferente do gravar vozes via ondas do rádio? Hilda - São gravadores também, mas as vozes vêm pelo telefone. Todo mundo vai pensar, de novo, que eu estou louca, mas estou vendo isso antes de morrer, estou contente. Já há a prova da imortalidade, é uma coisa deslumbrante! Deveriam dar esse livro para as pessoas da terceira idade... e não ficar mandando os velhinhos dançar, etc. É uma descoberta notável. Estado - Mas aí a pessoa precisa acreditar, não é? Hilda - Não. Porque vai acontecer. Mais alguns anos e todo mundo vai poder falar com essas pessoas. Em Marduk a tecnologia é avançadíssima. Eles é que conseguiram comunicar-se com a gente. Estado - Você fala de imortalidade, dessas pessoas fantásticas que estão em Marduk. Acha que com isso este planeta vai melhorar? Hilda - Marduk parece que é um paraíso. Mas tenho passado muito mal com o que vejo nos noticiários. Gosto de ver televisão à noite, gosto de me informar. Não posso ficar alienada. Eu moro também num paraíso, mas quero saber do mundo. Então, à noite vejo os jornais, as novelas. Aliás, acho A Indomada, do Aguinaldo Silva, engraçadíssima e muito bem escrita. Antes, porém, tem o Jornal Nacional e os terrores todos que estão ocorrendo e aí começo a passar muito mal. Fiquei muito doente, chorei ao ver a fita sobre o caso dos policiais de Diadema. Também acho terrível as coisas que estão acontecendo no Zaire... São imagens de terror, de crueldade absoluta. Tenho muito medo de acontecer alguma coisa grave, apesar das profecias de que não estamos no fim do mundo, não seria o término absoluto de tudo. Graças a Deus já estou velha e é capaz de não dar tempo de ver... Estado - Seus livros já nascem, digamos, prontos, você vai apenas os escrevendo e, em releituras, corta trechos e dá essa ordem? Hilda - Prontos, não. A Obscena Sra. D., por exemplo, primeiro conviveu muito comigo e eu sabia os gestos dela, como era... Quando comecei a escrever, já a sabia inteira. Agora o Vittorio apareceu de repente. Achei a fala dele muito grosseira. Era um homem que deveria ter alguma coisa por trás daquela grosseria, daquele cinismo. É um cara debochado, que ri de si mesmo também. Achei interessante a primeira página, gostei de conhecê-lo. Aí fui dando harmonia para ele. Se ele é assim na primeira página, como ele seria? Como se comportaria para não ter contradições, para ter harmonia, sendo? Escrevendo vem o personagem e aí você o vai conhecendo. Estado - A história de o personagem ter vida própria, para muitos escritores, ocorre com você? H ilda - O personagem vem e diz quase imediatamente quem ele é, em situações muito agressivas. Você pode notar logo quem ele é. Às vezes eles se iniciam imediatamente grosseiros, imediatamente pensando com profundidade. Por exemplo, A Obscena Sra. D. já disse de início: "Vi-me afastada do centro de alguma coisa que não sei dar nome, nem por isso irei à sacristia, teófaga incestuosa, isso não, eu Hillé também chamada por Ehud A Senhora D, eu Nada, eu Nome de Ninguém, eu à procura da luz numa cegueira silenciosa, sessenta anos à procura do sentido das coisas." Pensei: "Interessante essa mulher." Estado - Qual foi o livro que você levou mais tempo para escrever? Hilda - Foi o Rútilo Nada. Esse, aliás, foi um que sofreu muitos cortes, era muito extenso, mas eu o queria perfeito. Demorei seis anos para escrevê-lo. Quando o Otaviano (um amigo dela que morreu de aids) começou a ficar muito doente, eu não conseguia escrever. O personagem tinha parecenças com ele e só quando ele morreu é que pude terminar. Estado - á tem um novo texto em andamento? Hilda - Credo! Acabei de escrever! Agora quero muito estudar. Quero tempo para ler, porque, no final da vida, é preciso ler muito, não é? Para não chegar idiota a Marduk (risos)... Eu gosto muito de ler sobre física, adoro os físicos falando do assunto e queria muito que um físico me ajudasse a compreender algumas coisas, porque não sei nada de física. Há quem pense que eu entenda, como o Newton Bernardes, meu amigo, que me deu um livro dele, dizendo: "Pode ler, Hilda, você vai entender." Aí você abre e tem milhares de equações enormes. E eu sempre fui péssima em matemática. Quando eu era menina, tinha tanta mania de perguntar que era uma coisa absurda. As coisas do Qadós têm a ver um pouco comigo, porque ele se faz perguntas loucamente. As freiras do Santa Marcelina, onde eu estudava, ficavam desesperadas. A que ensinava aritmética chegava e dizia: "Tenho três galinhas. Uma, enquanto eu estava caminhando, se perdeu. A outra, morreu. Quantas galinhas sobraram?" Aí eu começava: "Mas por que a galinha morreu? E a outra? Como perdeu? Como é que alguém pode perder uma galinha? Mas quem estava tomando conta dela não sabe dar explicações?" (risos) Aí criava uma situação! A freira respondia: "Não precisa saber por quê." Eu queria a história dessa galinha perdida, morta... Não queria saber da aritmética. Cheguei a pedir para minha mãe dizer à freira que eu era meio doente da cabeça e tinha dificuldade. Estado - Essa dificuldade durou até a idade adulta? Hilda - Quando eu estava no colegial, que era junto com o científico, no Mackenzie, no dia da prova do último ano, um professor chamado Rafael perguntou: "A sra., d. Hilda, vai fazer o quê?" Respondi: "Vou fazer direito." E ele falou: "A sra. jura para mim que nunca vai construir uma ponte? Porque se fizer o que a sra. fez aqui na lousa é para cair tudo. A sra. me promete? Eu deixo a sra. passar porque é aplicada, mas isso cai tudo." (risos) Apesar disso, cheguei a pensar, há alguns anos, em fazer física na Unicamp, mas achei que até entender alguma coisa iria demorar muito. Não daria para aprender rápido e ler tudo o que quero ao mesmo tempo. Por isso precisava de um amigo físico me orientando. Estado - E como foi o tempo da faculdade de direito? Hilda - Fui para a São Francisco e foi uma fase deliciosa da minha vida. Tudo tão divertido e engraçado... Fiquei meio mascote do pessoal do 5º ano, que adorava conversar comigo. Eu saía sempre com eles e ria muito. Era muito gostoso ir para a faculdade. Fiz vários amigos. Estado - Nessa época você já escrevia? Hilda - Eu já tentava. Até publiquei alguma coisa no jornalzinho lá da faculdade, mas nem sei mais o que foi. Estado - Você se formou, mas acabou não exercendo a profissão. Daí partiu para uma vida social intensa, namorou homens ricos e bonitos. Quem foram eles? Hilda - Prefiro não falar. Muitos são conhecidos e as mulheres não gostam de ouvir essas histórias. Há uma que até hoje não pode ouvir falar de mim nem me ver no jornal. Estado - Algum deles "inspirou" um trabalho seu? Hilda - Ah, claro! Há um, não posso dizer seu nome, que inspirou as Trovas de Muito Amor para um Amado Senhor. Estado - E a história do seu "assédio" ao Marlon Brando? Hilda - O Marlon Brando estava fazendo um filme em Paris, em 1957, com o Dean Martin, o The Young Lions (Os Deuses Vencidos), e eu estava lá. Quis demais conhecê-lo. No mesmo dia, aliás, aconteceu uma história incrível... Estado - Qual? Hilda - Eu estava sentada no bar Calavados esperando a hora de ir para o Hotel Rafael, onde o Marlon Brando estava. Tive alguma informação a respeito do horário em que deveria procurá-lo de que agora não me lembro. Como o bar só funcionava à noite e ainda era cedo, os garçons puseram uma mesinha na calçada para mim e eu fiquei ali, tomando um uísque. Nisso chegou um homem estranho, com uma cara meio fechada, sentou-se à mesa do lado, pediu um uísque e começou a me olhar insistentemente. Não era um olhar agradável. Fiquei um pouco sem jeito. Aí chegou o Buby Costa, um amigo meu que era muito elegante, uns 20 minutos depois. Nessa hora, o homem pegou o copo de uísque e o quebrou na mesa. Os garçons correram para lá. O Buby foi se sentando devagar. E falou: "Hilda, você não sabe quem é esse homem." Fiquei muito curiosa. O Buby perguntou: "Ele está olhando para você há muito tempo?" Eu contei que fazia uns 20 minutos. Então ele disse: "É o homem mais rico do mundo, o Howard Hughes. Como é que você não deu bola para o homem mais rico do mundo?" Eu falei: "Mas eu não sabia que era ele!" Aí eu queria que o Buby fosse chamá-lo para a nossa mesa, mas ele disse que não podia de jeito nenhum. Logo o cara foi embora, num enorme Rolls Royce. Depois todos os meus amigos, quando souberam da história, gozaram de mim... Estado - Bom, e o Brando? Hilda - Nessa mesma noite eu fui até o hotel. O concierge não queria me deixar entrar, mas aí dei a ele um dinheiro bom, fino (risos), e ele mandou um garoto levar-me até o quarto. Eu estava com minha amiga Marina De Vicenzi, que hoje mora no Rio. Bati na porta e veio o Christian Marquand, que hoje todo mundo sabe que foi amante do Brando. Perguntei a ele: "Será que eu poderia falar com o monsieur Brando?" Ele foi chamá-lo. Apareceu o Brando, com um robe de chambre e uma echarpe muito bonita. Aí pensei: "Meu Deus, e agora, o que vou falar para ele? Eu tenho de falar alguma coisa, eu quero entrar e ver se posso dormir com ele." Ele olhou para mim e perguntou, em inglês: "O que é? Você pensa que só porque é uma mulher bonita pode acordar um homem a esta hora?" Eram 11 e pouco da noite. Desculpei-me e disse que era jornalista. Ele retrucou: "Não dou a mínima para o seu jornal." A Marina fazia sinais para ele, tentando dizer que eu era maluca. Ele riu e disse: "Bem, pode falar." Perguntei o que ele achava de Franz Kafka, se não queria dar umas declarações. Respondeu: "Vou dormir agora, não vou pensar no sr. Kafka." Fiquei desesperada e perguntei se não podia entrar nem um pouquinho para conversar. Ele disse: "Não." Fui embora, chateadérrima. Estado - Como você soube que ele estava naquele hotel? Hilda - Eu era namorada do Dean Martin e pedi para ele me apresentar o Marlon Brando, mas ele não quis, disse que eu ia naturalmente ficar com o outro. Mas me deu o nome do hotel. Estado - E onde você conheceu o Dean Martin? Hilda - Foi no bar do Ritz, onde ele estava hospedado. Fui ao bar com o Buby e lá o conheci. Estado - Mas quanto tempo durou esse namoro? Hilda - Uns 20 dias só. Ele cantava para mim aquela música que diz "You make me feel so young". Era simpático, mas bebia muito. Eu achava chato namorá-lo porque em todo lugar sempre havia uns holofotes sobre nós, aí foi me enchendo. Estado - Você ficou quanto tempo na Europa nessa época? Hilda - Seis meses. Fui para a Grécia, para o sul da Itália, para Biarritz. Foi uma delícia. Tive uma vida bastante divertida. Aí começou a ficar divertida demais e resolvi que tinha de mudar tudo, porque o meu negócio era escrever e, se continuasse daquele jeito, não ia dar. Foi nessa época também que li aquele livro do Kazantzákis, Cartas a El Greco, que me abalou demais e me fez decidir mudar tudo. Resolvi morar na fazenda que minha mãe tinha. Quando dei a notícia para ela, achou que eu tinha enlouquecido. Perguntou: "Vai ficar no mato?" Porque aqui era só mato, não tinha nada. Respondi: "Vou escrever, mãe, senão não vai dar tempo." Então mandei construir esta casa e convidei o escultor Dante Casarini, que era meu namorado, para morar comigo. A gente se casou pouco depois, em 1968. Em 1980, nos divorciamos, mas ele ficou meu amigo e continuou a morar na casa por mais uns dez anos. Estado - Vários amigos também moraram aqui, não é? Houve, entre eles, escritores? Hilda - Houve vários amigos, mas poucos escritores. Só o Caio (Fernando Abreu), o Mora Fuentes - meu grande amigo até hoje, que foi o que ficou mais tempo aqui, 13 anos - e, mais recentemente, o Edson (Costa Duarte, que assina o posfácio do Estar Sendo/Ter Sido com Clara Silveira Machado), que acabou sendo um assistente meu e pretende fazer o doutorado sobre minha obra. Estado - Como é o seu dia-a-dia? Hilda - Acordo e vou direto para a minha mesa, fico lendo. Na hora do almoço, assisto ao Jornal Hoje, tomo um vinho tinto, leio mais. Estou com uma obsessão de ficar lendo sem parar. Às 8 da noite em ponto, vou para a sala, começo a tomar meus uisquinhos. Se vem algum amigo, fico conversando, vejo o Jornal Nacional e depois A Indomada. Todos os atores são ótimos. Tem o José Mayer, um grande ator, que produziu no Rio a adaptação de A Obscena Sra. D. para o teatro, feita pela mulher dele, a Vera Fajardo. Estado - Quando você está escrevendo um livro, sua rotina é parecida? Hilda - Não é muito, não. Escrevo de manhã, no meu quarto, porque assim ninguém me atrapalha, por duas horas ou o que der para fazer uma página. Às vezes escrevo duas, na minha máquina (Olivetti) velhinha. Depois brinco com os cachorros... Estado - Você comprou um computador e não usa? Hilda - Não. Eu o dei para o Edson. Tenho pânico de computador. Estado - Você não escreve nada à mão? Hilda - Faço anotações nuns papeizinhos, que às vezes perco pela casa. O Edson, quando morava aqui, há até bem pouco tempo, ficava desesperado com isso e dizia: "Você não pode ficar perdendo esses papeizinhos porque eles são dinheiro!" Porque a cada dois anos posso vendê-los para o arquivo da Unicamp. Estado - A Unicamp comprou o seu arquivo e seus manuscritos? Hilda - A universidade comprou a cópia dos artigos que saíram na imprensa, livros com dedicatórias e autografados, como os que o Jorge Amado e a Lygia (Fagundes Telles) me mandaram, cadernos meus do colégio, uma porção de coisas. Agora, de dois em dois anos, o que eu tiver eles vão comprando. Houve uma inauguração do arquivo. Mas ninguém me telefona, embora lá tenha o número do meu telefone. Aliás, pouca gente me telefona. Só o Mora Fuentes, o J. Toledo, o Dante, a Lygia. Com eles eu falo quase todos os dias. Mas eles quase não vêm aqui nem eu saio. Amo muito este lugar. Estado - Há quanto tempo você e Lygia são amigas? Hilda - Há muitos anos. Eu tinha 19 anos quando Lygia estava lançando o primeiro livro e fiz um discurso para ela. Eu estava no 2º ano da universidade. Estado - Hilda, para que escrever? Hilda - Respondo como a Lygia quando às vezes eu pergunto, ao telefone: "Lygia, mas por que está acontecendo tal coisa?" Ela responde: "You ask me?" (risos) Mas, enfim, acho que se escreve por uma compulsão mesmo, não é? Você não sabe dizer exatamente por quê. Mas tem necessidade de comunicar aquilo para o outro, de alguma maneira. Quem sabe se é o que eu também digo, escrevendo: pertencer, caber - que o Qadós queria muito - fazer parte de. O Estado de São Paulo, Caderno 2, 31/05/1997 |