Novela de Hilda devassa a velhice
A impermanência humana, Deus e o amor, machismo, pornografia e a redenção pela escrita voltam ao livro-síntese Estar Sendo. Ter Sido.

ANA MARIA CICCACIO

Surpreendentemente e permanentemente desafiadora. Assim é Hilda Hilst. Última das maiores damas da literatura brasileira contemporânea. Ao longo dos últimos 47 anos, desde a publicação de seu último livro, Presságio, a cada titulo, seja de poesia ou prosa, a escritora paulista segue excitando a imaginação dos críticos e provocando os leitores a penetrar num universo reflexivo do qual é impossível sair incólume.
Na novela Estar Sendo. Ter Sido, trigésimo lançamento de sua carreira, Hilda não apenas mantém sua característica de imutável guerreira, que esgrime idéias e palavras com a bravura de um samurai, como vai pela primeira vez -- e fundo -- em um tema escassamente abordado pela literatura: a velhice.
Aos 67 de estrada, lucidez fantástica e boa dose de humor, a escritora antena-se com uma realidade inédita no Brasil: a expectativa de vida entre nós. Se nos anos 70 os idosos correspondiam a somente 3,1% da população brasileira, chegando a 4,8%, Em 91, estima-se que, no ano 2025, sejam 15% -- aproximadamente 32 milhões de pessoas com mais de 60 anos. Tais números representam a esperança de superação do que, até poucas décadas atrás, espelhava uma de nossas mais tristes desgraças: a média de vida do brasileiro não ultrapassa os 50, e isto no Sudeste, a região mais desenvolvida do Pais.
Para Hilda Hilst, no entanto, esses dados de importância sociológica, previdenciária e também médica pouco importam, a não ser quando dizem respeito diretamente ao indivíduo. Envelhecer implica a perda de uma série de prerrogativas machistas, no caso masculino, assunto de seu novo livro. Vittorio, o personagem central de Estar Sendo. Ter Sido, que viveu seus anos verdes sossegadamente montado no tripé dinheiro-sexo-poder, lastima a chegada da impotência sexual, a súbita fraqueza nas pernas, as falhas de memória e, claro, o encurtamento da receita mensal.
Vittorio, no fundo, seria apenas mais um velho ranzinza entre os idosos sem perspectivas que infelizmente vagam por nossas cidades, não fosse Hilda sua inventora. Dividindo uma casa de praia com Júnior, o filho de 25 anos, e Matias, o irmão de 55, alguns cães vira-latas e gansos, Vittorio azucrina a vida de seus companheiros afoga as mágoas em álcool, mas, para sua sorte e nossa, como leitores, ainda luta para não parar de escrever. E nisto consiste sua redenção. Como personagem. ele é um poço de contra dição. Se de um lado se mostra irascível, preconceituoso e chauvínista, por outro, Hilda sempre foi exímia na dialética é capaz de meditar sobre eternos questiona.mentos metafisicos presentes desde os primeiros poemas e textos da escritora.
>A impermanência humana, a brevidade da vida, Deus e o amor, Tânatos e Eros, solidão temas recorrentes na obra de Hilda estão de volta, mas evidentemente remoçados neste livro. Estar Sendo. Ter Sido é um livro-sintese. Mescla com naturalidade poesia e prosa. Dispensa parágrafos, letras maiúsculas abrindo frases, travessão denotando diálogo e divisão por capítulos. O ritmo, a dinâmica natural do texto, a rapidez do pensamento, transitando entre passado e presente num átimo tudo isso, amplamente experimentado por Hilda em títulos anteriores -- dita a fluidez, a tal ponto de se ler o novo livro de um jato, numa tarde. E com prazer, porque ele tem humor. Mas, também, um lado sombrio, se bem que cativo da poesia.
"a solidão tem cor, é roxo escuro e negro... é como se você fosse andando..., uma vasta planície, vai andando vai andando, é tardezinha, há até uma certa euforia, um vínculo entre você e aquela extensão..., de início parece areia, brilha um pouco, vai anoitecendo...", diz Vittorio. E, em seguida, instrumenta-se da metalingüística, citando vários personagens da própria Hilda, como Hillé, deA Obscena Senhora D. (1982), e o personagem-narrador deom Meus Olhos de Cão (1986), que pergunta e responde: "Deus? uma superficie de gelo ancorada no riso."
Vittorio imerge no passado, mas não faz memorialismo. Resgata, com cuidado, o melhor desse passado, como, por exemplo, as sutis referências de Hilda, ainda moça, à velhice que chegaria. "ler-se é escuro e roxo também", diz Vittorio a certa altura. Agda, menina, em Qadós (1973), já havia se visto, num relance, envelhecida no espelho, com mãos e braços manchados pela senilidade e rosto marcado por rugas. Somente grandes escritores são capazes de tal abstração. Da mesma forma que não temem se curvar ao melhor de todos os tempos. Vittono lembra Ovídio, Petrarca, Shakespeare, Mishima, Joyce, Jorge de Lima, Oscar Wilde, Vieira, Gova, Francis Bacon, Kurosawa, Lupasco, Nagisa Oshima e, por fim, o pai-poeta (de Hilda) Apolonio Hilst e o sempre-amigo Mora Fuentes.
Hilda, que anos atrás enveredou por textos ditos pomográficos -- O Caderno Rosa de Lory Lambi (1990),Contos D’Escárnio /Textos Grotescos(1990) e Cartas de um Sedutor (1991) --, desafiando editores, que a consideravam difícil demais, para um duelo aberto, faz Vittorio escarnecer: "agora só esperam de mim lubricidade, como se eu fosse o dedo, a língua, o porongo, a xinba da cidade, afinal, o que é exatamente ser lúbrico?"
O novo livro é síntese, também, por se apropriar da experiência de Hilda com essas histórias picantes do começo dos anos 90. Por todo ele se lêem exercícios de lubricidade, se bem que Vittono nunca poupe nem a si nem aos outros das situações ridículas. Sobretudo, o novo livro revela Hilda com domínio pleno da psique do machista brasileiro. A quantidade de asneiras ditas por Vittorio, reveladoras do desprezo que ele tem pela mulher, é compativel apenas com o que se deve ouvir nos happy hours de certos executivos, rodas de cachaça de alguns estivadores ou fins de madrugada de meia dúzia de cafetões ao estilo de Navalha na Carne,de Plínio Marcos. É a grande dama afiando a lâmina cortante da palavra. Expondo sem medo os ridiculos.
Nesse sentido, Vittorlo não me parece o alter-ego de Hllda, como querem Clara Silveira Machado e Edson Costa Duarte no posfácio "A Vida: Uma Aventura Obscena de Tão Lúcida", que fecha o livro em forma de análise. Ao exacerbar as idiossincrasias do personagem, a escritora certamente não se espelha nele, mas lhe injeta tanto aquilo que odeia como o que admira e/ou não entende. Li pelas tantas, numa de suas mais belas reflexões, Vittono briga com a Morte, a buça negra", que se aproxima sorrateira com seu punhal, anunciando-se no limiar da velhice. Ele diz: "afinal você aprende, quando está tudo pertinho da compreensão, você só sabe que já vai morrer, que judiaria! que terror! o homem todo aprumado diz de repente: quase que já sei, e aí aquela explosão, aquele vômito, alguns estertores, babas, alguns coices, um jato de excremento e psss.. o homem foi-se, escreve, filho da puta, escreve" e não vai cair babando em cima da máquina, ela não merece isso... Escrever, escrever, escrever. Desde o titulo, Hilda Hilst escreve pensando detidamente em cada palavra e no sentido ou nos múltiplos sentidos que ela encerra. Já o livro de poemas Amavisse (1989), em latim, Idioma que a escritora adora, segundo nos conta o critico literário Leo Gilson Ribeiro, tinha como tradução ter amado. Ora, também no título do novo livro, Hilda utiliza duas formas que evocam o latim: "estar sendo" (esse) e "ter sido"(fuisse).
Estar Sendo é uma forma composta do infinitivo presente, com o verbo auxiliar estar e o principal ser, que ressalta a idéia de processo em curso, de present continuous, se pensarmos no inglês. Enfim, de juventude e ação. Enquanto o Ter Sido é infinitivo passado ou infinitivo perfeito, que é tempo totalmente acabado,finito. Ou seja, desde o título a escritora focaliza o contraste entreestar sendo a juventude, a plenitude) e ter sido (a velhice e a lembrança de tudo o que se foi e de tudo o que fez). "Um tempo fui ninguém: sussurro, hálito/ Alguém passou, diziam? Ninguém, ninguém. /Agora sou escombros de um alguém. Só caminhada e estio. Carrego fardos /Aves, patos, esses que vão morrer / lguais a mim também."
"Hilda é profunda e sincerarnente erudita", me diz Leo Gilson Ribeiro. "Ela sempre leu e estudou muito -- psicologia, fÍsica, religião, antropologia, história e refletiu outro tanto, porque essa é uma necessidade dela, pessoal, intransferíveL Hilda estuda latim, o idioma de sua preferência, e grego também, e adora espanhoL É muito sensível ao som das palavras. Uma vez, quando eu andava estudando russo, cheguei até a ela e lhe disse algumas palavras das quais eu apreciava especialmente a sonoridade: bumaga (papel), petísta (pássaro) e um (intelecto)."Ela,.então, muito perplexa, comentou:"Um...vejo todos os tanques soviéticos estreando em Budapeste e Praga... E que contraste com a doçura do grego nous (intelecto, em grego) que em português deu noema (aspecto objetivo da vivência, isto é, o objeto considerado pela reflexão em seus diferentes modos de ser: o percebido, o pensado, o imaginado)."
Ribeiro faz questão de destacar, ainda, que continua sustentando algo que escreveu sobre Hilda há 20 anos, em 1976: "Não é exagero nem ousadia afirmar e provar -- porém, que, depois que Guimarães Rosa morreu, a mais extrema, mais audaz, a mais decisiva explosào literária da prosa no Brasil se deu com Hilda Hilst."
Vertiginosa, prenhe de diversos significados e repleta de citações que percorrem desde a mais remota antiguidade ao passado mais recente, a literatura de Hilda Hilst é, sem dúvida, tão farta em motivos de reflexão quanto a do saudoso Rosa. Que o digam estes versos-fecho de ouro deEstar Sendo Te Sido: "Que eu morra olhando os céus: /Mula que sou, esse impossível /Posso pedir a Deus /E entendendo nada/ Como os homens da Terra/ Como as mulas de Deus./ Palha/ Trapos/ Uma só vez o musgo das fontes/ O indizível casqueando o nada/ Essa sou eu/ Poeta e mula. (Aunque pueda parecer/ Que de poeta es loucura)."

Jornal da Tarde, Caderno de Sábado, 31/05/1997