Por uma vontade solidária
SALOMÃO SOUZA *

Editado pela Nankin Editorial, editora com proposta nova no mercado, Jazz em Jerusalém, de Victor Leonardi, é um livro que não pode passar despercebido pelos setores sensíveis a uma condição de mudança da barbárie que vai se apossando de vários segmentos da sociedade.
Trata-se de uma destas obras que surgem no exato momento em que é preciso abordar a verdade que elas ousam tocar com agudez.
Concebida para instigar aqueles que se encontram comprometidos com o ensino, pois é aí que se molda o indivíduo, a obra acerta todos os agentes sociais, estejam eles envolvidos com a produção cultural, com a prática religiosa ou com a condução dos interesses políticos ou administrativos. A renovação do indivíduo não pode estar só a cargo do mestre. A nova postura ética tem de começar em cada indivíduo, no Eu de cada um. Como o próprio autor comenta num dos seus takes: vivemos numa sociedade em que todos indivíduos precisam da Vydia (Sabedoria) para encontro e conhecimento do Eu. Assim expresso, pode parecer óbvia e grosseira auto-ajuda, mas não é esta a proposta. Por um distanciamento da cultura e, ainda, abandono de gestos óbvios (amar, coração), o homem se vincula à desumanidade. O homem pós-moderno repudia atos de barbárie que ele mesmo pratica. 
Valendo-se da farta bagagem cultural que veio sendo acumulada ao longo de milhares de anos, Victor Leonardi mostra que é esta cultura que salvará o homem. Sem ela, o que existe é a barbárie. Na linha dos filmes Alphaville, de Goddard, em que a algumas palavras ficam perdidas (consciência); ou de Solaris, de Tarkovski, em que a consciência engendra os objetos amados para depois não conseguir corresponder ao seu amor, aqui há recuperação das palavras, já que aqui o homem continua precisando do homem. 
Mesmo nos instantes em que é preciso reconhecer as mazelas contemporâneas (Num momento histórico em que o poder político atrai a vaidade, a insensatez e a ignorância), a concepção de crença no indivíduo e os "métodos do coração" nunca são relegados. Quem prega, instiga uma reviravolta moral, primeiramente tem de acreditar no homem. Como diz o poeta José Godoy Garcia: a poesia da vida é feita com aurora. Jazz em Jerusalém se vale do acervo cultural para mostrar que a ação humana é transformadora e que o finito pode durar sempre um pouco mais. Não é somente filosofia; e como o próprio autor disso desconfia, busca integrar saber e vida, que, vinculados à criatividade, trazem a alegria. 
Com um título traiçoeiro, pois, erroneamente, pode levar a um estranhamento cultural judaico, que em momento algum aparece no texto, é um livro que se vale da improvisação jazzística para abordar a própria improvisação e a inventividade. Esta sim - o tema central do livro. Associada à moralidade que preserva a vida, a inventividade leva a ciclos sociais, econômicos e políticos, que deverão ser associados à vontade de dispor a abundância cultural e material para o bem de todos. A acumulação material, em si mesma, não completa o homem. Muitos, no afã do apossamento que vai muito além da corrupção, pois ladro-agem, acabam na insônia, pois se veêm constantemente ameaçado pelas algemas. A realização humana não acontece onde os descendentes ficam impedidos de comparecer à praça pública sem ser ridicularizados. O herói é aquele que entra no livro escolar como benfeitor da pátria.
Deprimente presenciar um jovem liberal, que está sendo formado dentro das fileiras de um partido dominante para continuidade da elite, dos "donos do poder", declarar que não é preciso cobertor para impedir os sem-terra e seus filhos de sentirem frio. Até para estes Victor Leonardi tem resposta:"...achar que está tudo bem, porque, na sua casa, não faltam proteínas e o colchão é macio". A elite precisa ouvir jazz em Jerusalém para se dar conta de que tudo é passageiro e que a Gaia (Terra) não existe para domínio e desfrute de uns poucos.
À medida que sentimos a sua improvisação, temos a impressão que o autor está ao/do nosso lado. São temas que se superpõem, criando um amplo painel free, que não nos deixa quietos. Esquenta o sangue do leitor. Como em John Coltrane ou Charlie Parker, não é necessária nenhuma informação biográfica para a aceitação da obra. No posfácio, chegam algumas breves informações biográficas. Victor Leonardi escreveu ensaios na área de trabalho, poesia e ficção, com pós-graduação na França, onde estudou com vários filósofos que ainda estão em atividade, como Claude Lefort e Michel Löwy. Atuou em diversas universidades brasileiras. Se mais informações sobre o autor há no livro estão no hieróglifo hebraico que ilustra a capa. Esqueça a impropriedade do título, a capa inútil, ou mesmo a possibilidade de o autor estar vivo ou morto. Esqueça que você faz parte da elite ou de algum segmento cultural. Permita-se ser instigado por uma obra que chega no momento em que é necessária a moral solidária.

* Poeta, escritor e jornalista. Trabalha em assessoramento parlamentar pelo Ministério do Trabalho, Brasília, DF
Publicado no site www.verdestrigos.com.br, em 01/2001