Livro reúne as críticas que fizeram a fama de Os Sertões.
Juízos Críticos traz textos que analisam o clássico entre 1902 e 1906.
Haroldo Ceravolo Cereza


Num tempo em que a crítica literária ia para as primeiras páginas dos jornais, o Correio da Manhã anunciou, em 2 de dezembro de 1902, que, no dia seguinte, José Veríssimo analisaria o livro de Euclides da Cunha, intitulado Os Sertões.
Vinte e quatro horas depois, surgia a primeira análise da obra, uma das críticas mais lembradas da literatura brasileira -- que, apesar de numerosos elogios e concordâncias, afirmava: "Pena é que conhecendo a língua, como a conhece, esforçando-se evidentemente por escrevê-la bem, possuindo reais qualidades de escritor, força, energia, eloqüência, nervo, colorido, elegância, tenha o sr. Euclides da Cunha viciado o seu estilo, já pessoal e próprio, não obstante de um primeiro livro, sobrecarregando a sua linguagem de termos técnicos, de um boleio de frase como quer que seja arrevesado (...)".
Euclides enviou uma carta a Veríssimo, agradecendo a leitura elogiosa, mas respondendo que considerava "o consórcio da ciência e da arte" a "tendência mais elevada do pensamento humano". Houve, já na época, porém, quem não visse problema nos termos usados por Euclides: "Nada disso é feito com pedantismo, exposto dogmática e friamente. O autor tem um estilo ao qual, a despeito de quaisquer censuras que lhe queiramos fazer, não se pode recusar estes grandes elogios: é pessoal, é vivo, é pitoresco", escreveu Medeiros e Albuquerque no A Notícia, em 12 de dezembro.
Essas críticas e outras seis que se dedicaram a esse "best seller" do início do século 20 (chegou à 3.ª edição em 1905) foram reunidas em livro pela Laemmert, a mesma editora de Os Sertões, em 1904. A obra, que também contava com textos de Araripe Júnior e Coelho Neto, entre outros, é agora reeditada com o mesmo título, Juízos Críticos (Nankin/Ed. da Unesp, 158 págs., R$ 25), e organização de Valentim Facioli e José Leonardo do Nascimento, que acrescentaram mais dois textos da época ao volume -- um artigo do botânico José de Campos Novaes, diretor da Revista do Centro de Ciências e Artes de Campinas, e a interpretação do livro do discurso de recepção de Euclides, em 1906, na Academia Brasileira de Letras, pelo crítico literário Sílvio Romero.
"A análise das leituras contemporâneas ao 'livro vingador' permite o acesso ao ambiente cultural de origem da obra e, por conseguinte, ao sentido provável atribuído pelo autor às suas teses", escreve Nascimento na apresentação do livro. "Os artigos que compõem esta antologia de interpretações de Os Sertões formam um sistema coerente, dialogam entre si, permitindo que aquele período da história seja, de alguma forma, entrevisto e revisitado pelos leitores." (H.C.S.)

O Estado de S.Paulo, Caderno 2, 20/07/2003