Literatura e Encontro
VALENTIM FACIOLI

Vitória, Ella Kobiaco, Nankin Editorial, 144 p. 2001

Vitória de Ela Kobhiaco é um livro interessante por sua proposta de aproximação, diálogo e camaradagem com o leitor. Oferece uma experiência de vida e de produção textual que se completam com a finalidade do entendimento, como uma busca de amizade em que se pode transmitir uma matéria pessoal e social que leve ao crescimento do leitor, embora sem moralismo e sem espírito estreitamente edificante.
São textos poéticos, em prosa e em verso, compostos em câmara lenta, mas também curiosamente em moto contínuo, cuja leitura constitui um prazer de aproximação com as coisas do mundo, com a subjetividade inquieta, com os sentimentos, as sensações, os mistérios, os estranhamentos. É também um conjunto que revela a forte relação da autora com a música, a música popular — o melhor dela —, pois há nesse conjunto a musicalidade das palavras repassada da experiência do canto e da composição, a que Ela Kobhiaco também se dedica.
Assim, a sensibilidade posta em cena em Vitória chama o leitor também como ouvinte, para que ler se torne experiência múltipla, de ler e cantar e inclusive de ler ouvindo música, a dos textos e as que são referidas neles ou outras. Situação, aliás, muito atual e contemporânea, onde a maioria de nós gosta mesmo de ler ouvindo música e curtindo esse conjunto, que tende a se completar e evitar um pouco a experiência da solidão de quem apenas lê. Leitura e música fazem uma liga de poesia, que constitui o gratuito e o necessário para todos nós. Na poesia com sensibilidade está o alimento necessário, que perpassa muitas linguagens e apresenta o melhor do ser humano, esteja ele em que situação estiver. A utopia e o sonho ainda são seu material mais desejado.
Os textos de Vitória parecem responder a uma demanda de expressão. São trabalhos no anverso da prosa experimental a que nos acostumamos, mas no nível do reconhecimento do mundo como “floresta de símbolos”. O impulso da escrita é de decifrar correlações entre o dentro e o fora, o subjetivo e a matéria externa das coisas.
Parece haver também, em cada texto, o pressuposto de mistérios no ser humano, nas relações e nas coisas e paisagens, para cuja decifração a linguagem se faz a via privilegiada. As referências, diretas ou indiretas, às tradições do ocultismo e de religiões diversas, do Ocidente e do Oriente, implicam necessidades de correlações, de articulações, de parentesco e de ligações não-visíveis, apenas sugeridos pela matéria da própria linguagem. São códigos de mensagens com gotas, prana e mandala, sentido da vida ou cruzamento de destinos.
Os textos curtos, em verso ou em prosa, sempre em busca do poético, percorrem uma grande variedade de momentos e experiências, o cotidiano olhado e percebido quase sempre pelos desvãos, pelas frestas, como se o olhar entrevisse as coisas, as pessoas, as paisagens e os mistérios apenas por janelas meio abertas meio cerradas. Nisso, os objetos, lugares e gentes são parcialmente visíveis e quase nada se completa, ainda quando o narrador olha para dentro de si próprio e percebe sombras, névoas, mesmo se o sol sangra uma rosa.
A memória, curta ou longa, desempenha papel central nos textos e orienta a visada, às vezes rente ao cotidiano imediato, outras vezes como resguardo de sensações fixadas em momentos intensos da infância, da adolescência ou das vivências atemporais, mantidas como bolhas de sabão ou como verniz vermelho. Os seres, as coisas, as paisagens, quase tudo é apenas levemente sustentável, oscilante na poeira do tempo, como deusas e deuses e destinos que se desmanchassem ao toque dos dedos ou às tentativas de consistência da linguagem.
E o leitor, diante desses textos, sente-se atraído como na busca do contínuo que sucede, acaba um e quer o próximo, já que a relação que se estabelece é de confiança e de desejos que só aos poucos ganham forma. Parece haver certa embriaguez psicanalítica nessa continuidade. As vozes narrativas parecem confiar no que dizem ou não dizem as palavras, como se houvesse um fundo permanente a ser encontrado. O intertexto e o silêncio às vezes parecem ausentes pela afirmação ostensiva da linguagem, que se apresenta como capaz de dizer tudo. O leitor nesses casos acompanha o jogo mas não é chamado para jogar ou interferir.
Noutros momentos, verdade que em menor número, o leitor se obriga ao olhar mais detido, pois há ironias percorrendo as falas e estas impõem atenção maior, decifração e produção aberta de sentido. A linguagem corrente, de mistura com referências enigmáticas ou ocultistas ou religiosas, tende a parecer mais fácil do que realmente é. Ainda assim, o leitor encontra uma disponibilidade esquisita para espelhar-se nas histórias, nas personagens, nos narradores, mas sem identificação completa e sem distanciamento hostil, numa relação amena sem ameaças nem maiores tensões.
Enfim, o leitor está diante de um conjunto de narrativas breves, ora quase realistas, ora fantasmagóricas, que exploram enorme variedade de assuntos, temas, efeitos, emoções — às vezes à flor da pele —, olhares, gestos e sugestões, paisagens e mistérios. A linguagem acessível propõe convivência e amizade, camaradagem mesmo com o leitor, para que o diálogo, humano e corriqueiro, em timbre propício à proximidade do ouvido, se realize e indique o encontro da expressão, cuja demanda referimos no início.
Vitória é um conjunto de textos para dizer as coisas e seus nomes e com intenção de que o dito antes aproxime o eu poético do leitor e não crie entre eles atrito ou distância. Nem tudo nesse mundo é simplesmente pacífico, mas o chamado para a conversa, supondo as diferenças, supõe principalmente o encontro e o entendimento.

Apresentação especial para o livro Vitória