Luiz Vilela, contista
CARLOS FELIPE MOISÉS

Nas narrativas literárias tradicionais, o leitor, à medida que vai-se familiarizando com o cenário, os protagonistas e as linhas do enredo, vai também sendo induzido a conviver — e no geral o faz de bom grado — com uma personagem extra, um intruso: o narrador. Às vezes é só uma voz neutra, sem presença física, que disfarça até onde é possível a facciosidade do seu relato, mas sempre deixa entrever que não se trata da história em si, nem é a história toda: são só as passagens e os ângulos que interessam à sua versão. Quando a essa voz corresponde uma pessoa, como no caso do narrador-protagonista, participante da ação, a facciosidade nem tem como se disfarçar. Mas, do mesmo modo como aceita a falsa neutralidade daquela voz impessoal, o leitor aceita igualmente a tendenciosidade ainda mais acentuada que brota de dentro do enredo, na voz de um dos protagonistas. O ponto de vista ou foco narrativo (é disso que estamos tratando) costuma ser negligenciado pelo leitor comum, aparentemente empenhado em alimentar a ilusão de que, enquanto folheia o seu romance, está diante da história “em si”.
Histórias, no entanto, não se contam por si, precisam ser contadas por alguém, caso contrário, ainda que preexistissem ao livro, não chegariam a ter existência... para o leitor. Afinal, tudo é ficção: contar uma história é inventar uma história, e em função de como isso tenha sido armado, com mais ou com menos habilidade, pelo autor, o leitor tenderá a aceitar o faz-de-conta já a partir do primeiro parágrafo. E essa armação depende, em boa parte, do papel desempenhado pela figura do narrador — que não só tem presença garantida, nas narrativas tradicionais, como até mesmo a prerrogativa de intervir, ostensivamente. É o caso, por exemplo, do Conselheiro Aires, criação de Machado de Assis, que, já bem adiantado o enredo do seu Esaú e Jacó, admoesta o leitor: “Eu não gosto de gente que venha adivinhando e compondo um livro que está sendo escrito com método”.
Todo autor de ficção sabe que uma das chaves de sua arte é fantasiar, passando ao leitor a impressão não só de verossimilhança mas de veracidade, mesmo, isto é, simulando uma “verdade” que persistiria para aquém e para além do fato de alguém estar contando uma história a alguém. Mas só autores de gênio, como Machado, são capazes de narrar “perigosamente”, abrindo o jogo, sem disfarces, para o leitor: não se deixe iludir, não dê muita importância à história em si; isto não passa de ficção, é só um livro, “escrito com método”, o meu método. E isso é o que importa — nas narrativas tradicionais, convém insistir, sobretudo nas de larga extensão, como a novela e o romance. Quando se trata de narrativa curta, e moderna, a história já muda um pouco de figura.
Ficcionista há tempos consagrado como dos mais representativos da literatura brasileira contemporânea, Luiz Vilela é substancialmente um contista, naquele sentido pleno de que o conto é, para ele, arte acabada, e não exercício preparatório para narrativas de fôlego mais avantajado, como o romance — gênero, aliás, em que o autor fez também algumas e bem sucedidas incursões. Não obstante, ou justamente por isso, Luiz Vilela é um exímio contador de histórias, que encontrou um modo muito peculiar de “resolver” a questão do foco narrativo, levantada de início.
Perderá seu tempo o leitor (já agora talvez um pouco malicioso) que parta para esta coletânea em busca da figura proeminente de um narrador – tendencioso, como admitimos sejam todos os narradores. Nenhuma destas histórias é contada por qualquer dos seus protagonistas, o que exclui de saída a facciosidade do narrador-personagem, interessado em (ou condenado a?) “vender” a sua versão dos fatos. Em todas elas, quem narra, quem nos faculta o acesso ao enredo e aos fatos, é aquela voz neutra, a que já aludimos, reduzida à sua máxima discrição. Repare-se, por exemplo, na concisão de estilo, na preferência pelas orações e períodos breves, e na parcimônia com que essa voz se serve de adjetivos e advérbios: pouquíssimos, firmes e precisos, para que aos poucos vá-se erguendo à frente do leitor uma ambiência substantiva, como se fatos e coisas pudessem falar por si, independentemente dos adereços interpretativos — a versão facciosa — que o ponto de vista unilateral agrega ao relato. Mas repare-se, também, que isto vale para a voz do narrador, para as passagens descritivas ou propriamente narrativas, mas não assim para as manifestações diretas das personagens, cujas vozes, em diálogos sempre ricamente saborosos, apelam com alguma liberdade para a adjetivação e para o fraseado sinuoso, de que o narrador se abstém, sistematicamente.
Nesse sentido, “Os sobreviventes” e “A chuva nos telhados antigos” exploram uma técnica narrativa que leva às últimas conseqüências (ou penúltimas: não exageremos) a neutralização da voz narrativa. São histórias construídas quase exclusivamente com diálogos, o que permite ao leitor entrar em contato direto com as personagens — seus caracteres, seus tiques individualizadores, seu estar-no-mundo —, sem a intermediação do narrador. Com isso, a história se liberta da visão parcial do foco narrativo bem demarcado e ganha tantas versões quantas são as vozes/pessoas envolvidas na trama. De um lado, teríamos o narrador tradicional, onipresente e onisciente (que Luiz Vilela reduz a um mínimo, chegando perto de anulá-lo); de outro, temos a narração descentralizada, de dentro para fora, que vai esboçando aos poucos, e só esboçando, pontos de vista que se multiplicam e nunca se fecham em angulação cerrada. É a ficção concebida como espelho de muitas faces, imagem portanto mais próxima desta outra ficção a que inadvertidamente chamamos “realidade”.
Mas não é só desse expediente que é feita a arte exemplar do contista. Em “Avô”, por exemplo, antes mesmo de dar voz às personagens, o narrador fixa logo a atenção no velho doente (“Sua cama ficava no rumo da porta, ele queria ver quem passava no corredor”), mas já no parágrafo seguinte divide-a sutilmente com outra personagem, o neto que espreita o avô: “A voz cansada exigia, mandava, não tinha jeito de fugir”. A voz que exige, sem dúvida, é a do avô; mas quem não tem jeito de fugir é o menino. Fosse uma narrativa tradicional, a atenção provavelmente ficaria retida no velho, ao longo de todo o relato, e este seria percebido como personagem principal, foco de onde brotaria o sentido básico da história. Procedendo como faz, transitando de personagem em personagem, Luiz Vilela incumbe o leitor de buscar, por sua conta e risco, algum sentido básico diluído no corpo geral da narrativa — caso tal sentido exista. Com isso, o tema da solidão, da incomunicabilidade e do desejo de solidariedade, aí tratado, pode ser visto como núcleo forte, que irmana velhice, infância e todas as idades intermediárias. É preciso que o leitor não se deixe iludir pela pista falsa do título, “Avô”: solitários e solidários em potencial somos todos nós, não só os velhos doentes.
Como se vê, a engenhosidade narrativa de Luiz Vilela, que varia de conto a conto, não é só um expediente técnico mas metáfora de uma visão de mundo, caminho seguro para fixar certo circuito temático, que busca atribuir sentido às coisas, em vez de apenas exibir maneiras sutis de descrevê-las e contá-las. Nesse circuito ocupa lugar de destaque exatamente a solidão e a conseqüente incomunicabilidade entre as criaturas. (A recíproca também é verdadeira.)
Quanto a isso, a cena final do conto de abertura é emblemática:

— Você grita demais com esses meninos — ele disse no almoço, palitando os dentes, enquanto lia o jornal.
Ela não respondeu, e gritou mais ainda. Ele foi para a sala, levando o jornal.
Espichou os pés sobre a mesinha nova de fórmica, acendeu um cigarro, e continuou a ler a notícia sobre o lançamento de mais um foguete espacial.


O que temos aí é a fatalidade do desencontro entre vontades, por ironia, tão próximas e afins: pai, mãe, filhos; é a triste miudeza da vidinha de cada um, esmagada pela grandiosidade cósmica do mundo aí fora — ao alcance das mãos, na banalidade do jornal diário, no entanto inacessível. Depois de toda uma existência de sonhos e de lutas, aquele homem e aquela mulher (que se amaram, que puseram filhos no mundo) como que retornam ao ponto de partida, cada qual isolado no seu canto, condenado à solidão irremediável.
Observe-se, a propósito desta cena, que o desfecho de todas as histórias da coletânea tem sempre o mesmo timbre de anticlímax. Habituado às narrativas tradicionais, o leitor talvez esperasse o acontecimento inusitado, que pusesse termo ao entrecho de forma imprevista. Não assim com Luiz Vilela. Suas histórias terminam em suspensão, em compasso de espera: nada acontece. Mas tudo poderia (e ainda pode) acontecer.
Observado isso, o leitor perceberá que o tema de predileção, recorrente nas cinco histórias, é o tema da morte. (O temário geral da obra do autor, claro está, vai muito além; estamos falando apenas da mostra aqui recolhida, de vários livros.) Seja a morte dos sonhos de juventude, no primeiro conto (“Por toda a vida”), ou a morte do velho doente, aos olhos do neto, da filha, do genro, dos amigos (“Avô”); seja a morte das figuras reduzidas a nomes sem pessoas correspondentes, na memória de antigos companheiros que se revêem, anos depois, na mesa do mesmo bar (“Os sobreviventes”), ou a morte do passado, outra vez, que nem chegou a ser vivido, nas lembranças dos ex-namorados — lembranças “que estavam bem lá no fundo de sua memória, na parte mais solitária de seu ser” (“A chuva nos telhados antigos”); seja a morte iminente de um frágil cágado, fruto inglório de uma pescaria mal-sucedida — evento banal que fornece o entrecho da última história (“Bichinho engraçado”); seja qualquer dessas mortes, os seres e enredos que povoam a ficção de Luiz Vilela parecem girar obsessivamente em torno do pouco de vida que os anima e que inevitavelmente se esvai, sem que nada possa ser feito para impedi-lo.
Fatalismo? Ceticismo? Talvez. Mas nada que faça pensar em derrotismo.
Caso contrário, para que seguir inventando e contando histórias? No desfecho de uma delas — história que fala de perda e fracasso — o protagonista se despede da mulher e parte, para nunca mais. A cena final registra:

Ela não respondeu. Viu-o ainda, pela janela, caminhando sob a chuva para a estação, que ficava no fim daquela mesma rua comprida. Ele ia a passos firmes, e nem uma vez se voltou para trás.

Passos firmes, não se voltar para trás nem uma vez...
Como não ver aí altivez e resignação, a postura trágica de quem aceita a impiedade do destino, mas não se desespera e extrai daí a inexplicável obstinação em prosseguir, “a passos firmes”, no encalço de vida melhor? Embora pareça, ao primeiro e superficial contato, pactuar com algum pessimismo, o sentimento de mundo instilado nos contos aqui reunidos acaba por revelar seu compromisso maior com a vida, que apesar de tudo vale a pena ser vivida. Quem conta um conto, afinal, com a maestria de Luiz Vilela, aumenta um bocadinho aquele tanto de esperança que, segundo Vinícius de Moraes, não custa nada e é sempre melhor ter que não ter. Para satisfação do leitor.

Prefácio especial para o volume de Contos