Vila Nova de Málaga, uma sátira do Brasil e seus notáveis
O paulista Ariosto Augusto de Oliveira faz um divertido romance sobre o País e São Paulo, e satiriza políticos e intelectuais famosos, à direita e à esquerda.
HUGO ALMEIDA

O paulista Ariosto Augusto de Oliveira (1942) diz ter "uma vida que se tece pelo avesso". Nasceu num dia 13, em Ribeirão Branco, "cidade que ninguém conhece", e nunca esteve em Ribeirão Preto, "de que todos falam e elogiam". Professor aposentado de literatura e gramática, Ariosto é um escritor inquieto e versátil, um autor que já merece mais atenção. Seu segundo romance e sexto livro (os quatro primeiros são de contos), Vila Nova de Málaga, é uma divertida sátira sobre o Brasil, principalmente São Paulo e seus políticos e escritores mais conhecidos.
Em Anatomia da Crítica, o canadense Northrop Frye define a sátira como "a luta cômica de duas sociedades, uma normal e outra absurda", lembra José Miguel Wisnik na introdução a Poemas Escolhidos, de Gregório de Matos (Cultrix). Wisnik acrescenta: "Para combater 'um mundo cheio de anomalias, injustiças, desatinos e crimes' que ela mesma considera 'permanente e indeslocável', a sátira declara uma guerra intransigente do tipo da de Davi contra Golias." De certa forma é isso que faz o narrador de Vila Nova de Málaga, um jornalista afastado da profissão, usando as mesmas armas da sociedade absurda: a mentira, a farsa.
O narrador, antigo morador da "paupérrima Rua dos Três Bicos", agora dono de uma mansão num condomínio de luxo que dá título ao livro, adotou o pseudônimo de Oliver Cleveland para assinar roteiros em Hollywood. Para o filme Thimony, sobre a "decadência e glória de um burro velho e abandonado nas antigas minas de prata do oeste selvagem", plagiou, "descaradamente, a sabedoria e as astúcias do Burrinho Pedrês", de Guimarães Rosa. Sucesso de bilheteria, o filme lhe deu "gordíssimos milhões de dólares", o que o fez tornar-se proprietário da casa de US$ 2,5 milhões e desfrutar uma vida sem preocupações maiores do que beber e comer com requinte, conquistar mulheres exóticas, copiar livros (como O Velho e o Mar, de Hemingway) para fazer roteiros de sucesso e tudo e todos satirizar. Quase ninguém escapa. Por exemplo: atuais e ex-presidentes, governadores e prefeitos. E alguns escritores. Há páginas deliciosas sobretudo quando o narrador lembra suas conquistas amorosas. A Negra e Parmênia Noronha já valem o romance, que em vários momentos possui um tom de Brás Cubas, obra e personagem que evoca.
Em vários sentidos, Vila Nova de Málaga é um trabalho bastante diferente do anterior do autor, o introspectivo A Pesada Memória da Noite (Belo Horizonte, Oficina de Livros, 1991), monólogo de um alcoólatra solitário, derrotado, em que o ponto alto é a comovente carta que recebe da "filha amada", então vivendo com a mãe. "Pai: Para você ver: sou uma criança, tenho onze anos, mas já sei de tudo!", escreve quase no fim. Em seguida, o narrador-personagem, que lê a carta e fala a alguém que nunca responde, à maneira de Riobaldo de Grande Sertão: Veredas, pede-lhe o lenço e confessa que queria "ter uma golfada de paz". De outra natureza, é também paz o que procura o personagem-narrador de Vila Nova de Málaga. Mas não é, afinal, paz o que sempre busca o homem, em todas as épocas e paragens?
Ariosto Augusto de Oliveira reafirma sua maestria no novo romance, que garante ao leitor boas risadas e momentos de deleite. Em paz com sua literatura e talvez com a vida, o autor parece apto a escrever seu grande livro, que por pouco já teria sido este Vila Nova de Málaga, não fossem algum excesso diluidor na sátira e uma certa falta de unidade na fatura, resultado, quem sabe, de um trabalho de longo e espaçado tempo.

Resenha escrita originalmente para o extinto Caderno de Sábado do Jornal da Tarde, 09/2001.