![]() | Memórias
truncadas da mimese JOSÉ RODRIGO RODRIGUEZ* |
| "It is good to give materialist investigations a truncated ending. [N9a,2]" Walter Benjamin "La negazione della sintese diventa pricipio dell´attività di configurazione. Theodor W. Adorno Depois de mais de cem páginas de desassossego, o leitor deste Quando o Escriba do Castelo Era Eu de Victor Leonardi vai se deparar com uma revelação que, de tão explícita e anticlimática, só faz irritá-lo ainda mais. Diz o autor, lá pela metade da página 112: "Eu sempre quis escrever um livro deste tipo, em que o ensaio pudesse conviver com a ficção, após o degelo da sisudez e o triunfo dos comediantes: o mícron da galáxia e o homem no seu milênio, sem teorizar, quase autobiograficamente." "A esta altura da leitura (pensarão com seus botões os leitores scholars) não era preciso dizer isso. Por favor, Sr. Leonardi, se era para entregar os pontos no final, para que passar tanto tempo encrencando o texto na busca de formas novas, destruindo e desconfiando da capacidade mimética da narrativa, fazendo-a comunicar-se por dentro com a ciência, a pintura e a política? Isso é constrangedor, para quê tantas explicações! Pipocas! Faça literatura e esqueça do resto!" Já um leitor menos sabido, acredito eu, terá reação diferente, mas também pouco simpática; "Ah bom, era isso! Então porque tanta enrolação! Por que não disse isso logo no prefácio! Acho que agora entendi essa coisa estranha.... Não se sabe se é biografia, conto, teoria, que diabo! E esse tal de Addanari, existiu ou não existiu afinal?" Com o perdão da pretensão, devo confessar que minha irritação foi do primeiro tipo, para o desagrado do autor desta obra, personalidade avessa aos enquadramentos estritos da divisão social do trabalho acadêmico e suas respectivas formas. Este livro merecia mais do que isso, merecia um leitor que não sentisse vertigem ao assistir a um desfile feroz de discursos variados numa liga leve em forma de pastiche. Um leitor aberto para as zonas de fronteira entre as esferas do estético, do político e do científico, desassombrado pela prática constante da autocrítica do presente.Mas, pensando bem, talvez eu seja exatamente o que esse livro mereçe: minha desorientação pode servir como testemunho de uma indigência coletiva para lidar com os desvios e restos de razão que este texto vai deixando pelo caminho. E o leitor comum? Não seria ele o destinatário ideal destas linhas envenenadas? O alvo ideal para comprovar a falência da obra engajada e eficácia política deste livro, parente próximo do Beckett conforme Adorno, obra que não quer ter efeitos políticos imediatos, mas que às vezes consegue, por resistir ao fetiche em sua forma insubordinada e inclassificável? Infelizmente, não posso dizer. Não estou mais em sua pele, pelo menos desde o momento em que o imprudente editor deste texto, num ato que mistura irreverência e desafio, achou por bem confiar este prefácio a mim. Não sei, mas desconfio: será que o leitor comum ainda existe? E caso exista, será que ainda sabe ler? Na fase atual da literatura, é possível ser leitor sem ser literato? Como quer Fredric Jameson, será que a arte está tão misturada com o discurso sobre a arte que é impossível fixar seus contornos propriamente estéticos? Estaríamos mergulhados numa estetização total da sociedade em que a arte foi substituída pela teoria? Por isso mesmo, ao tomar a pena para apresentar estes escritos, sinto-me absolutamente livre e totalmente enquadrado. Livre ao penetrar numa esfera diversa daquela com a qual estou acostumado, professor de direito e estudante de filosofia que sou, desajeitado em temas de arte e poesia. E enquadrado porque, ao vislumbrar esta estranha arquitetura que Victor Leonardi nos apresenta, não me parece que este (não?) lugar seja tão aprazível como eu um dia sonhara, espremido entre normas jurídicas proibitivas e Sujeitos um pouco racionais demais para o meu gosto. É como se, num gesto só, tivessem sido abertas e fechadas para mim as portas da literatura e seu universo de liberdade. Uma luz intensa cegou meus olhos sem que eu pudesse me recuperar a tempo de relatar o que vi. Confesso que minha vontade é sair de fininho.... No primeiro texto do livro, intitulado Addanari, Victor Leonardi parece querer nos dizer que quanto mais absorvente e libertária a experiência da leitura, mais fatal ela será. O personagem principal, que é também narrador da história, nos faz um relato eletrizante de uma experiência de leitura em que o livro avança sobre o narrador e o coloca sob risco de morte. Nosso leitor fantástico resiste e, já com um pé na cova, acha energias para libertar-se do texto e destruir o objeto de seu desejo com "o fósforo e o álcool, a chama, ponto final". Disse Adorno de Kafka : "Os seus textos são dispostos de maneira a não manter uma distância constante com sua vítima, mas sim excitar de tal forma os seus sentimentos que ela deve temer que o narrado venha em sua direção, assim como as locomotivas avançam sobre o público na técnica tridimensional do cinema mais recente." Esse efeito é conseguido por Kafka com a construção de um universo em que, parafraseando Adorno, tudo é lógico do início ao fim, tudo é sistema, e, como qualquer sistema, desprovido de sentido. Assustador não é o que rompe com a ordem estabelecida, pois a ordem estabelecida é o que existe de mais perturbador. O que perturba o leitor é o desenrolar lento e matemático de fatos absurdos que se desenrolam sem qualquer explicação. Mais do que isso, assustador é presenciar a entrega do sujeito a esta lógica absurda, pois o sujeito se deixa levar sem hesitação, sem sequer desviar os olhos de seu caminho. A consciência da nulidade do sujeito em Kafka é tão aguda que ele abandona a si mesmo ao ilógico de acontecementos que se encadeiam na mais perfeita ordem. Mas esta passividade não é sinal de derrota: o indivíduo resiste a reificação pela não violência. Ao subordinar-se ao horror de um mundo sem sentido, o indivíduo burguês nega sua própria composição e a situação de classe que o condenou ao que ele é evidenciando sua insuficiência. O sujeito se afirma, por assim dizer, por seu suicídio, último ato livre possível para um sujeito completamente reificado, o momento de realização de sua liberdade absoluta. "A única obra e ato da liberdade universal é portanto a morte, e sem dúvida uma morte que não tem alcance interior nem preenchimento, pois o que é negado é o ponto não-preenchido do Si absolutamente livre; é assim a morte mais fria, mais rasteira: sem mais significação do que cortar uma cabeça de couve ou beber um gole de água." Para Leonardi, esta possibilidade de autonegação do indivíduo burguês parece estar perdida. É o fim do Iluminismo afinal: o leitor do livro fatal de Addanari não se entrega a seu poder ctônico, não se deixa pacificar pelo silêncio do nada e resiste à voragem da fetichização. Ao viver para contar sua aventura, salva-se como sujeito burguês para voltar a remoer a miséria de sua existência. Num mesmo movimento, sua salvação barra a plena realização da literatura revolucionária que se completaria com sua morte gloriosa no trono da desrazão, um mártir pacificado em sua condição de coisa exibido como espetáculo ao leitor angustiado. Um mesmo esquema parece se repetir em todos os textos do livro: o narrador colocado numa situação de descontrole, irredutível aos parâmetros lógicos, narra sua memória deste fato, seja ela de extremo prazer ou de extrema aflição, em uma linguagem que se recusa a ser mero prazer do texto, que não se permite constituir um universo próprio, um todo cerrado em sua capacidade de mimetizar o real. Quando estamos quase acomodados numa bela narrativa em estilo policial o texto deriva para teorizações mais ou menos felizes, análises (pseudo?) psicanalíticas, relatos de viagem, notas aparentemente autobiográficas, máximas moralizantes, observações de puro senso comum, manifestos políticos meio desfocados e assim em diante, tudo sobre o controle de um narrador-cirurgião que executa cada retalho na narrativa com precisão milimétrica, sempre no controle de sua própria memória. Ao mesmo tempo, parece haver uma preocupação obsessiva do narrador de autodeslegitimação figurada numa impossibilidade irremediável de constituição de um único discurso. Vaga entre registros diversos, desconfiando de todos, flertando com todos, numa fruição sem regra aparente, que só termina por sua própria vontade. Nesse movimento errante, o narrador parecer mimetizar a dissolução contemporânea do estético na economia, de que nos dá notícia Fredric Jameson, análoga à destruição da política na voragem do capitalismo financeiro desvairado. Rememorando suas experiências fantásticas, seus momentos de afetividade e desrazão, o narrador de Leonardi parece nos alertar que a literatura, talvez, tenha perdido seu poder de revelação, tenha se dissolvido no turbilhão da mercadoria: é sempre possível rememorar o absurdo, resistir ao fetiche e voltar para contar a história, usando a mesma linguagem fetichizada, que um segundo atrás, inspirava pavor, para relatar, de modo consciente e plenamente controlado, qualquer experiência, as mais transcendentais ou fantásticas. Estas vivências e convivências com o ilógico, o não sistemático, o mundo da vida, como diria Habermas, não têm mais nenhum poder de transcendência: servem apenas para abrir espaços breves que suspendem, por um milésimo de segundo, a circulação desvairada das mercadorias (o que já é alguma coisa... ou não é?). Relatar esses momentos de paz aparente não pode significar fazer literatura de um modo desarmado, pressupondo a existência de suas fronteiras, nos termos da estética modernista. O relato da impossibilidade da transcendência requer uma linguagem fraturada, um discurso Frankenstein, construído numa forma deliberadamente imperfeita, e legitimado apenas por aquele que a enuncia. É como se o narrador, nu e desamparado em sua sobrevida para além da possibilidade da transcendência, buscasse tecer uma roupa sobre seu próprio corpo em movimento, relatando experiências fantásticas que são neutralizadas por causa disso mesmo, fios recém-tramados e já descozidos ao menor movimento de suas pernas. Tudo parece se passar como se o agrimensor K. d’O castelo de Kafka finalmente conseguisse penetrar no castelo e, de posse desse saber, voltasse a errar de um lado para o outro, sem romper a cadeia lógica de sua falta de sentido. O relato do agrimensor que penetrou no castelo é a fala deste escriba que acreditou que seria rei apenas por sentar-se no trono e, após conseguir fazê-lo, foi pateticamente enxotado pela guarda do palácio. O vislumbre de um poder para além de si mesmo que retorna como a memória da liberdade abortada e, agora, aparentemente impossível. Dissolvido (ou roubado?) o sonho do escriba nas linhas do estético desfolhado, resta este registro impressionante, pessimista em sua negação da literatura e otimista em seu impulso de retratar a própria ruína: é preciso buscar outro lugar para o sonho, descolar a revolução da arte, ou fundá-la de novo sobre bases mais sólidas? Reformismo ou revolução? Porque os momentos de fantasia do texto, as aventuras epistolares delicadíssimas de Cartas de Nemah, o fascinante jogo cabalístico presente em Tetractys, a delicadeza comovente do olhar de um marido sobre sua companheira em Pintura do Invisível e as aventuras operárias pouco usuais da Biblioteca da Utopia, ainda que espremidos entre retalhos de discursos dos mais diversos registros, perturbados por um narrador que não se deixa levar pelo prazer, ainda assim, provocam momentos de delícia extrema. O leitor quer deixar-se levar, quer participar destas experiências fascinantes, quer presenciar maravilhas. O narrador é desvio, disfarce, decepção, faz o leitor tropeçar, desmembra seu sentimento do sublime, este excesso que perturba o bom funcionamento da vida do espírito, interferindo no curso de sua fruição com explicações racionais demais, esclarecimentos históricos e geográficos (reais ou inventados?), mais todo tipo de sacanagem. A beleza intensa do narrado, que se esgueira por entre a guarda armada até os dentes pelo narrador, viola seu esquema de segurança, e alveja o leitor em tiros precisos. Momentos de alívio pacientemente premeditados por este mesmo narrador que parece querer destruir a felicidade extática que transborda de suas mãos em concha, fonte da verdade e da mentira, monstro de duas cabeças... (dialéticas?) Especial para este site. |
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