Memórias truncadas
Em coletânea de contos publicada pela Nankinn Editorial, Victor Leonardi deixa emergir os muitos dramas da vida contemporânea.
JOSÉ RODRIGO RODRIGUEZ

Depois de mais de cem páginas de desassossego, o leitor deste Quando o escriba do castelo era eu, de Victor Leonardi, vai se deparar com uma revelação que, de tão explícita e anticlimática, só faz irritá-lo ainda mais: "Eu sempre quis escrever um livro deste tipo, em que o ensaio pudesse conviver com a ficção, após o degelo da sisudez e o triunfo dos comediantes: o mícron da galáxia e o homem no seu milênio, sem teorizar, quase autobiograficamente." Para Leonardi, a possibilidade de autonegação do indivíduo burguês parece estar perdida. É o fim do Iluminismo afinal: o leitor do livro fatal de "Addanari" não se entrega a seu poder ctônico, não se deixa pacificar pelo silêncio do nada e resiste à voragem da fetichização. Ao viver para contar sua aventura, salva-se como sujeito burguês a voltar a remoer a miséria de sua existência. Num mesmo movimento, sua salvação barra a plena realização da literatura revolucionária que se completaria com sua morte gloriosa no trono da desrazão, um mártir pacificado em sua condição de coisa que se oferece como espetáculo ao leitor angustiado.
Um mesmo esquema parece se repetir em todos os textos do livro: o narrador colocado numa situação de descontrole, irredutível aos parâmetros lógicos, narra sua memória deste fato, seja ela de extremo prazer ou de extrema aflição, em uma linguagem que se recusa a ser mero prazer do texto, que não se permite constituir um universo próprio, um todo cerrado em sua capacidade de mimetizar o real.
Quando estamos quase acomodados numa bela narrativa em estilo policial, o texto deriva para teorizações mais ou menos felizes, análises (pseudo?) psicanalíticas, relatos de viagem, notas aparentemente autobiográficas, máximas moralizantes, observações de puro senso comum, manifestos políticos meio desfocados e assim em diante, tudo sobre o controle de um narrador-cirurgião que executa cada retalho na narrativa com precisão milimétrica, sempre no controle de sua própria memória.
Ao mesmo tempo, parece haver uma preocupação obsessiva do narrador deslegitimar a si mesmo, figurada na impossibilidade irremediável de constituição de um único discurso. Vaga entre registros diversos desconfiando de todos e flertando com todos, numa fruição sem regra aparente, que só termina por sua própria vontade.
Nesse movimento errante, Leonardi parece estar mimetizando a dissolução contemporânea do estético na economia, de que nos dá notícia Frederick Jameson, análoga à destruição da política na voragem do capitalismo financeiro desvairado.
Rememorando suas experiências fantásticas, seus momentos de afetividade e desrazão, o narrador de Leonardi parece nos alertar que a literatura talvez tenha perdido seu poder de revelação, tenha se dissolvido no turbilhão da mercadoria: é sempre possível rememorar o absurdo, resistir ao fetiche e voltar para contar a história, usando a mesma linguagem fetichizada que, um segundo atrás, inspirava pavor, para relatar, de modo consciente e plenamente controlado, qualquer experiência, as mais transcendentais ou fantásticas.
Estas vivências e convivências com o ilógico, o não sistemático, o mundo da vida, como diria Habermas, não têm mais nenhum poder de transcendência: servem apenas para abrir espaços breves que suspendem, por um milésimo de segundo, a circulação desvairada das mercadorias (o que já é alguma coisa... ou não é?).
Relatar esses momentos de paz aparente não pode ser fazer literatura de um modo desarmado, pressupondo a existência de suas fronteiras, nos termos da estética modernista. O relato da impossibilidade da transcendência requer uma linguagem fraturada, um discurso Frankenstein, construído numa forma deliberadamente imperfeita, e legitimado apenas por aquele que a enuncia. É como se o narrador, nu e desamparado em sua sobrevida para além da possibilidade da transcendência, buscasse tecer uma roupa sobre seu próprio corpo em movimento, relatando experiências fantásticas que são neutralizadas por causa disso mesmo, fios recém tramados ej á descozidos ao menor movimento de suas pernas.
Tudo parece se passar como se o agrimensor K. d'0 castelo de Kafka finalmente conseguisse penetrar no castelo e, de posse desse saber, voltasse a errar de um lado para o outro, sem romper a cadeia lógica de sua falta de sentido. O relato do agrimensor que penetrou no castelo é a fala deste escriba que acreditou que seria rei apenas por sentar-se no trono e, após conseguir fazê-lo, foi pateticamente enxotado pela guarda do palácio. Dissolvido (ou roubado?) o sonho do escriba nas linhas do estético desfolhado, resta este registro impressionante, pessimista em sua negação da literatura e otimista em seu impulso de retratar a própria ruína: é preciso buscar outro lugar pra o sonho, descolar a revolução da arte, ou fundá-la de novo sobre bases mais sólidas. Reformismo ou revolução?
Porque os momentos de fantasia do texto, as aventuras epistolares delicadíssímas de "Cartas de Nemah, o fascinante jogo cabalístico presente em "Tetractys", a delicadeza comovente do olhar de um marido sobre sua companheira em "Tintura do Invisível" e as aventuras operárias pouco usuais da "Biblioteca da Utopia", ainda que espremidos entre retalhos de discursos dos mais diversos registros, perturbados por um narrador que não se deixa levar pelo prazer, ainda assim, provocam momentos de delícia extrema. O leitor quer deixar-se levar, quer participar destas experiências fascinantes com tranquilidade, quer maravilhar-se...
O narrador é desvio, disfarce, decepção, faz o leitor tropeçar, desmembra seu sentimento do sublime, este excesso que perturba o bom funcionamento da vida do espírito, interferindo no curso de sua fruição com explicações racionais demais, esclarecimentos históricos e geográficos (reais ou inventados), mais todo tipo de sacanagem.
A beleza intensa do narrado, que se esgueira por entre a guarda armada até os dentes pelo narrador, viola seu esquema de segurança, e alveja o leitor em tiros precisos. Momentos de alívio pacientemente premeditados por este mesmo narrador que parece querer destruir a felicidade extática que transborda de suas mãos em concha, fonte da verdade e da mentira, monstro de duas cabeças (dialéticas?).

Suplemento Literário de Minas Gerais, 11/2001