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Amâncio lança livro hoje Trabalho acadêmico discute relação entre obras de Yoram Kaniuk e Frank O. Gehrye. HAROLDO CERAVOLO SEREZA |
O jornalista do Estado, escritor e poeta Moacir Amâncio lança hoje, a partir das 19h30, no bar Central das Artes, o livro Dois Palhaços e Uma Alcachofa, pela Nankin Editoral. A obra, que nasceu como tese de doutorado na Universidade de São Paulo em Língua, Literatura e Cultura Judaica, realiza uma leitura do romance A Ressurreição de Adam Stein, de Yoram Kaniuk, aproximando-o da obra do arquiteto Frank O'Gehry. Amâncio não estará sozinho: será acompanhado por mais quatro lançamentos, marcando o surgimento de uma coleção dedicada exclusivamente a títulos acadêmicos da editora. Assim, enquanto o jornalista assina Dois Palhaços, Priscila Figueiredo lança Em Busca do Inespecífico (sobre o romance Amar, Verbo Intransitivo, de Mário de Andrade), Edu Teruki, Marcas da Catástrofe (sobre a experiência urbana e a indústria cultural nas obras de Rubem Fonseca, João Gilberto Noll e Chico Buarque), e Iná Camargo Costa, Panorama do Rio Vermelho (uma reunião de ensaios sobre o teatro americano). Também é lançado hoje Rodapé, sobre crítica literária brasileira contemporânea, de vários autores. Experiência judaica - O romance de Yoram Kaniuk narra a trajetória de um palhaço judeu alemão levado a um campo de concentração durante o regime nazista. Lá, é reconhecido pelo comandante do campo, que lhe propõe uma troca: como o palhaço, certa vez, havia feito o comandante desistir de um suicídio, dessa vez o comandante lhe pouparia a vida, desde que ele fizesse palhaçadas para os concentrados no campo, antes que eles fossem encaminhados para a câmara de gás. O cômico antecipa-se a Roberto Benigni A Vida É Bela. "Mas não há nenhum tipo de média, como na repulsiva bobagem de Benigni", diz Amâncio. Em Adam há uma defesa e um perigoso compromisso com o horror. Nesse processo, ele chega, inclusive, a fazer piadas para a própria filha, e também para a mulher. Apesar disso, ainda tinha de disputar espaço para dormir e comida com um cachorro do campo. Ao fim da guerra, Adam Stein não está morto: e descobre que uma das filhas também não. Depois de receber uma indenização do governo alemão, parte para Israel, em sua busca. No entanto, não chega a tempo: ela morre pouco antes, durante um parto. O palhaço, então, tem um surto e passa a se comportar como um cão. Acaba internado num manicômio. Lá, os internos acreditam que o prédio foi construído para acelerar a chegada do messias e que Stein é ele. O romance, assim, gira em torno da rearticulação do poder no pós-guerra, numa alegoria da expansão do campo de concentração para o mundo, através da ação do mercado global. Frank O'Gehry entra nessa história como o segundo palhaço porque, durante uma Bienal de Veneza, vestiu-se como tal - "lembrando o Chacrinha", comenta Amâncio, rompendo com a arquitetura antiga em função de uma pós-moderna. Entre as obras pós-modernas de Gehry, está o prédio do museu Guggenheim da cidade basca de Bilbao. O apelido do prédio completa o título do trabalho de Moacir Amâncio: alcachofra, por causa de suas folhas de metal, que estão longe de ser uma unanimidade entre os arquitetos. Segundo Amâncio, as obras dos dois artistas - Yoram Kaniuk e Frank O'Gehry - têm em comum uma visão de mundo fundada numa experiência judaica - mas, também, universal, capaz de expressar os problemas, as contradições e as realizações do mundo contemporâneo. O Estado de S. Paulo, Caderno 2, 04/12/2001 |
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