Mocó?
VALENTIM FACIOLI

Mocó é a metáfora que O. C. Louzada Filho engendrou como enigma para remeter oblíqua e ironicamente às três narrativas enfeixadas neste livro. O que será Mocó?
Ao leitor compete ir compondo e recompondo as peças de um jogo sem regras claras, nem pré-existentes, cujos movimentos serão a produção de sentido. As manobras e os lances correrão por conta da experiência de leitura acumulada na obra do autor e na literatura moderna. Mas não só, porque as três narrativas compõem-se com a circunstância do país, com o nosso processo social.
Mas isso é pouco e é uma demasia, ao mesmo tempo. Não é qualquer escrita, nossa contemporânea, que se põe problema dessa dimensão e menos ainda que se mostra capaz de encená-lo, dramatizá-lo e corresponder às suas exigências. Que não são poucas, nem pequenas.
As três narrativas de Mocó – “Soren”, “Edgar” e “Alex” –, percorrem um labirinto com seus meio-heróis, o labirinto de seus meio-heróis e constroem-se como labirinto. A história, o pensamento, os desvãos psicológicos e ideológicos, as ilusões e compensações do processo da modernização conservadora e não resolvida do Brasil contemporâneo compõem a matéria conflituosa e agônica que lhes dá consistência. Mas como a consistência dessa história de periferia insustentável é muito duvidosa, as narrativas oscilam como sopradas por ventos contrários. As lutas, os conflitos e tensões existem e se esvaziam; derrisórios, mas não inúteis nem gratuitos.
Mocó será, então, literatura? Sim e não, porque seu estatuto é a negação mesma do belo, do bom e do verdadeiro no mundo; sua procura é a de saber se o nosso “mal à brasileira” é solúvel no ar ou farpa na carne, ou as duas coisas; mal que se nega e se impõe como presença difícil de nomear e que também joga a literatura para o alto.
As três narrativas de Mocó, – com seus heróis de bufonerias, sombras e sarcasmos –, não dão trégua ao peso que carregamos e destilam, na sua síntese implacável onde nada está demais ou de menos no estilo e no timbre, um fluido de expressão e provocação a que o leitor não tem como responder com indiferença. É um trabalho novo e renovador na obra já larga do autor e na prosa brasileira do tempo que corre.

Apresentação especial para o livro Mocó