Novo Endereço, de Fabio Weintraub
Nelson de Oliveira

Prêmio Cidade de Juiz de Fora, 2001 e Prêmio Casa de Las Américas, 2004
Nankin Editorial, 72 p., 2002


A vida está cada dia mais difícil de ser decifrada. Minuto após minuto, mais assaltos, mais estupros, mais seqüestros. Se comparados com os de trinta anos atrás, os dias de hoje parecem muito mais violentos, muito mais desequilibrados, em todos os sentidos: político, econômico e social. Mais subornos, mais maracutaias, mais desvios de verba pública. Os governantes pouco a pouco vão perdendo a moral, já não têm mais como conduzir o país, que naufraga no brejo dos escândalos. O pior reflexo disso está nos meios de comunicação. Na tevê: Casa dos Artistas, Ratinho, Big Brother e quejandos.
No mercado editorial, o jorro dos manuais de auto-ajuda, da ficção travestida de suprarrealidade, como a produzida por Paulo Coelho e Zibia Gasparetto. O grande problema com livros como Brida e Pelas portas do coração é que tentam demonstrar que o mundo não é só isso aí: violência pura. Tanto Paulo quanto Zibia vendem ideologia em estado bruto, doses cavalares de alienação. Criar mundos maravilhosos dentro de realidades paralelas é, na verdade, a função do grande artista, para quem o ato criador, em vez de camuflado, tem de ser sempre enaltecido. Mas criar mundos maravilhosos dentro de realidades paralelas e vendê-los como algo concreto, isso é no mínimo cafajestagem. Acredito em anjos e demônios, claro que sim. Mas só na literatura, no teatro e no cinema.
Curioso que eu tenha chegado até aqui -- comecei falando da paisagem devastada do Brasil contemporâneo e vim desaguar nos anjos e nos demônios. De qualquer maneira, o laço que amarra isso e aquilo é o mesmo que mantém juntos os novos poemas de Fabio Weintraub, cujos protagonistas são justamente os anjos e demônios do Brasil contemporâneo. Forçando a barra de leve, dá até para falar em representação do maravilhoso. Mas o que deve ser ressaltado no Novo endereço é o cuidado com que essa maravilhosa realidade é representada. Cuidado que abre mão da lente grande-angular, panorâmica, e vai direto ao microscópio. O título da coletânea alude ao salto de qualidade muito bem-vindo, dado do penúltimo livro de Fabio, Sistema de erros, para este.
São quarenta e dois poemas sobre as fissuras do cotidiano, quarenta e duas pequenas maquinetas de radiografar as ideologias, os níveis de alienação e os matizes das relações sociais. Como toda boa radiografia, elas nos mostram o que está a um palmo do nosso nariz, mas impossível aos olhos. Quando não vão mais longe, invadindo a privacidade do que supúnhamos inanimado: a calçada, as portas e as janelas da paisagem urbana. Para que esse exame dê resultado, é imprescindível o seguinte: que o leitor leia duas vezes cada poema. Prescrição tola? De jeito nenhum. Por exemplo, na primeira leitura, as molas, manivelas e engrenagens do poema Ferro-velho ganham contornos humanos tão claros a ponto de participarem de certa guerra territorial no mínimo bizarra. Na segunda leitura, tudo volta ao normal. Molas, manivelas e engrenagens tornam a ser tão-só isso -- mas a guerra continua, a bizarria permanece. Algo semelhante ocorre com Demolidora 3 irmãos: portas sem costas, sem postigo, aleijadas e desempregadas perfilam-se à espera sabe-se lá do que. Mas as portas, que na primeira leitura sugerem mendigos na fila da sopa, na segunda viram membros amputados de residências demolidas. Em Calçada dá-se o mesmo recurso de antropomorfização do inanimado, que sopra vida e movimento à calçada que parte célere pela cidade afora. Isso, na primeira leitura. Na leitura seguinte, tudo volta ao normal, porém agora enriquecido com a breve experiência de animação quase biológica.
Se nesses casos os objetos relacionam-se entre si e com os homens por meio da gramática afetiva destes, em outros, por conta do expediente de decalcar nas pessoas as qualidades das coisas, as relações humanas ganham a textura e a baixa temperatura dos objetos. Em Contrabando, a mulher grávida flagrada na cama é o barco que transporta o contrabando mais inocente que há, enquanto "num porto bem próximo / alguém agita um lenço / em nossa direção". Em Frescor, a percepção de algo tão volátil é representada pela qualidade da luz do sol no muro branco, da água na moringa, do pão novo, do dentifrício, de outros entes semelhantes. No breve Serviço completo, o melhor exemplo dessa síntese: "Porque a vida está tão unhas / o pequeno vende lixas / na saída do metrô // quanto ganha / cheira à noite // na viagem de esmalte".
A vida de unhas à mostra, que lixa alguma consegue comover -- ainda mais as do tipo vagabundo que os pobrezinhos oferecem na saída do metrô --, é o melhor retrato possível do fundo do poço. Mas esse retrato não seria completo se não contivesse também elementos redentores. Os poemas Pai e Mãe, entre outros, tomam posição do lado de lá da linha vermelha, lado em que os afetos da classe média se misturam com o descalabro do "país do futuro" de décadas atrás. O talento de Fabio Weintraub está em retratar essas figuras pequenas, fissuradas nas unhas do pé, na marca do esmalte, nos pombos no forro do sobrado, na retração da gengiva, no câncer que não veio, no cheiro de tinta nova do novo endereço, enquanto a casa desaba sobre a cabeça de todos.
Figuras minúsculas fissuradas no mínimo denominador comum. Nem mesmo o sexo escapa da condição pueril. No desnudamento dessa equação com infinitos pontos cegos que chamamos de realidade, o sexo aparece como de fato é: troca-troca de espantos poucas vezes ligado ao amor -- é assim em Laboratório, assim é em Iniciação --, quando não descamba para a condição de moeda e mercadoria, como em Quando acordar, eu me lavo (nestes três poemas o aspecto rude da condição erótica surge tão bem-realizado quanto n’A rosa púrpura do Cairo, sobre a mutilação genital de meninas, um dos melhores poemas presentes no irregular Sistema de erros). Dentro e fora do comércio, o sexo é a máxima manifestação de nossa natureza biológica, manifestação mal-educada, que desde cedo põe no chinelo os bons modos e o equilíbrio puramente racional. Quando as crianças topam com ele, não dá para prever até onde irá a engenhosidade humana. Basta ver o divertido Cadelas, relato que pega a vida por dois ângulos, o do nascimento (quando a cadela pare sete filhotes) e o do tesão (quando duas meninas passam leite em pó nas "xixoquinhas" e põem os filhotes para lamber).
As principais crenças disseminadas pela democracia burguesa -- a família como realidade natural, sagrada e eterna; os chavões do tipo "o trabalho dignifica", "os cidadãos são livres por natureza" e "todos têm direito a alimentação, educação, saúde e emprego" -- são desmascaradas, no Novo endereço, com delicadeza e melancolia. Com melancolia porque Fabio Weintraub, consciente do lugar privilegiado que acupa na sociedade, também está ciente de que poesia não muda nada, não faz revoluções. O poeta sabe que poesia, por mais que ponha a nu as ilusões, a ideologia dos produtores de idéias criada para submeter os produtores de bens, não muda muita coisa na consciência dos leitores. E, sabedor disso, não compactua. Entrega o estupro e o estuprador à única autoridade competente que reconhece: o apreciador de poesia. Se o estuprador vai ser julgado e condenado ou se, conseqüência mais comum, será absolvido mediante propina, isso não importa. A retidão de caráter está em não se aliar a ele, em não aumentar o saldo bancário vendendo anjos, demônios e todo o tipo de metafísica barata para quem não pode se defender.
Em resumo, não querendo transformar esta simples resenha num libelo -- mas já o tendo feito --, repetiria que a vida está cada dia mais difícil de ser decifrada, isso porque a realidade tem sido cada vez menos camuflada. As mazelas, antes cuidadosamente encobertas, têm vindo à luz com menos pudor graças à boa safra de políticos, professores, jornalistas e escritores esclarecidos.

Jornal do Brasil, 22/06/2002