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A vida está cada dia mais difícil de ser decifrada. Minuto
após minuto, mais assaltos, mais estupros, mais seqüestros.
Se comparados com os de trinta anos atrás, os dias de hoje parecem
muito mais violentos, muito mais desequilibrados, em todos os sentidos:
político, econômico e social. Mais subornos, mais maracutaias,
mais desvios de verba pública. Os governantes pouco a pouco vão
perdendo a moral, já não têm mais como conduzir o
país, que naufraga no brejo dos escândalos. O pior reflexo
disso está nos meios de comunicação. Na tevê:
Casa dos Artistas, Ratinho, Big Brother e quejandos.
No mercado editorial, o jorro dos manuais de auto-ajuda, da ficção
travestida de suprarrealidade, como a produzida por Paulo Coelho e Zibia
Gasparetto. O grande problema com livros como Brida e Pelas
portas do coração é que tentam demonstrar que
o mundo não é só isso aí: violência
pura. Tanto Paulo quanto Zibia vendem ideologia em estado bruto, doses
cavalares de alienação. Criar mundos maravilhosos dentro
de realidades paralelas é, na verdade, a função do
grande artista, para quem o ato criador, em vez de camuflado, tem de ser
sempre enaltecido. Mas criar mundos maravilhosos dentro de realidades
paralelas e vendê-los como algo concreto, isso é no mínimo
cafajestagem. Acredito em anjos e demônios, claro que sim. Mas só
na literatura, no teatro e no cinema.
Curioso que eu tenha chegado até aqui -- comecei falando da paisagem
devastada do Brasil contemporâneo e vim desaguar nos anjos e nos
demônios. De qualquer maneira, o laço que amarra isso e aquilo
é o mesmo que mantém juntos os novos poemas de Fabio Weintraub,
cujos protagonistas são justamente os anjos e demônios do
Brasil contemporâneo. Forçando a barra de leve, dá
até para falar em representação do maravilhoso. Mas
o que deve ser ressaltado no Novo endereço é o cuidado
com que essa maravilhosa realidade é representada. Cuidado que
abre mão da lente grande-angular, panorâmica, e vai direto
ao microscópio. O título da coletânea alude ao salto
de qualidade muito bem-vindo, dado do penúltimo livro de Fabio,
Sistema de erros, para este.
São quarenta e dois poemas sobre as fissuras do cotidiano, quarenta
e duas pequenas maquinetas de radiografar as ideologias, os níveis
de alienação e os matizes das relações sociais.
Como toda boa radiografia, elas nos mostram o que está a um palmo
do nosso nariz, mas impossível aos olhos. Quando não vão
mais longe, invadindo a privacidade do que supúnhamos inanimado:
a calçada, as portas e as janelas da paisagem urbana. Para que
esse exame dê resultado, é imprescindível o seguinte:
que o leitor leia duas vezes cada poema. Prescrição tola?
De jeito nenhum. Por exemplo, na primeira leitura, as molas, manivelas
e engrenagens do poema Ferro-velho ganham contornos humanos tão
claros a ponto de participarem de certa guerra territorial no mínimo
bizarra. Na segunda leitura, tudo volta ao normal. Molas, manivelas e
engrenagens tornam a ser tão-só isso -- mas a guerra continua,
a bizarria permanece. Algo semelhante ocorre com Demolidora 3 irmãos:
portas sem costas, sem postigo, aleijadas e desempregadas perfilam-se
à espera sabe-se lá do que. Mas as portas, que na primeira
leitura sugerem mendigos na fila da sopa, na segunda viram membros amputados
de residências demolidas. Em Calçada dá-se
o mesmo recurso de antropomorfização do inanimado, que sopra
vida e movimento à calçada que parte célere pela
cidade afora. Isso, na primeira leitura. Na leitura seguinte, tudo volta
ao normal, porém agora enriquecido com a breve experiência
de animação quase biológica.
Se nesses casos os objetos relacionam-se entre si e com os homens por
meio da gramática afetiva destes, em outros, por conta do expediente
de decalcar nas pessoas as qualidades das coisas, as relações
humanas ganham a textura e a baixa temperatura dos objetos. Em Contrabando,
a mulher grávida flagrada na cama é o barco que transporta
o contrabando mais inocente que há, enquanto "num porto bem
próximo / alguém agita um lenço / em nossa direção".
Em Frescor, a percepção de algo tão volátil
é representada pela qualidade da luz do sol no muro branco, da
água na moringa, do pão novo, do dentifrício, de
outros entes semelhantes. No breve Serviço completo, o melhor
exemplo dessa síntese: "Porque a vida está tão
unhas / o pequeno vende lixas / na saída do metrô // quanto
ganha / cheira à noite // na viagem de esmalte".
A vida de unhas à mostra, que lixa alguma consegue comover -- ainda
mais as do tipo vagabundo que os pobrezinhos oferecem na saída
do metrô --, é o melhor retrato possível do fundo
do poço. Mas esse retrato não seria completo se não
contivesse também elementos redentores. Os poemas Pai e
Mãe, entre outros, tomam posição do lado de
lá da linha vermelha, lado em que os afetos da classe média
se misturam com o descalabro do "país do futuro" de décadas
atrás. O talento de Fabio Weintraub está em retratar essas
figuras pequenas, fissuradas nas unhas do pé, na marca do esmalte,
nos pombos no forro do sobrado, na retração da gengiva,
no câncer que não veio, no cheiro de tinta nova do novo endereço,
enquanto a casa desaba sobre a cabeça de todos.
Figuras minúsculas fissuradas no mínimo denominador comum.
Nem mesmo o sexo escapa da condição pueril. No desnudamento
dessa equação com infinitos pontos cegos que chamamos de
realidade, o sexo aparece como de fato é: troca-troca de espantos
poucas vezes ligado ao amor -- é assim em Laboratório,
assim é em Iniciação --, quando não
descamba para a condição de moeda e mercadoria, como em
Quando acordar, eu me lavo (nestes três poemas o aspecto
rude da condição erótica surge tão bem-realizado
quanto n’A rosa púrpura do Cairo, sobre a mutilação
genital de meninas, um dos melhores poemas presentes no irregular Sistema
de erros). Dentro e fora do comércio, o sexo é a máxima
manifestação de nossa natureza biológica, manifestação
mal-educada, que desde cedo põe no chinelo os bons modos e o equilíbrio
puramente racional. Quando as crianças topam com ele, não
dá para prever até onde irá a engenhosidade humana.
Basta ver o divertido Cadelas, relato que pega a vida por dois
ângulos, o do nascimento (quando a cadela pare sete filhotes) e
o do tesão (quando duas meninas passam leite em pó nas "xixoquinhas"
e põem os filhotes para lamber).
As principais crenças disseminadas pela democracia burguesa --
a família como realidade natural, sagrada e eterna; os chavões
do tipo "o trabalho dignifica", "os cidadãos são
livres por natureza" e "todos têm direito a alimentação,
educação, saúde e emprego" -- são desmascaradas,
no Novo endereço, com delicadeza e melancolia. Com melancolia
porque Fabio Weintraub, consciente do lugar privilegiado que acupa na
sociedade, também está ciente de que poesia não muda
nada, não faz revoluções. O poeta sabe que poesia,
por mais que ponha a nu as ilusões, a ideologia dos produtores
de idéias criada para submeter os produtores de bens, não
muda muita coisa na consciência dos leitores. E, sabedor disso,
não compactua. Entrega o estupro e o estuprador à única
autoridade competente que reconhece: o apreciador de poesia. Se o estuprador
vai ser julgado e condenado ou se, conseqüência mais comum,
será absolvido mediante propina, isso não importa. A retidão
de caráter está em não se aliar a ele, em não
aumentar o saldo bancário vendendo anjos, demônios e todo
o tipo de metafísica barata para quem não pode se defender.
Em resumo, não querendo transformar esta simples resenha num libelo
-- mas já o tendo feito --, repetiria que a vida está cada
dia mais difícil de ser decifrada, isso porque a realidade tem
sido cada vez menos camuflada. As mazelas, antes cuidadosamente encobertas,
têm vindo à luz com menos pudor graças à boa
safra de políticos, professores, jornalistas e escritores esclarecidos.
Jornal
do Brasil, 22/06/2002
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