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Mudar de endereço, mudar a casa, arrumar as malas, desarrumar a estante
e voltar a amassar os livros, empacotar as panelas, o cuidado com os vidros,
desencostar a geladeira (e ver a quantidade de pó que ficou guardada sob,
por tanto tempo ali), jogar coisas fora (o novo endereço é menor, não
cabe tudo), empilhar as caixas e ver o que dá pra ir levando no carro
menor, o de uso comum, enquanto se espera o caminhão da companhia de mudança.
E ir levando as coisas, e a vida mesmo, porque nada pára enquanto se faz
a mudança. Há um novo endereço pra ser anotado, um novo CEP, uma nova
rua, um novo andamento de vento, um deslocamento estranho, umas pessoas
nunca vistas, um acordar estranho com uma luz diferente -- em outro ângulo
-- dentro da casa. E um misto de sensação de derrota e prospecção, de
perda, de coisas deixadas, de outras tantas a fazer e, de fato, um sentido
que é o da mudança mesmo.
Pensei primeiro nestas coisas todas quando tomei o livro que traz na capa
um longo basculante estreito, um vidro quebrado e um bule de esmalte para
café que se dá a ver sozinho. Raspas soltas na tinta da parede; vestígios
na fragilidade da cal, muito provavelmente. No espaço vazio, escuro, ao
lado do bule, um quase carimbo: Novo Endereço. Dentro do livro,
orelhas abertas, lado de dentro da capa, carimbos mesmo: vestígios do
correio. Espalhadas, aquela famosa quadrinha do serviço postal, algumas:
mudou-se, desconhecido, recusado, endereço insuficiente, falecido, ausente,
não existe o número indicado etc. Este é o retrato escrito da capa do
novo livro de poemas de Fabio Weintraub. Paulistano, psicólogo, autor
de Toda mudez será conquistada, 1992, e Sistema de erros, 1996.
Fabio hoje trabalha na Fundação Memorial da América Latina e coordena
uma coleção de poesia brasileira para a Nankin Editorial, a Janela do
Caos.
É entre a idéia dessa janela postal - com seus quadrinhos de marcar --
para uso exclusivo dos Correios e a da epígrafe de Simone Weil que disponho
os poemas de Fabio. Diz a epígrafe: ''Muitos não sentem com toda a alma
a diferença total que existe entre o aniquilamento de uma cidade e o exílio
irremediável fora dela''. Um sujeito que não se identifica, que muitas
vezes deseja ser outro, que noutras tantas vezes questiona-se acerca de
outros inúmeros não identificados, todos escondidos pela pesada argamassa
da cidade, vaidosa e onívora, e que desafia permanecer no mais inútil
dos percursos que ainda é o da poesia.
Humanizar-se nela. Assim, a poesia de Fabio parte disso para um recheio
quase extemporâneo ao nosso tempo -- doses de ternura --, para dizer cenas
de um cotidiano entremeado pela desconfiança e por uma recuperação de
alguma, mínima que seja, ainda, dose de solidariedade.
Em ''Outro'', neste fragmento que segue: ''desejo enorme / de não ser
este / portar outros gestos / vestir noutro dedo / o anel alheio / de
ter outra casa / noutra cidade / assinar cheques / com outro nome / outra
letra // (...)', fica posto o empenho de Fabio nesta constante desconfiança
em si mesmo. Ou como em ''Frescor'', um dos mais ternos poemas de seu
livro, nos dois últimos versos, quando quase sussurra: ''a boca fala /
do que está cheio o coração''. Ou no poema que dá título ao livro, ''Novo
endereço'', em que vários fragmentos da peça confirmam o dito das percepções
sensoriais da mudança, de uma espécie de um novo quase o mesmo, de um
novo que é apenas a repetição do de sempre: ''(...) // Há uma dor qualquer
na novidade / um cheiro ruim misturado / ao de tinta nova''. E mais adiante:
''Já perdi o fio: / o rude esmeril / lambe-me o metal / sem fagulha ou
grito''.
Talvez seja princípio comum na poesia brasileira contemporânea o desvio
provocado pela cidade - em nosso caso, brasileiro, cidades demasiado empobrecidas
de matéria e alma, cidades de vintém --, as percepções dela neste sujeito
que se descontrola, se desumaniza, se desvincula, procura se redescobrir
habitante, mínimo ponto de um lugar, qualquer que seja. Mas numa probabilidade
muito menor, neste talvez, é encontrar nesta mesma poesia um lastro, também
mínimo que seja, da gerência de uma proposta que pode ser pensada como
utópica: a de que mesmo engolido pela cidade em seu movimento lacerante
ainda haja o risco do encontro. Lacônico, ou por mais arriscado que nos
pareça, o que se pode fazer, mas um encontro. Está no poema ''Mais magro'':
''Mais magro / meu amigo está mais magro / volto a encontrá-lo (...) /
evito tocá-lo / pois a mera proximidade física / parece estranha agora
/ que meu amigo está mais magro // (...) / Eu lhe recito algum verso /
ele me ensina outro insulto / e há quase alegria de trégua / (...)' e,
adiante, ''Mas hoje estamos exaustos / há um dreno em nossa bondade: /
minha boca só tem dentes / e meu amigo / está mais magro''.
Depois, há muito a se pensar deste quadrado que o serviço postal carimba
nos envelopes sem lugar de chegada com suas especulações de vazio (mudou-se,
desconhecido, recusado, endereço insuficiente, falecido, ausente, não
existe o número indicado etc) que Fabio insere em seu livro para demarcar
o tom de sua poesia. E isto interessa muito. Alguma poesia que tome como
ponto de partida temático o lugar de chegada e que, com muita força, seja
devolvida deste destinatário anônimo, inexistente, para fazer a consciência
também voltar ao antes e as coisas tornarem ao mesmo lugar de onde saíram.
Vida
e arte, Fortaleza, 25/092002
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