Um novo graal para os "anos milagrosos" de Machado de Assis
Manuel da Costa Pinto
Colunista da Folha
Comentário do crítico Urbano Duarte sobre Machado de Assis em 1881: "As "Memorias Phosthumas de Braz Cubas" são um livro de philosophia mundana, sob fórma de romance. Para romance falta-lhe entrecho e o leitor vulgar pouco pasto achará para sua imaginação e curiosidade banaes".

Alcides Maya falando de Machado em 1904: "O creador, triste, porem amavel, do "Quincas Borba", do "D. Casmurro" e do "Braz Cubas" dá uma fórma esthetica differente ao espirito de duvida e á percepção de ridiculo que lhe assinalam todos os trabalhos".
Esses trechos, transcritos na grafia original, são uma amostra do rico material reunido pelo crítico Hélio de Seixas Guimarães em "Os Leitores de Machado de Assis" -investigação minuciosa de como o meio socioliterário teve impacto sobre a estrutura narrativa de seus romances.

A leitura desses artigos, produzidos quando os livros de Machado mal haviam saído da gráfica, mostra como uma obra que hoje ocupa o centro do cânone brasileiro era, à época, um corpo estranho que desnorteava os críticos. O simples fato de reuni-los num anexo de 200 páginas torna o trabalho fonte obrigatória.

Mas isso é pouco se comparado ao que ele representa como reflexão teórica. Pois, se o lugar de Machado é incontestável como "ponto de fuga e de chegada do movimento de formação da literatura brasileira" (Roberto Schwarz), sua "conversão" após a década de 1880 permanece um enigma.

Aplica-se a ele o que Joseph Frank disse sobre os últimos romances de Dostoiévski: os livros da maturidade, escritos a partir de "Memórias Póstumas", são os "anos milagrosos" cuja decifração é uma espécie de "graal dos estudos machadianos" (segundo expressão de John Gledson no prefácio da obra em discussão).

Organizador de uma edição de "Várias Histórias" recém-lançada pela Martins Fontes, Guimarães faz em "Os Leitores de Machado de Assis" uma análise que ilumina essa guinada (das narrativas sentimentais para obras que colocam em xeque a escrita romanesca) "pelo prisma da relação problemática entre narrador e leitor".

Partindo das teorias de Antonio Candido (para quem a produção ficcional traz as marcas de suas condições de circulação) e da "estética da recepção" (na qual todo texto supõe um "leitor ideal"), ele mostra como Machado foi conformando sua literatura à idéia de que seus leitores empíricos eram, afinal, uma miragem.

Em obras como "Ressurreição" e "A Mão e a Luva", Machado está "empenhado em transformar o gosto dos seus leitores". Em "Helena" e "Iaiá Garcia", emprega procedimentos do melodrama e do romance popular para atingir um público iletrado. Aos poucos, portanto, percebe a precariedade do "leitorado" e como era fantasioso supor, como José de Alencar, que haveria "um público numeroso e anônimo disperso pela vastidão do território nacional".

Nesse ponto, entra em ação a acuidade de um leitor que articula, sem reducionismos, análises textuais e fatos socioculturais. No capítulo decisivo do livro, Guimarães avalia a resposta literária de Machado ao "choque de realidade" representado pela divulgação do primeiro recenseamento do país, que em 1876 revelou que 84% da população brasileira era analfabeta (uma ducha de água fria na "retórica do artista missionário", investido de responsabilidades pedagógicas).

Numa reflexão à qual não falta senso de humor, Guimarães faz ver que, nos primeiros romances de Machado, "os narradores se comportam como "raisonneurs" que, postados na boca de cena e ofuscados pelos holofotes, parecem não distinguir as faces na platéia", ao passo que "nos romances da segunda fase os narradores passam a impressão cada vez mais aguda de que a platéia é ilusão" -como prova a famosa nota introdutória das "Memórias Póstumas", que afirma que a obra terá, "quando muito", dez leitores...

Mas esse é só o exemplo central de um livro que detecta, em cada romance de Machado, o modo como o narrador fustiga o leitor, construindo sua ficção sobre as ironias da incomunicabilidade.

Folha de São Paulo, Ilustrada, Sábado, 05/02/2005