O riso infernal de Dois Palhaços e uma Alcachofra
Elias Tomé Saliba
Especial para O Estado
Existe alguma coisa de tão intrinsecamente pessoal na memória humana que ela parece naturalmente condenada à extinção final. Conta-se que em tribos africanas dos suailes, as pessoas mortas que permanecem vivas na memória dos outros são chamadas de "mortos-vivos", pois eles acreditam que elas só estarão completamente mortas quando a última pessoa que as conheceu morrer. Passando para o plano coletivo esta é a grande inquietação que permeia nossa época, que parece, cada vez mais, vocacionada para o esquecimento social: o que acontecerá com a memória do Holocausto e de outros eventos tristemente célebres da história do século 20 quando desaparecerem todas as testemunhas? Se esta questão, colocada para os historiadores, tornou-se o tema central do último grande livro de Paul Ricoeur -- quando colocada para a literatura, ela recebe talvez o seu tratamento mais brilhante no romance A Ressurreição de Adam Stein (Francisco Alves), de Yoram Kaniuk, recentemente analisado em Dois Palhaços e Uma Alcachofra, da Nankin Editorial (290 págs., R$ 35,90), que foi tese de doutoramento, na USP, de Moacir Amâncio. O romance narra a trajetória de um palhaço judeu-alemão, prisioneiro de um campo de concentração. No campo, Adam é reconhecido pelo comandante. E como o palhaço, certa vez, havia feito o mesmo comandante sair de uma depressão e desistir do suicídio, acaba tendo de aceitar uma proposta: sua vida seria poupada desde que ele fizesse palhaçadas para os prisioneiros, quase todos destinados à câmara de gás. Mas Adam é obrigado a disputar comida e espaço para dormir com um cão. Terminada a guerra, recebe uma indenização do governo alemão e parte para Israel, em busca da sua filha que, entretanto, acaba morrendo, pouco antes de encontrá-lo. O palhaço, então, tem um surto paranóico, passa a se comportar como um cão e é internado. O último manicômio é um edifício no qual todos os internos acreditam que tinha sido construído para a espera messiânica e que o messias era, afinal, o próprio Adam. Assim resumido, tudo parece limitar-se a uma fábula inventiva que, contudo, é exaustivamente analisada em todos os detalhes. Entre todas as possibilidades interpretativas, Amâncio opta por esmiuçar... todas! Quase perdemos o fôlego quando o autor, com a vocação inclusiva do repórter e a sensibilidade de poeta, faz desfilar a trama infinita de relações, sobreposições e fusões, que nunca se excluem. Daí a dificuldade, e a quase impossibilidade, de resumir o essencial.

Temas nevrálgicos -- Mas ao cruzar perspectivas do romance com a arquitetura pós-moderna de Frank Gehry, Amâncio parece, ao nosso ver, apontar para dois temas nevrálgicos: o humor e a memória. Ao satirizar a funcionalidade canônica das construções, a arquitetura de Gehry é cômica. Mas, até onde é permitido rir? O entretenimento frívolo não engendra o esquecimento? Porque rir sempre, ou rir de tudo e de todos foi sempre uma impossibilidade. Há algo de artificial, de doentio e, até, de diabólico naquele riso crônico a respeito de tudo e de todos. Lembre-se a bela cena literária de Victor Hugo, em L'Homme Qui Rit, quando Ursus, impressionado com aquele menino disforme, que trazia o riso como marca perene e indelével, estampada no rosto, perguntou: "De que te ris? -- Eu não me rio -- respondeu o pequeno. Ursus sentiu uma espécie de estremecimento e disse: -- Então, és terrível." O palhaço Adam é um desses personagens terríveis, cujo riso tensiona nossa memória até os seus limites mais empedernidos. Afinal, quais os limites éticos, além dos quais o riso não seria mais possível? Se Dois Palhaços e Uma Alchachofra não responde -- e como poderia? -- a esta angustiante questão, acreditamos que ele se constrói inteiro neste complexo território comum partilhado pela História e pela Literatura, que é a memória coletiva.
Obviamente, a Alcachofra de Gehry não é apenas para rir: as entradas no sentido descendente, a ausência de referências espaciais e as surpreendentes epifanias de formas buscam a mobilização crítica: se o público continua sem saber para onde vamos -- e quem sabe? -- ele começa a pressentir que os monumentos apenas coisificam as lembranças e que a memória não é um lugar que possa ser visitado. Como partilhar e validar lembranças na voragem de um mundo que tudo transforma em mercadoria, triturando todo os valores pelas engrenagens da frivolidade? Para suprir a perda da memória, o humor atual -- personificado pelo palhaço pós-moderno de Kaniuk -- se junta ao luto pelo passado e refaz o diálogo com a tradição, embora por caminhos que não excluem as compulsões paranóicas.
Amâncio mostra como Kaniuk expõe todo o inumano da perda da memória e da identidade nas sucessivas transformações de Adam num cachorro. Animais são criaturas sem projeções, desprovidas de delírios de grandeza ou comoções exaltadas. O palhaço claudicante e bêbado, imitando o cão embotado parece-nos dizer, como Proust, que a recordação é algo quase visceral. Mas nem como cão Adam chega a perder totalmente sua memória (para frustração dos cultores da Disneylândia) embora sua transmutação seja tratada como "loucura" -- muito parecida com aquela coisa de "mortos-vivos" dos primitivos suailes. Os palhaços de Kaniuk -- eles mesmos -- vêem-se vivendo.
Possibilitando aos personagens representar o mundo como se estivessem representando a si próprios o humorismo transforma-se numa atitude rara, senão única, para servir de guia nesta obscura atmosfera de simulacros pós-modernos. Adam Stein, o palhaço ou o cão, vira um simulacro de alemão, de judeu, de europeu, de vidente e, finalmente, de personagem. É um palhaço que vive no limite da sua auto-anulação Os leitores mais atentos certamente vão perceber, nas entrelinhas de um livro erudito e bem temperado pelo estilo preciso do repórter, as diferenças entre o humor clássico, o moderno e o pós-moderno. O humor clássico parece retornar, a exemplo de Swift, com suas hilariantes reflexões sobre um cabo de vassoura. Adam Stein também lembra Jewey Jacó, personagem da hilariante Corrida do Movimento Perpétuo, feita em bicicleta, em O Super-Macho, do tresloucado Alfred Jarry. Kafka também está presente, a todo momento, reforçando o que dizia Max Brod a respeito das primeiras leituras, entre amigos, de novelas como Metamorfose: aquelas incontroláveis ondas de riso coletivo. Gehry também não leva a sério seus projetos arquitetônicos:

veste-se de palhaço, como "Chacrinha"; faz de Ginger and Fred, dois mal equilibrados edifícios para sede de uma companhia de seguros e sintetiza seu intuito cômico na Alcachofra, o museu Gugenheim, de Bilbao. Humor exorbitante e histriônico, fundado numa experiência peculiarmente judaica, mas, como mostra Amâncio, infinitamente desdobrado para exprimir a crise da identidade humana, reduzida ao estatuto de ínfima bugiganga descartável na grande máquina do mercado global. No clássico de Jonathan Swift o humor era inerente ao mundo e à condição humana; em Jarry ou em Kafkan -- tal como noutros modernistas, o humor-absurdo engasta-se no fluxo da vida e resulta da ruptura do fios que tecem a trama social e histórica. Já em Kaniuk, na precisa leitura de Amâncio, a condição judaica resume as fímbrias da própria condição humana: a trama histórica e social estilhaçou-se em fragmentos infinitos e ao humor só resta exprimir a falência do sentido, a inutilidade da linguagem, de sua destinação pública e a completa mutilação da lógica provocada pela amnésia social.

Porque Kaniuk nos lembra afinal, pela sensível análise de Moacir Amâncio, que na falta dos "mortos-vivos" -- dos primitivos suailes -- só a literatura pode salvar-nos da extinção final da nossa memória e de nossas lembranças.

O Estado de S. Paulo, Caderno 2, Domingo, 14/04/2002