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Filósofo de Semáforo, livro de crônicas reunidas, do cronista da
Folha da Região Hélio Consolaro é uma caixinha de Pandora. Pandora,
aquela linda mulher, criada e presenteada pelos deuses mitológicos com
os melhores e mais belos dotes, expôs o mundo a todos os males e misérias,
ao fazer abrir o recipiente indevido; mais ou menos como Eva nos fez ao
comer a maçã.
Ante nossos olhos, com humor sarcástico, fazendo saltar e desfilar cada
mazela e desgraça de nossas existências, o autor discorre: "Minha amiga
a vida é simples como uma batata quente (...) o segredo está em passá-la
pra frente, não guardá-la pra si".
O cronista que não dissimula quando publicamente murmura: "Nesses dias
de férias escolares, estou amolando meu machado, pois com ele cego não
devastarei o mundo das palavras, perderei o bom humor", faz questão de
não segredar que torna públicos seus sigilos ao incitar o leitor, como
num jogo de esconde-esconde, a procurá-los: "... conto meus segredos,
às vezes de forma direta, outras com sinuosidade...".
Cada página grita: Acusado! Um, dois, três. Dedução do Consa (seu apelido
carinhoso) entre os dígitos!
Hélio Consolaro é uma serpente do éden às avessas seduzindo-nos à rebelião
e, conquanto revoltado, o é pelo bem, pela esperança de que possamos crescer
e evoluir. Esperança, o consolo que restou aprisionado na fatídica caixa.
Não parece haver assunto não abordado, nem ferida que não cutuque, mas,
se as varas do escritor são curtas, entre as seleções já feitas, ali estão
as crônicas mais atraentes.
Em quase todos os textos escolhidos há um quê de lírico, como um doce
feito em tacho de cobre, em fogão de sapecar umbigo, com pitadas de meninice,
de moleque virado no tempero... Dou exemplos: "Parece que não encontro
o outro por mais que estenda os braços (...) mas às vezes me pergunto
se não seria melhor ter permanecido nela, sem problematizar tanto, passado
silenciosamente pela vida", e "Dessa vez fomos mais eficientes que os
soldados romanos, não houve manjedoura, só crucificação", ou "Tão distantes
e tão próximos, procuram a mesma coisa, e estão separados por apenas um
passo. Pode ser que recomecem o diálogo, se um deles não morrer de infarto
antes", ou ainda "Cara leitora, se sua patroa fosse tão burra assim, ela
não estaria no bem-bom nem você estaria trabalhando de graça para ela.
(...) Entrelinhas não é correio sentimental nem coluna de auto-ajuda,
mas você, leitora desiludida, precisa mudar de postura diante da vida.
Saia dessa deprê! Ajeite-se com um político, quem sabe ainda consiga ser
primeira-dama."
Imagino um guri que, ao ser flagrado pelo dono de um pomar durante o roubo
de uma fruta, instante antes de saltar por sobre o muro, brada desaforadamente
a sua alegria pela divisão e faz questão de demonstrar sua insatisfação
para com o egoísmo do possuidor do arvoredo.
Insatisfação? É própria de escritores! Irreverência? Faz parte da sedução!
Inconformismo? Ainda bem! Alguém pode discordar de alguma verdade do jornalista,
mas jamais do fato de que, além da jovialidade brincalhona e da casmurrice
eventual, há uma intencionalidade positiva e amorosa que se encontra nas
"entrelinhas" dessas crônicas.
Eis a oportunidade de redescobrir o cronista-moleque que pula amarelinha
política e roda pião social, enquanto se pode divisar o bodoque; se é
verdade que a atiradeira está no bolso traseiro, também é verdade que
ele a traz em riste.
O que mais posso enxergar? É sorrir da malcriadez do autor e chorar emocionada
com suas irreverências de caráter construtivo. É dizer que, quem vier
a ler, verá que o Hélio escritor travesso é ainda aquele menino barulhento
que à noite em seu colchão de palha pedia: "Bença, pai! Bença, mãe!"
Folha
da Região, Araçatuba, 22/12/2002.
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