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formal e ousadia temática em sonetos LUÍS AUGUSTO FISCHER |
Faz pouco tempo -- uns 200 e poucos anos apenas -- que virou moda essa idéia de que o artista bom é o que inventa tudo, da linguagem ao tema. Até então, a regra era oposta: bom artista era o que sabia fazer bem o que já tinha sido feito e que provaria ser tão bom quanto os maiorais do passado Essa novidade, na história da arte, leva o simpático nome de Romantismo. Desde que se instalou no Ocidente, e até hoje, com poucas variações, ele só fez consolidar seu prestigio --- pode conferir, em qualquer campo da produção artística, porque em todos se pode constatar que a regra dominante é artista inventor". Vaí daí, artista que pratica formas já existentes não ganha prestígio crítico. Pode até forrar os bolsos de grana feito cantor sertanejo ou pagodeiro de araque. Mas prestígio e reconhecimento, não senhor, não vai levar, porque não combina com nossa concepção de arte e de artista, que devem ter o compromisso inadiável com o novo. Mas há exceções. Na poesia brasileira de nosso tempo, tem o chamado Glauco Matoso, poeta raro, cultor do soneto, isso mesmo, aquela forma fixa de poesia com 14 versos (versão italiana, dois quartetos e dois tercetos; versão inglesa, três quartetos e um dístico). Forma inventada no remoto século 12, na Itália, e praticada largamente no Renascimento até o século 18, quando entra em declínio (voltou a respirar com parnasianos e simbolistas). O que o Glauco faz é bacana de ler e, às vezes, impressiona pelo acerto formal e pela ousadia temática. Tendo alta capacidade de versejar, faz tempo que publica sonetos; nos últimos anos, em razão de sua doença, o soneto tem sido para ele um amparo para a memória, conforme declara. Mas não é esse dado biográfico que garante qualidade a sua poesia -- Glauco é um belo poeta, que se vale de fórmula fixa para comentar coisas de nosso tempo e para dialogar com a tradição. Por isso, vale conferir Panacéia, coleção de cem sonetos. Folha de S. Paulo, Folhateen, 14/05/2001 |
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