Palavra e celebração
André Seffrin
Cada poeta enfrenta a seu modo as dificuldades do ofício. Das conquistas de foro íntimo, luta que se trava com palavras, às pequenas conquistas cotidianas: a edição dos livros e a busca incessante de interlocutores. O mineiro Iacyr Anderson Freitas encarou com persistência esses e outros revezes da vida literária. Em 2000, apresentou uma seleção de quase duas décadas de trabalho, Oceano coligido. Agora, A soleira e o século reúne sua produção de 1993 a 2002, isto é, seis livros, cinco deles inéditos e apenas um, Mirante, publicado em 1999 numa edição hoje fora de catálogo.
Poeta da linhagem dos visionários, ele encara o mundo não raro com ânimo de celebração. Não será um mero acaso, portanto, o prefácio de Lêdo Ivo, figura paradigmática de poeta visionário na literatura brasileira contemporânea. Na vertente moderna, têm origem em Rimbaud as primeiras águas dessa fonte inesgotável contra todos os excessos antidiscursivos que assolaram o século 20, quando o lirismo tornou-se peça de antiquário. Nesse contexto, do ponto de vista estilístico, o autor de A soleira e o século preza antes de tudo as reservas imponderáveis da palavra, e se deixa oxigenar pela mitologia do cotidiano com uma inteligência verbal sem cerebralismos, intuitiva e fluida.
Ele trabalha admiravelmente o verso livre e a forma fixa, a exemplo dos 33 sonetos de Mirante, que lembram a arte de um outro exímio sonetista, Nilo Aparecida Pinto, poeta dos anos 50/60, um dos tantos injustamente esquecidos dessa geração ainda muito mal estudada. Descontadas as diferenças de extração -- quase simbolista em Nilo, mais moderna em Iacyr --, pelo domínio técnico e vocabular, ambos fazem da arte do soneto um vitral de reflexos e entretons. Um vitral que guarda o colorido da paisagem e suas indispensáveis concavidades sonoras.
Claro, Minas Gerais lhe sugere um dos mais belos poemas do volume, "Um todo portátil", no qual fixa vertigem e silêncio das heranças para além do sangue e do tempo: "De Minas herdamos o que não se oferece/ em testamento, uns minérios que são mimos/ ao contrário, toda a lição, mudada em prece,/ do interdito que nos alcança onde fugimos.// De Minas herdamos algo que não existe./ Uma casa proibida, um domingo de Ramos/ entre muros, o risco de uma noite em riste./ Algo que nunca é bagagem, quando viajamos." Observe-se que, logo mais, no soneto "Décimo quinto mirante", reaparece a rima "riste/existe", solução, no caso, pouco recomendável.
Seu trânsito vai do tom elegíaco de "As mãos de meu pai", bastante próximo aos sons de um Joaquim Cardozo, à pura celebração do instante que passa, como em "Debuxo", terreno palmilhado pelos líricos de hoje e de sempre. São os poetas com poder de transformar em poesia tudo que observam e tocam no espaço terrestre: "As folhas de meu livro estão na horta,/ no quintal, no relvado do poejo./ Ali nenhuma letra é letra morta,/ e é literatura tudo o que vejo." Nas últimas cinco décadas, esse lirismo viveu emparedado entre o culto da forma dos herdeiros do Concretismo, prolongamento do esteticismo extremado da Geração de 45, e a "libertinagem" dos poetas dos anos 70, recrudescimento e diluição do legado modernista, ou seja, do primeiro Drummond e principalmente de Oswald de Andrade. Com o distanciamento necessário, Iacyr Anderson Freitas soube ser fiel a sua música interior e filtrou muito bem os ecos permanentes da tradição.

Bravo, 03/2003