Solidão e êxtase
Obras de Roberto Piva e Heitor Ferraz confrontam estilos opostos de poesia.
MARCELO COELHO

O êxtase. A maconha. O xamanismo. Certos meninos lindos. John Coltrane. Disto é feita a poesia de Roberto Piva.
A noite. A solidão. As tábuas largas de uma casa de infância. Fantasmas, passos, nostalgia. Disto se faz a poesia de Heitor Ferraz.
Há algo de artificial na tentativa de juntar dois poetas tão diferentes quanto Roberto Piva e Heitor Ferraz numa mesma resenha. Mas talvez a aproximação seja instrutiva.
Roberto Piva tem 60 anos. Marcou sua presença na poesia brasileira no começo da década de 60, com os livros Paranóia e Piazzas. Fez sentir o peso da poesia "beat", inconformista e marginal, contra a tendência que dominava então, a do intelectualismo e do rigor pós-45.
Até hoje, Roberto Piva é e se orgulha de ser um marginal. Como Zé Celso, como Plínio Marcos, insiste em sua revolução particular, a contrapelo de todos, num isolamento heróico, num sacrifício ritual.
Aos 60 anos, Roberto Piva é mais jovem, mais atirado, do que este jovem de 30, cauteloso, ladino, que é Heitor Ferraz.
O último livro de Roberto Piva -- Ciclones -- tem todo o vigor da adolescência. Nos seus momentos mais fracos, corresponde a uma idealização do desejo sexual puro e simples: "O garoto/ e seu cu em flor/ adorno de um deus/ deslumbrando o caos".
Há como que uma ideologia do sexo com adolescentes nas páginas deste livro. Tudo conduz ao "garoto vestido de menina" (pág. 59) , ao "garoto-Panzer" (pág. 58), ao garoto "que ataca planícies/ em debandada" (pág. 48) ao "meio-dia dourado" que "acaricia garotos" (pág. 43), ao "garoto-jaguar" (pág. 35), ao "corpo do garoto lunar" (pág. 33), ao "garoto Crevel/ garoto inferno" (pág. 87).
Certamente, "garoto" é a palavra mais usada neste livro de Roberto Piva. O autor parece identificar poesia, beleza, marginalidade e homossexualismo numa mesma construção, de desenho gracioso, de ímpeto dionisíaco, de realização brusca, liberta, ousada.
É como se cada poema fosse uma manobra de skate. Não se trata, aqui, de "inspiração", mas de gestualidade, de vôo, arroubo libertário-liberal.
Acontece que, mesmo se esquecermos a militância ideológica, marginal e maldita de Roberto Piva, poderemos encontrar neste livro uma coisa mais misteriosa, mais arbitrária, que se chama poesia. Penso em versos como "os cometas do coração" (pág. 19); ou no poema que diz: "O arco-íris/ é o colar do feiticeiro/ que apaga o dia/ com a mão direita/ & inaugura a noite/ com a mão esquerda". Penso no poema que fala da "encruzilhada dos cometas".
Roberto Piva dispõe das imagens como quem não quer nada, como se tudo fosse fácil, como se o mundo estivesse entregue a seu bel-prazer. Daí a fraqueza, daí a beleza de sua poesia. Garotos esculturais se entregam ao poeta como que por passe de mágica: este sucesso sexual é celebrado e traduzido em fácil amor à vida. Ao mesmo tempo, inspira os melhores poemas, os que se nutrem de distância, de aspiração xamânica, de inquietude, de insatisfação.
A meu ver, faltaria uma dose maior de insatisfação para fazer de Roberto Piva o poeta, o "vidente" da tradição rimbaudiana que ele segue. Suas visões correm o risco de resumir-se à celebração de sucessos vividos; ao êxtase, ao tesão, que funcionam ideologicamente, mas não garantem sempre o lirismo que ele exterioriza.
É como se a obra poética fosse uma justificação, um embelezamento, uma ideologia da vida bem-vivida e bem-gozada. A "verdade" desses textos, sentimos, está em outro lugar.
Os poemas de Heitor Ferraz são simetricamente opostos ao que nos propõe Roberto Piva. Temos aqui um poeta de seus trinta e poucos anos, falando como se fosse um velho, vivendo do desencanto e da nostalgia. A Mesma Noite é um livro repetitivo, mas não padece da repetição ideológica dos "garotos" de Roberto Piva. É intencionalmente repetitivo: volta sempre à insônia, à separação, ao sexo frustrante, que não leva a nada.
"Ausência/ de corpo/ que entrebraços se insinue" (pág. 25); "Vênus/ cada vez mais distante" (pág. 26); "Robinson urbano/ diante da fatalidade// irremediavelmente só" (pág. 32). Há um grito na pág. 34: "Não me misturo/ -- com essa gente,/ não me misturo".
Estamos diante da poesia-isolamento, da poesia-nostalgia, em oposição à poesia orgiástica, comungante, de Roberto Piva. O toque drummondiano de Heitor Ferraz se afasta das exclamações murilo-beats de Piva. O que haveria de comum, entretanto, nos dois?
Desconfio que seja, em parte, a idéia de uma poesia entendida como iluminação curta, como anotação do momento. Contra esta brevidade se insurge o subjetivismo, o confessional dos poemas de Heitor Ferraz. Contra essa brevidade se insurge o xamanismo, o alargamento libertário de Roberto Piva.
Ambos parecem lutar, contudo, dentro dos limites do poema curto, do poema "iluminação". Piva usa poucos verbos: faz uma poesia "dêitica", de apontamento. Ferraz, com uma sintaxe mais expandida, dá a entender que todos os poemas do livro, vivências solitárias, são variações de um único tema, fragmentos que não se somam de um só poema. O resultado é belíssimo.
Minha dúvida é se não estamos vivendo sob a convenção do poema curto, que dá às vezes a impressão de "truncamento" para o impulso lírico _claramente expansivo, no caso de Roberto, e intenso, em adágio, no caso de Ferraz.
Mas é que em ambos há uma experiência mais profunda, que talvez seja decisiva na poesia moderna brasileira: a de sentir a vida urbana como uma perda, como um desastre. As paisagens à beira-mar de Piva, a recordação de uma infância "antiga", interiorana, em Heitor Ferraz, surgem assim aos cacos, em fragmentos, que ao poeta é impossível juntar. Daí, provavelmente, a concisão: cada poema será reflexo rápido de algo que já foi, de uma vida menos artificial do que a imposta pela urbanização.
Se em Heitor Ferraz essa aspiração é dolorida e frustrada, em Roberto Pivaé epifânica e feliz. Falta felicidade a Heitor Ferraz, e parece sobrar felicidade em Roberto Piva. Mas a poesia não depende, claro, do grau de felicidade ou de infelicidade de cada um. Realiza-se, nestes livros, quando se abandona o nível do "registro", da "anotação", para alcançar essa "encruzilhada dos cometas" de que fala Piva, ou a "ausência de abismo e horizonte" que Ferraz evoca: lugares que não se apontam com o dedo.

Folha de São Paulo, Mais, 22/03/1998