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O talento do poeta e ensaísta Iacyr Anderson Freitas comparece agora
- como era de esperar - na limpidez dos contos que compõem seu novo livro,
intitulado Trinca dos traídos (São Paulo: Nankin/ Funalfa, 2003). Herdeiro,
neste sentido, do rigor cabralino, o autor transita pela narrativa com
a mesma competência e domínio demonstrados em seu conjunto de obra.
Nascido em Patrocínio do Muriaé, Minas Gerais, em 1963, Iacyr já obteve
diversas e importantes premiações literárias, tanto nacionais quanto internacionais.
Sua antologia poética Oceano coligido (São Paulo: Viramundo, 2000),
por exemplo, foi contemplada com o primeiro lugar no Prêmio Nacional Joaquim
Norberto, promovido pela União Brasileira de Escritores (UBE-RJ), tendo
sido considerada, ao lado de outro livro do mesmo autor, Messe
(também de 2000), como a melhor obra de poesia publicada naquele ano no
país. Essa mesma antologia arrebatou igualmente o primeiro lugar no "Premio
Internazionale Il Convivio", conferido na Itália às melhores obras publicadas
em português, italiano, francês e espanhol.
No início de outubro de 2003, foi a vez de A soleira e o século
(São Paulo: Nankin/ Funalfa, 2002) conquistar novamente o primeiro lugar
no mesmo prêmio italiano, depois de ter obtido também o posto máximo em
outra premiação nacional de destaque. Importante salientar que sua obra
ensaística não encontrou sorte diferente: os títulos mais recentes, Quatro
estudos (Juiz de Fora: D'Lira, 1998) e As perdas luminosas
(Salvador: Ed. UFBA/ Fundação Casa de Jorge Amado, 2001), alcançaram relevantes
distinções nacionais.
Sem permitir qualquer concessão ao lugar-comum, às soluções fáceis, Iacyr
mergulha agora, em Trinca dos traídos, no mar de si, calcado em sólida
formação intelectual. Do oceano da sua experiência ele recolhe pérolas
de grande beleza e originalidade: "Ouvindo talvez, dentro do peito, o
tambor escuro girar as manivelas do sangue, a foz ou a surda voz do sangue
entre as veias". Emerge, de alguns momentos do livro, uma densidade poética
que traz à lembrança um como que compartilhamento de visões: o olhar do
menino, do alto da mangueira, é uma extensão da perspectiva de Miguilim
e de nós mesmos, que, tantas vezes, atônitos, "olhamos mais que entendemos".
Nessa "trinca", as orações são atalhos para vias mais amplas. Múltiplos
caminhos que se alastram pelos sítios interiores. Da memória e do imaginário.
Caminhos que remetem a todos e a lugar algum. Caminhos de desencanto e
de dor ante o inevitável. Mas há uma esperança, amarga embora, e uma ternura.
Que persistem muito além, no limiar de outras histórias. Iacyr, como disse
de Ruy Espinheira Filho o crítico Mário da Silva Brito, também tem o dom
de "escrever no peito dos homens". Há que ter olhos para ler e alma para
sentir.
Com quatorze volumes de poesia e três de ensaio publicados, o autor já
teve a sua obra traduzida e divulgada em diversos países: Estados Unidos,
Itália, França, Espanha, Portugal, Argentina e Colômbia, entre outros.
Também fez parte, na década de 80, ao lado de nomes como Edimilson de
Almeida Pereira, Fernando Fiorese, José Henrique da Cruz e Luiz Ruffato,
do grupo que atuou na elaboração do folheto Abre Alas e da revista d´lira,
publicações que marcaram época em Minas Gerais.
Trinca dos traídos é obra inaugural, mosaico de narrativas que
oferece novas cores à bibliografia de Iacyr Anderson Freitas, agora também
aberta, com qualidade ímpar, à prosa de ficção. Mas obra que nasce (após
mais de 20 anos de exercício poético e ensaístico) já madura. Uma interlocução
entre o autor, o leitor e o signo que ainda nos escapa, à espera de um
nome.
Júlio Polidoro é poeta e escritor, tendo
publicado Orla dos signos em 2001 e Pequenos assaltos em
1990.
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