|
Em Trinca dos traídos (Nankin Editorial / Funalfa Edições, 2003),
Iacyr Anderson Freitas tece, com sutileza e refinamento, a metáfora da
vida como um jogo de cartas, elegendo dois naipes vermelhos - copas e
ouros - e um preto - espadas - como símbolos que se associam a alguns
dos temas mais relevantes à experiência humana: amor, trabalho e conflitos
(inter)pessoais, reunidos numa trinca de 8 ("Oito de Copas", "Oito de
Ouros", "Oito de Espadas").
Curiosamente, a representação gráfica desse algarismo nos remete, de certa
forma, a outro símbolo: o infinito - numa referência à vida como algo
dinâmico, em constante movimento.
Criando metáforas, o autor nos revela sua disposição natural do engenho,
porque o saber encontrar belas metáforas significa perceber ou pensar
a semelhança das coisas entre si, o conceito afim, fazendo-nos ver, ensinando-nos
a olhar e aprender com os modos de ser da linguagem os modos de ser do
ser.
Com seus contos, esse mineiro de Patrocínio do Muriaé visita vários aspectos
do amor, não apenas os momentos de paixão, entremeados de concepções,
muitas vezes, enganadoras, mas também o amor dos pais pelos filhos, o
amor fraternal, o amor a si próprio. Sua escrita instigante nos desafia
e nos faz pensar, por meio de seus personagens, sobre a importância de
desenvolvermos a capacidade humana do amor naquele nível que é, de fato,
desejável - um amor composto de madureza, autoconhecimento e coragem.
Aliam-se aos "problemas" do coração (órgão do desejo, tal como ele é retido,
encantado, no campo do Imaginário; esse "comboio de cordas", como diz
o poeta, que se dilata, falha, como o sexo), aliam-se a essas inquietudes
do coração outras experiências de dor, motivadas por perdas, dificuldades
do convívio, em casa ou no trabalho, dificuldades do viver só...
Neste livro, todo o talento de Iacyr Anderson Freitas está a serviço de
um fascinante jogo, sublinhado pela complexidade, finitude e singularidade
que caracterizam o ser humano; um curioso "jogo de cartas", cujo ganhador
é, com certeza, o leitor.
Luciana Teixeira - é mestra em Lingüística
e professora da UFJF.
Poiésis, 11/2003
|