![]() | Uma
obra para ser lida com o sabor das utopias Prof. Iná Camargo Costa analisa a história do teatro norte-americano |
| Ricardo
Araújo Especial para O Estado | |
| Em Panorama do Rio Vermelho,
Iná Camargo Costa consegue operar uma incrível manobra na história da formação
do teatro norte-americano, de tal forma que se poderia comparar, guardadas
as devidas proporções, a uma mudança nas cores da bandeira daquele país,
ou seja, em vez do azul e vermelho teríamos o completo domínio da cor vermelha.
Como a autora consegue a proeza? Instalando, através de um método que Maria Elisa Cevasco, autora do prefácio, denomina de "sugestão de sentimento", uma reordenação na crítica teatral americana das produções dos anos Roosevelt. É nesse quadro que Iná Camargo Costa analisa, através de pequenos panoramas críticos distribuídos em capítulos, momentos e personagens importantes da peregrinação do teatro norte-americano. No primeiro desses panoramas a autora remete o leitor para a história oficial, transpondo, com arguta retórica e competente conhecimento do teatro moderno, um pequeno fio que conduzirá daí para diante toda sua argumentação: há uma história, segundo ela, "dos vencidos", que se inscreve, à maneira criptográfica, na composição da história oficial, ou dos vencedores. Assim, a tarefa do crítico, como sempre ocorre, seria perceber como os vencedores tomam as roupagens dos vencidos (e Marx aqui não aparece por acaso, assim como os termos liberalismo, formalismo, marxismo, entre outros). 'Paterson Pageant' -- Estabelecidos um método de interpretação e "criada" uma história, Iná inicia uma exemplificação que é destrinchada diante dos olhares dos leitores como partes, cenas, atos, ou seja, como uma peça teatral. Nesse momento, temos as digressões sobre o início da arte moderna nos EUA com o Armory Show e o espetáculo operário de 1913 , Paterson Pageant, realizado no Madison Square Garden, do qual participaram John Reed, Mabel Dodge, Hutchins Hapgood, Walter Lipmann, Ernest Poole e Robert Edmond Jones. Em seguida, a autora se refere à liga anarquista IWW -- Industrial Workers of the World, como patrocinadora de teatro experimental tipicamente de vanguarda e a perseguição política que ficou conhecida como Red Scare, metamorfoseada posteriormente na perseguição às aglomerações de esquerda levadas a cabo pelo senador McCarthy. A galeria de retratos do panorama começa com o portrait de Elmer Rice, sem dúvida um herdeiro do expressionismo que, através de peças como On Trial, Judgement Day e The Adding Machine, considerada um dos momentos marcantes da vanguarda do teatro americano. Nas palavras de Iná Camargo Costa: " The Adding Machine é tida como a peça que deu carta de cidadania ao expressionismo nos Estados Unidos" (pág. 68). Na continuação do Panorama do Rio Vermelho, temos Eugene O'Neill e seu engajamento com a "causa" principalmente na leitura que a autora faz de The Hairy Ape e o contato de uma das personagens da peça Yank (típico trabalhador americano médio, desajustado e alienado) com a IWW -- Industrial Workers of the World. Yank se sindicaliza, mas seu desajuste continua e em um episódio interno com os wobblies -- como eram designados alguns militantes da IWW e palavra muito comum nos anos da guerra contra o Vietnã -- acaba sendo chamado de "macaco sem cérebro", o que problematiza ainda mais seu desajuste social. Campanha -- Para Iná Camargo Costa, essa peça de O'Neill seria mais uma vítima da campanha de silêncio em torno de textos nucleares que nortearam o moderno teatro americano. Escrita em 1924, The Hairy Ape desmascara a campanha contra os wobblies em pleno Sedition Act. Portanto, no texto de Eugene O'Neill, temos a autoconsciência expressionista estampada no evidente engajamento com as minorias em um momento pós-revolução russa e de histeria anticomunista experimentada por políticos e até por artistas do período. Na etapa seguinte, Iná Camargo Costa passa a expor alguns momentos vividos por algumas organizações de esquerda, nas décadas de 30 e 40 do século passado. Como todas as argumentações históricas que se prezam, a autora inicia falando sobre o crack da Bolsa de Nova York, de 1929, acrescentando que o PC já havia antecipado, profeticamente, a grande queda. É ainda sob esse clima que Clifford Odets, do Group Theatre, apresenta na Broadway Waiting for Left (1935) que, segundo Iná Camargo Costa "é incompreensível fora do clima de agitação". Já para Michael Denning, "a peça é uma espécie de síntese do sindicalismo da época" nos Estados Unidos. Sindicalismo -- Leitura de "clima de agitação" ou "síntese do sindicalismo da época" demonstram, portanto, a dificuldade em se penetrar em uma crítica de difícil acesso, cuja interpretação dependerá dos lastros de interesse que cada pesquisador abordará. Da parte da autora, que afinal interessa a este comentário, é evidente que a linha de atuação aponta para um trajeto, digamos assim, "progressista" de recontar a história. Os quatro últimos capítulos estão dedicados aos ícones do moderno teatro/cinema americano: Orson Welles, Tennessee Williams; Arthur Miller e James Dean. Na leitura da obra de Welles vale a pena ressaltar a argúcia de um crítico como Paulo Emílio Sales Gomes que, conforme Iná Camargo Costa, em 1958, chamava a atenção para uma leitura da obra do autor de Cidadão Kane, orientada por uma intersemioticidade cinema/teatro. Finalmente, o caso James Dean é reavaliado por outro ângulo a partir de seu contato com Lee Strasberg, no Actors'Studio -- ligado às organizações de esquerda -- e na filtragem desse aprendizado teatral que foi trasladado para o cinema. Uma última nota: é preciso ler o livro com o sabor das utopias, ouvindo uma balada de Joan Baez -- retomando um refrão que sempre tem sabor de retorno -- "I never died, says he" -- e lembrando, pois assim também se vive, do Rio Vermelho e da garota que o ama de verdade, ainda. O Estado de S. Paulo, Caderno 2, Sábado, 01/06/2002 |
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