| Vestígios
de vida na cidade Em seus poemas, Sérgio Alcides dá voz ao sentimento do homem urbano de não pertencer a nenhum lugar. VIVIANA BOSI |
O ar das cidades pode tornar os homens invisíveis, fazê-los sentir-se impapáveis. O segundo livro de poemas de Sérgio Alcides, carioca residente em São Paulo, divide-se em três partes: "Suíte", "O ar das cidades" e "Apartamentos". Estes nomes não reforçam a concretude própria de espaço, antes, ao contrário, mais acentuam o aspecto vago da humanidade gasosa que habita a cidade como fantasma incorpóeo, manifestando solidão e distância, até em relação a si mesmo. Vários tipos de poema se ecoam, como na seqüência "Guardado", "Recordação" e "Lembrança", ou "Vértigo" e "Um corpo que cai (em si)", e mesmo versos se correspondem e se entrelaçam. Assim, os textos parecem células interligadas que indicam a continuidade de um motivo central a se desdobrar: o estranhamento e a busca de si, como alguém que se força para fora do auto-exílio e procura, quiçá, alguma origem remota e incerta -- um Kaspar Hauser no meio da praça, sem âncoras, como a memória embaçada pelas rupturas desfiadas do tempo... O eu é representado como espantalho, vodu, clone, presença simulada: ser flutuante, não se pertence depois de haver abandonado o antigo corpo, e se vê em pedaços, análogo à cidade que habita -- alienados ambos. O tempo é transitório nas contínuas mutações da paisagem urbana, nos bruscos ruídos mecânicos da rua ou do apartamento ao lado: "instante que passou vazio". Mas o sujeito recolhe o mínimo vestígio a fim de reconhecer a própria experiência, ainda que partida e tendendo à ruína. Cada slide-poema tenta apanhar farrapos, troços, estilhaços, para reconstituir um impossível coração em meio às transformações. No passado, algumas imagens sólidas resistem, como as raízes de um oiti rompendo a calçda, e referem-se a "um sonho feliz de cidade", tempo vivido de fato, no Rio de Janeiro, menos abstrato do que o agora desenraizado de São Paulo. Os cheiros que impregnam os guardados são como essências que despertam para o reencontro consigo, quase inalcansável em outra pele, nadando em seu aquário interno, abrindo a porta do armário ou a frasqueira de perfume antiga -- troncos enterrados --agarrando-se na memória para superar a distância de si, numa "Volta ao coração": "Vem o sangue nadando a montante Não é o passado que retorna e me percorre o corpo a cada poro: sou eu mesmo presente / ausente que não tenho onde escorar e coro desamarrado no tempo jamais devolvido a mim." Mesclam-se inextricáveis o tempo, o espaço e a pessoa, de modo que só poderíamos considerar a busca do tempo perdido como reconstituição do próprio eu, que o poeta compara a uma estátua de cavalo quebrada que deveria ser colada para poder ser cavalgada de novo, mas jaz esfarelada, pó de gesso sujando o "chão presente", fluxo que continuamente se desfaz em nuvem e sonho: "agarrei este nada? Nem isto." Sem projeto de vida coeso, sem eu íntegro, sem fio de narrativa, o habitante da metópole alimenta-se assim mesmo dos cacos do passado, apegando-se a eles, de modo a sobreviver em contínua metamorfose. Desse modo, Sérgio Alcides captou com sensibilidade e imaginação uma disposição anímica característica da vida contemporânea, que se esvai tênue nas grandes cidades. Mesmo a fotografia da capa do livro reflete a temática da deambulação sem aura: a rua larga, de pedra, asfalto e cimento, e pessoas andando na calçada, achatadas quando vistas de cima (da janela ou do apartamento?) e pequenas em relaçào às suas sombras que avultam: "Passageiro do passageiro/pensar que é ronda ainda estar vivo." Jornal do Brasil, Idéias, 20/01/2001 |
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