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Em 1947, um vendedor parisiense estrangulou sua amante num hotel nos arredores
de Montparnasse. Após o crime, o vendedor, Edmond Rougé, se retirou para
um bosque e se suicidou. Esse teria sido mais um dos tantos casos de crime
passional que se multiplicam todos os anos nas páginas dos jornais. No
entanto, junto ao corpo da vítima, Edmond deixara, além da nota anunciando
seu suicídio iminente, o exemplar de um livro controvertido:
J'Irai Cracher sur Vos Tombes (Vou Cuspir em Seus Túmulo), tradução
francesa de um suposto autor americano, Vermon Sullivan.
O que o homicida não podia imaginar, entretanto, é que seu "lapso" seria
um pouco mais do que uma pista para a investigação do crime. Se já não
havia exatamente quem punir, pois o culpado estava morto também, era preciso
tratar de justificar o acontecido. Quem era aquele tal americano Vernon
Sullivan, que escrevera uma história de assassinato (cujo protagonista
Lee Anderson mata duas irmãs) perturbando a mente do vendedor parisiense?
O crime, que não tinha mais de ser desvendado, trazia à tona um outro
culpado: um autor que atentara contra os bons costumes, segundo a moral
vigente então. A imprensa prossegue, descobre: Vernon Sullivan era, na
verdade, o francês Boris Vian, escritor, poeta, músico e ainda engenheiro,
que animava as noites de Saint-Germain-des-Près. Hoje, ele completaria
81 anos.
De fato, naqueles tempos, muitos intelectuais agitavam Paris: além dos
próprios franceses como Sartre, Simone de Beauvoir, Raymond Queneau e
tantos outros, havia artistas de diversas procedências habitando a Cidade
Luz definitiva ou temporariamente. Na presença estrangeira notava-se o
norte-americano, como uma espécie de hóspede especial depois da participação
de seu país na guerra. E, como não poderia deixar de ser, a presença do
negro, discriminado nos EUA, trazia à França o jazz, entre outras coisas.
Assim, o Sullivan de Vian é um imaginário autor negro que cria um protagonista
(Lee Anderson) também negro, com a curiosa capacidade, porém, de se fazer
passar por branco. O verdadeiro autor, um intelectual dos mais intrigantes
de que já se teve notícia no cenário parisiense, era, ao contrário, um
branco tentando se passar por negro.
Talvez não fosse exagero dizer que Boris Vian tivesse de fato uma certa
negritude de alma, uma vez que, além da história autoral, insistia em
tocar seu trompete e difundir o jazz -- ritmo que surgiu nas comunidades
negras dos EUA -- nas noites francesas, apesar de um problema cardíaco
que se agravava.
Não obstante, Vian legou ao público uma obra que também retratou com invencionismo
a Paris do pós-guerra, aproveitando da França a força da corrente surrealista,
com o que anunciava de onírico, erótico e, sobretudo, satírico.
O escândalo que envolveu a autoria do romance J'Irai Cracher sur Vos
Tombes o tornou na época um best seller. A ele se seguiu L'Écume
des Jours (A Espuma dos Dias), em 1947, num estilo marcadamente diferente
e com o nome do próprio Vian. Já não havia neste segundo romance o caráter
erótico e mórbido que assinava "Sullivan", mas um aproveitamento de traços
assinalados como surrealistas. De todo modo, Vian se tornava um nome célebre
e assim permaneceria, desafiando em parte os modismos e perpetuando um
humor ferino renovável por si mesmo.
Mas Boris Vian é praticamente desconhecido no Brasil. Cultuado em muitos
países, para os quais foi traduzido, seu nome chega a indicar duas mil
referências na Internet. Aqui, se as duas obras acima mencionadas foram
vertidas para o português há algum tempo, sua poesia permaneceu inexplicavelmente
inédita, bem como o repertório de suas composições.
Dois lançamentos, ambos na próxima quarta-feira, comemoram o aniversário
do escritor devem dar cabo dessa lacuna: o livro Boris Vian -- Poemas
e Canções, que apresenta uma seleção e tradução de poemas de Vian
da editora Nankin, realizada por outro poeta, Ruy Proença; e um disco
da Dabliú, Letícia Coura Canta Boris Vian, um piano e voz em que
a cantora e atriz Letícia Coura interpreta nove canções de Vian vertidas
e adaptadas por ela. O piano ficou por conta de Beba Zenettini (integrante
dos grupos Aquilo del Nisso e Café Jam), que fez arranjos lembrando o
estilo dos cabarés. Há ainda a participação do percussionista Vítor da
Trindade.
De acordo com o que afirmaram em entrevista ao Estado, Letícia e Beba
procuraram manter o humor de Vian, e as canções misturam um pouco o francês
e o português num tom jocoso. O resultado é um disco diferente, que ao
mesmo tempo que remonta às décadas idas, atualiza o compositor francês
por meio de letras e ritmos sempre apreciados, misturando-os a um certo
brasileirismo.
Beba Zenettini diz sentir algo de Tom Jobin em Vian e Letícia Coura o
associa, com pertinência, a Noel Rosa. Vale a pena conferir essa mistura
num espetáculo de estréia e lançamento, no Sesc Pompéia, onde Letícia
Coura e Benba Zenettini se apresentam.
Tradutor -- A antologia preparada e traduzida por Ruy Proença será
lançada no mesmo dia e conta com sua presença para apresentar Vian ao
público brasileiro e ler alguns poemas em português. Ruy Proença, que
é autor de A Lua Investirá com Seus Chifres (Giordano, 1996) e
Como um Dia Come o Outro (Nankin, 1999), e lança-se agora como
tradutor, trazendo uma pesquisa da poesia de Boris Vian, que partiu ao
menos de quatro livros do autor. O resultado é uma boa amostragem de uma
poesia inédita no Brasil, numa recriação que busca recuperar as características
de um Vian sutil e ao mesmo tempo mordaz. "O que me impressiona em Vian
é esse falar sério brincando, numa poesia nada cerimoniosa, ou seja, é
a dessacralização da poesia", explicou Ruy Proença ao Estado.
Com efeito, Boris Vian pouco tem de lirismo e muito de um humor bem marcado
em que o grotesco e o macabro podem se misturar ao riso. Às vezes se trata
do humor negro, tão bem trabalhado por um Jacques Prévert, por exemplo,
que foi seu grande amigo. Mas o humor de Vian teria sido até classificado
como "vermelho" (Caradec, Les Lurettes Fourrées, Pauvert, 1962), por esconder
uma angústia do existir, não exatamente "negra", mas de um "vermelho vivo"
que se transformaria em "azul escuro ao secar ao sol". Seja como for,
o riso na poesia de Vian é quase uma constante, e na provocação sente-se
a crítica. É o que podem mostrar, por exemplo, alguns versos traduzidos
por Ruy Proença.
Boris Vian, em 1948, apresentou ao público o "original' em inglês da malfadada
obra J'Irai Cracher sur Vos Tombes que o levou a ser processado
por desrespeito ao pudor e à moral. O trabalho de reescritura/tradução
não o livrou, nem a seu editor, da condenação em 1950, obrigando ambos
a pagar uma multa de 100 mil francos cada um. Sob a assinatura de Sullivan
haveria ainda mais três romances e Vian escreveria outros sob seu próprio
nome, além de compor canções e fazer boa poesia. Mas não poderia ter continuado
tocando trompete nas noites de Saint-Germain. Como seus versos denunciavam,
o poeta sabia que a morte o ameaçava: "Eu vejo o fim/ Que fervilha e que
chega/ Com sua horrível careta/ E que me abre os braços/ De sapo maneta"
(Não Queria Partir, tradução de Ruy Proença). Infelizmente, a morte veio
mesmo cedo, dentro de um cinema: o esperado ataque cardíaco. Era o ano
de 1959 e Vian entrara numa sessão privada do filme baseado em J'Irai
Cracher sur Vos Tombes, cuja versão cinematográfica lhe valera uma
querela.
Vian partiu aos 39 anos deixando versos, poesia, ensaios, artigos, romances
e a marca de muita inquietação. Jean Cocteau, um outro artista seu contemporâneo
afirmou: "Vian está acima do resto de nós, pessoas tímidas, limitadas
como somos a defrontar o plural e o singular" (citado em J. Campbell,
em À Margem Esquerda, Record, 2000). Embora não seja o caso de imaginar
que Cocteau ou os homens de sua época fossem exatamente limitados, vale
ressaltar que a oportunidade de rever a obra de Vian nas versões cantadas
por Letícia Coura e nos versos recriados por Ruy Proença vêm em tempo.
Tempo de se reler uma poesia cujo humor parece bem atual, mas que, inesperadamente,
em meio à crítica sarcástica, deixa vazar uma pitada de esperança, como
traduz Ruy, no poema Um Dia: "As horas serão diferentes/ Não iguais, sem
resultado/ Inútil fixar agora/ Os detalhes precisos disso tudo/ Uma certeza
subsiste: um dia/ Haverá algo além do dia."
O Estado
de São Paulo, Caderno 2, 10/03/2001
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