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Notícia de um grande escritor excluído
Um novo romance de Ariosto Augusto de Oliveira, 'O Vau da Vida', merece
calorosas boas vindas, porque tem linguagem sem paralelo na atual safra
literária brasileira
ALUÍZIO FALCÃO
Especial para o Estado
Deste nome, Ariosto Augusto de Oliveira, que escrevo com respeito, eu
jamais ouvira falar até a chegada, pelo Correio, de seu mais novo
romance, O Vau da Vida (195 páginas, Nankin Editorial, R$ 20,00).
Lido seu livro, sei agora do autor o essencial: é um grande escritor.
A trajetória biográfica, impressa no fim do volume, não
ajuda a conhecê-lo melhor. Ali se informa que é professor
aposentado pelo INSS e quase nada mais. Nota meio ressentida, com alusões
desnecessárias a outro professor que se saiu bem na vida e na política.
Encerra-se com certa graça, lembrando Brás Cubas, e diz
de Ariosto: "Ainda não foi Califa, jamais foi convidado a
assumir um mísero ministério - nem sequer no Gabão
- e sempre louvou, com grandes palavras, a virtude dos emplastos dos quais
é usuário contumaz para as suas muitas dores lombares."
Ah, um pouco antes desse registro, acha-se a relação das
obras do autor.
Ficamos sabendo que produziu outros dois romances e quatro coletâneas
de contos. Dentre estas, Na Mão Grande, com três edições,
que marcou sua estréia em 1983. Vou na internet e descubro que
o homem já entrou, há dois anos, na casa dos 60. Nasceu
em 1942. Estreou, portanto, aos 41 anos. Mais ou menos na idade que tinha
Graciliano Ramos ao lançar Caetés e Lya Luft quando publicou
o seu primeiro livro de contos.
Na orelha do Vau da Vida Valentim Facioli nos diz que Ariosto ganhou,
no ano 2000, com o livro Vila Nova de Málaga, o prêmio de
melhor romance dado pela Academia Paulista de Letras. A láurea
do nobre sodalício não repercutiu suficientemente para chamar
a atenção de sujeitos descuidados como eu.
Resenhista ocasional, desconheço os trâmites e distinções
da vida literária.
Mesmo assim, aos pedaços, deixo aqui modesta contribuição
para que o leitor descubra um talento fora do comum, quase mergulhado
no anonimato.
Faço todos esses rodeios de caso pensado, para sublinhar a falta
que nos faz, na mídia, uma crítica literária militante,
como existiu em outros tempos. Os romancistas brasileiros estão
entregues aos humores de resenhistas. Não é mais como antigamente,
quando havia gente especializada em julgar as obras e orientar leitores.
A crítica, hoje, saiu da imprensa diária e encastelou-se
bem longe, nos inacessíveis domínios acadêmicos. Isso
faz com que romancistas do calibre de Ariosto Augusto de Oliveira sejam
obrigados a mandar seus livros pelo Correio a jornalistas nem sempre dispostos
a escrever sobre não famosos.
Este Vau da Vida merece calorosas boas vindas. É obra superior
de quem amadureceu na lida ficcional e sabe tecer uma estória sem
modelo conhecido.
Ariosto cativa o leitor com linguagem extraordinariamente própria,
que surpreende a cada página. A estrutura do enredo é simples,
mas arrebata pela forma e seus desdobramentos. O narrador, homem de negócios,
doente grave, refugia-se no sertão para tentar a cura improvável.
Assistido por uma roceira, Fé Ascensão, vai sorvendo infusões
matutas e estórias ou reflexões de sua hospedeira. A voz
dela prevalece. E é por suas artes de conversar que entram e saem
de cena incontáveis personagens. Todos fortes, mesmo os que ocupam
meia dúzia de linhas. Não conheço técnica
igual na ficção brasileira.
A quem compará-lo? Simões Lopes Neto, Ariano Suassuna, Mário
de Andrade, Guimarães Rosa? Talvez por breves momentos, mas logo
Ariosto retoma suas peculiaridades. Mesclam-se, então, fantasia
e realidade, prosa poética, humor e sabedoria caipira, sem que
haja excessos ou afetações. Temos, neste livro, uma perfeita
lição de prosa literária.
Quando paramos, durante a leitura, para refletir se não está
acontecendo algum exibicionismo de estilo, uma voz paralela, talvez mesmo
a de Fé Ascensão, lembra que se trata de pecado venial.
Só exibe quem tem o que exibir. E seguimos noite adentro, livro
na mão, recebendo a visita de suas numerosas criaturas.
Uma delas, Beatriz Pimenta (trecho ao lado), é a encarnação
da teimosia feminina que desafia o machismo e seus inúteis arroubos
de comando.
Sucedem-se caricaturas morais em traços afiados, misturando valentia,
medo, riqueza, inveja e preguiça - esta, sintetizada no curto perfil
do falecido João Sentado: "... pelo nome, o senhor já
avalia as serventias dele; sentava em pedra, barranco, lascão de
cerca, banco de praça, degrau de escada, calcanhar, rede, e o que
mais a bunda encontrasse; acomodava-se, bem acomodado, e ali ficava horas
e horas só olhando as quenturas do dia."
Nas livrarias, quando se pede o novo romance de Ariosto, a informação
do atendente é um retrato do nosso comércio editorial: "Esse
aí está cadastrado, mas só encomendando..."
Ninguém aposta no catálogo de uma pequena editora que não
investe em marketing, e menos ainda promove um escritor ausente da mídia.
A qualidade é o que menos conta para abrir espaço nas estantes.
Cabe ao leitor o gesto de fazer a encomenda e impor seu critério
de justiça.
Este não é o primeiro caso de exclusão na literatura
brasileira. Há outros, e houve muitos no passado. Um deles foi
o de Marcos Rey, cujas batalhas perdidas, antes do tardio reconhecimento,
são exemplarmente narradas pelo jornalista Carlos Maranhão
no recente Maldição e Glória (Companhia da Letras,
239 páginas, R$ 41,00). Já dominando as suas faculdades
de grande autor, Marcos viveu a humilhação de redigir, para
sobreviver, anúncios de imobiliárias, roteiros de pornochanchadas,
e até cartas comerciais. Ariosto Augusto de Oliveira certamente
não faz estas concessões, mas é obrigado a tirar
o seu sustento de aposentadoria medíocre pelo INSS. E, no entanto,
ele merece, pela valia do seu trabalho de artista, uma existência
sossegada para criação de obras-primas como O Vau da Vida.
O Estado de São Paulo, Caderno 2, Sábado,
14 de agosto de 2004
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